O agro segundo Bill Gates

Um dos maiores empresários e bilionários do mundo observa com atenção as inovações no campo


Edição 19 - 07.04.20

Por André Sollitto

Quando Bill Gates decide se debruçar sobre algum assunto, são grandes as chances de vermos uma disrupção naquele setor. Não apenas porque ele possui uma das maiores fortunas do planeta, recursos que podem ser usados para financiar pesquisas e transformar ideias em aplicações de larga escala. Mas por conta de sua capacidade de mergulhar em um tema, identificando potenciais inovações e trabalhando junto com empreendedores para encontrar soluções eficazes. À frente da fundação que mantém com a mulher, Melinda, Bill já investiu na pesquisa por soluções para resolver o problema da falta de saneamento no planeta e segue em uma busca para acabar com a pólio no mundo. Recentemente, tem olhado com maior frequência para a agricultura.

Para aqueles que acompanham o empresário há algum tempo, o interesse faz total sentido. Afinal, o campo reúne alguns dos temas mais caros a ele: produção de alimentos, mudanças climáticas, energia e redução das emissões de dióxido de carbono na atmosfera. Em seu blog, Gates Notes, Bill compartilha um pouco do que está estudando no momento. Ele oferece muitas dicas de leitura – o empresário anda para cima e para baixo com uma enorme sacola de livros, um apanhado de calhamaços sobre história, densos estudos sobre temas como malária ou sono, e alguns títulos de ficção. Mas também divulga iniciativas inovadoras, muitas delas alvos de seus polpudos investimentos.

Em março de 2019, por exemplo, falou sobre um tema que já foi reportagem de capa da PLANT: o solo. “Cansei de peidos de vacas”, diz ele, abrindo o texto. “Rebanhos são um exemplo significativo e memorável de emissões, mas eles não são os únicos. Podíamos olhar para o solo”, escreve. Em seguida, explica como o carbono fica armazenado na terra e como é liberado na atmosfera quando árvores são derrubadas, por exemplo. “Como lutamos contra as mudanças climáticas causadas pela agricultura? Não podemos simplesmente nos livrar do solo, ou parar de plantar, criar rebanhos e usar fertilizantes”. À frente do Breakthrough Energy Ventures, grupo de investidores que inclui Jeff Bezos (dono da Amazon), Mark Zuckerberg (criador do facebook) e Jack Ma (bilionário chinês controlador do grupo Alibaba), entre outros, Gates tem feito investimentos em startups com soluções inovadoras nessa área. É o caso da Pivot Bio, que criou substitutos microbianos para fertilizantes sintéticos, capazes de reduzir as emissões de gases causadores do efeito estufa. Ele destaca outras iniciativas, como os revestimentos usados pelas empresas Apeel e Cambridge Crops para aumentar a validade de produtos perecíveis, ou ainda as variedades de trigo desenvolvidas pela Kernza – dotadas de raízes mais longas, podem estocar uma quantidade maior de carbono no solo. “Não vão descobrir uma bala de prata capaz de acabar com as mudanças climáticas. Com sorte, essas e outras inovações vão reduzir as emissões causadas pela agricultura o suficiente para evitar o pior”, escreveu.

Bill Gates também se diz apaixonado por fertilizantes. “É uma inovação mágica, responsável por salvar milhões de pessoas da fome e por tirar outros milhões da pobreza ao aumentar a produtividade agrícola”, afirmou no blog. O bilionário visitou um depósito em Dar es Salaam, na Tanzânia, que funciona como um centro de distribuição de fertilizantes no leste da África. “Cada grama tem o potencial de transformar vidas, mas esse potencial só é realizado quando chega às mãos dos produtores mais pobres, um desafio especialmente complicado na África”, diz. O depósito, mantido pela empresa Yara, tem trabalhado com o governo da Tanzânia para fomentar a demanda por fertilizantes, oferecendo treinamentos para os fazendeiros. “O depósito que visitei é uma peça na solução para melhorar a demanda e o suprimento de fertilizantes”, escreve ele. E sua própria fundação tem feito parcerias para incentivar seu uso consciente.

Como desenvolvedor de alguns dos softwares mais populares do planeta, Gates também está atento às inovações em aplicativos e programas disponíveis em smartphones. Em um post no Gates Notes publicado no final de 2018, ele fala sobre o MyAgro, app que permite que produtores sem uma conta em um banco possam guardar dinheiro, que será usado na compra de insumos com descontos. Por meio de um sistema de confiança estabelecido com esses produtores, eles já passaram da marca de 45 mil usuários no Mali e no Senegal, e a meta para 2020 é superar os 200 mil. A própria Microsoft desenvolveu uma solução, a FarmBeats, que usa espaços não utilizados na transmissão de canais de TV para fornecer internet a áreas rurais. A plataforma conta ainda com um sistema de captura e análise de dados das fazendas que fornece insights aos produtores.

Filantropia

O interesse do empresário pela agricultura não é apenas curiosidade. O agro é um campo de desenvolvimento de tecnologias disruptivas e lucrativas. Boas práticas também são economicamente interessantes. E, a longo prazo, melhores para o planeta. Em alguns casos, também é movido por sua dedicação à filantropia.

Essa guinada na carreira de Gates ganhou força no começo dos anos 2000. Na época, ele enfrentou um complicado processo movido pelo governo dos Estados Unidos contra a Microsoft, acusada de manter um monopólio no mercado de computadores pessoais. A batalha jurídica abalou a certeza de Gates de que ele jamais se afastaria de sua empresa. Ele e Melinda se interessavam por filantropia há um tempo e decidiram deixar as obrigações com a Microsoft progressivamente de lado para se concentrar na fundação. O casal transferiu US$ 20 bilhões para a causa e passou a viajar pelo mundo para ver de perto alguns dos problemas que tentariam resolver.

A iniciativa chamou a atenção do megainvestidor Warren Buffett, amigo pessoal de Bill Gates, que investiu mais US$ 10 bilhões. Hoje, o fundo patrimonial da Bill and Melinda Gates Foundation passa dos US$ 50 bilhões. Esses recursos são usados para financiar trabalhos acadêmicos, fomentar o desenvolvimento de soluções por startups e empresas.

A série O Código Bill Gates, do cineasta Davis Guggenheim – disponível na plataforma Netflix – mostra um pouco do método de trabalho de Gates e Melinda e como a fundação tem ajudado a descobrir maneiras mais eficientes de utilizar a energia nuclear ou alternativas ao vaso sanitário tradicional, que sofreu poucas modificações desde que foi inventado e é simplesmente inviável em diversos países do mundo.

Em busca de soluções

A pesquisa na agricultura é uma das seis áreas que mais recebem investimentos da fundação, atrás apenas de controle de doenças infecciosas, controle de malária, HIV, tuberculose e cuidados com a saúde reprodutiva. Foram US$ 807 milhões investidos até 2017. A fundação ainda financia o desenvolvimento agrícola e a gestão administrativa no campo. O objetivo é fomentar o que eles chamam de transformação agrícola, empoderando pequenos produtores para que eles produzam mais e melhor e sejam mais bem remunerados por seu trabalho.

Os investimentos são feitos em três áreas: desenvolvimento de produtos e tecnologias que aumentem a produtividade e a inclusão; sistemas de apoio à produção agrícola, geralmente em parceria com governos e outras instituições; e sistemas de impacto, como plataformas que ofereçam serviços aos produtores. O trabalho tem focado em alguns países: Etiópia, Nigéria e Tanzânia, na África; e Índia, na Ásia.

O Brasil, aparentemente, não está no radar de Gates. Embora seja uma potência agrícola, o País não é mencionado em suas pesquisas. Talvez fosse recomendável um convite para que viesse conhecer melhor algumas de nossas experiências. Gates certamente ficaria surpreso com a quantidade de soluções que poderiam ser aplicadas em larga escala para resolver alguns dos principais problemas do setor. Na área de energia, por exemplo, poderia compreender melhor como o Brasil desenvolveu um dos sistemas mais eficientes para a produção de biocombustíveis, capaz de compensar as emissões de carbono com grandes vantagens em relação aos modelos de motores elétricos utilizados em outras partes do mundo. É algo para tomar nota, Bill Gates.

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