A multiplicação dos peixes no alto do “Paranazão”

Novo hub de produção de peixe de cultivo ganha força entre São Paulo e Mato Grosso do Sul


Edição 19 - 16.04.20

Por Romualdo Venâncio

No alto do Rio Paraná, bem no comecinho da divisa entre os estados de São Paulo e Mato Grosso do Sul, encontra-se um dos principais complexos hidrelétricos do País. Estão ali as usinas de Ilha Solteira e Jupiá, que geram 3.444 MW e 1.550 MW, respectivamente, somando um potencial de quase 5.000 MW. Mas, para o agronegócio, o que mais tem chamado a atenção naquela região é a disponibilidade de água. Ou melhor, a quantidade de peixe que é possível cultivar nos lagos e na ramificação hídrica que abastecem essas usinas, estimada pela Peixe BR (Associação Brasileira da Piscicultura) em mais de 400 mil toneladas por ano, segundo Francisco Medeiros, presidente executivo da entidade. “Por enquanto, a produção está em 50 mil toneladas”, diz ele. Isso representa apenas 12,5% do potencial, ou seja, o “Paranazão” é um oceano de oportunidades.

Aquela área já aparece no mapa da piscicultura nacional como um dos três arranjos produtivos mais importantes. Os outros dois estão no Paraná, na região oeste do estado, e em Minas Gerais, na cidade de Morada Nova de Minas, que é cercada pela Represa Três Marias. O novo hub de peixe de cultivo, que está mais concentrado entre as cidades de Santa Fé do Sul (SP) e Aparecida do Taboado (MS) e é dedicado principalmente à produção de tilápia, se diferencia pelo crescimento rápido e de maneira mais estruturada. O fato de ter começado com produtores verticalizados facilitou a navegação para quem atracou em seguida, pois já havia a infraestrutura necessária para a entrada de novos empreendimentos.

Nos últimos cinco anos, essa expansão se intensificou, inclusive pela diversidade dos participantes desse arranjo, com diferentes perfis de piscicultores e empresas, vindas dos mais variados setores ligados à piscicultura. “Temos naquela região fábricas de ração, produção de alevinos e unidades de processamento. Isso abriu oportunidades também para outros segmentos, como o de serviços, um dos mais beneficiados por esse crescimento. Há uma série de atividades realizadas dentro e fora das unidades de produção que são terceirizadas, como manutenção, limpeza, segurança e transporte”, afirma Francisco. “O único segmento que ainda não se instalou por lá é o de saúde animal, os fabricantes de vacinas e medicamentos, por se tratar de um setor muito especializado, mais concentrado em São Paulo, e porque a logística para acessar a região é mais fácil hoje em dia.”

O fato de quase todos os integrantes dessa cadeia produtiva já terem se instalado em um dos lados do Rio Paraná por ali, ou nos dois, alimenta ainda mais o desenvolvimento da atividade e o apetite dos empresários. O Grupo Ambar Amaral, por exemplo, que está em solo e águas paulistas, produz entre 650 a 680 toneladas de tilápia por mês em três unidades. “Estamos adquirindo mais uma unidade produtiva e até o final deste ano chegaremos a 850 toneladas por mês”, diz Ramon Amaral, natural de Santa Fé do Sul, sócio-diretor e filho do fundador da empresa. Seu pai, Antonio Carlos Lopes do Amaral, que deixou a cidade para se dedicar à pecuária de corte em Mato Grosso, retornou em 2006 para inserir a piscicultura na história do grupo. E já com a ideia da verticalização.

Visão empreendedora

Ao enxergar uma oportunidade naquelas águas do Rio Paraná, Antonio Amaral já imaginou toda a estrutura do negócio, com fábrica de ração e frigorífico. Infelizmente, o empresário faleceu em janeiro de 2012 e não pôde ver a continuidade da transformação de seu projeto. Atualmente, a unidade de processamento que ele visualizou nos anos 2000 abate cerca de 700 toneladas de peixe por mês, enquanto a fábrica de ração tem produção mensal de 7 mil toneladas. E vai aumentar com a chegada de novos equipamentos, adquiridos recentemente. “Nossa capacidade subirá para 12 mil toneladas de ração por mês”, acrescenta Ramon, que também é médico-veterinário. Mas, como ele mesmo diz, apenas de formação: “Eu sou peixeiro. O título de veterinário ficou na faculdade”.

Os cortes de tilápia da Ambar Amaral chegam ao mercado com a marca Brazilian Fish e estão disponíveis também na rotisseria da família, uma charmosa loja dos produtos do grupo em Santa Fé do Sul, inclusive com pratos prontos. Mas é em outras vitrines, ou geladeiras, que a empresa ganha sua maior visibilidade, sua maior dimensão, pois seu principal mercado para tilápias é o de marcas próprias das grandes redes, como Qualitá, do GPA; Swift, da JBS; e Carrefour. Ramon afirma que as certificações e o sistema de rastreabilidade da empresa foram determinantes para conquistar tal abrangência. “A partir do código de barras do produto que chegou à sua casa, consigo passar uma série de informações. No caso das lojas, posso identificar, por exemplo, o dia em que nasceu o peixe que está na gôndola ou a fazenda onde foi comprado o milho para fazer a ração que ele comeu”, diz o empresário, com certo tom de satisfação.

Outro exemplo de como aquela região tem se tornado atrativa é a aposta da Aquafeed Nutrição Animal, dona da marca AquaQualy. A empresa se instalou em Aparecida do Taboado em 2016, com um projeto inicial de produzir 36 mil toneladas de ração por ano. No ano passado, após um processo de ampliação da unidade, o potencial produtivo aumentou 700%. “Agora, somadas as três linhas de produção – duas para engorda e uma para alevinagem –, nossa capacidade está em torno de 250 mil toneladas por ano”, afirma Eduardo Amorim, diretor-geral da empresa. O executivo evita comentar os investimentos feitos nessa expansão, mas garante que o impacto no faturamento mensal será bastante significativo. “Começamos faturando R$ 1 milhão por mês e agora estamos entre R$ 4,5 milhões e R$ 5 milhões. Com essa otimização, dentro de dois anos poderemos faturar R$ 8 milhões”, diz Eduardo, afirmando ainda haver muito espaço para crescer. “Diversas empresas estão chegando apenas a 40% ou 50% de sua capacidade de produção.”

Boa parte dessa evolução da Aquafeed é sustentada por avanços em tecnologia e agregação de valor na prestação de serviços. A fábrica, toda automatizada, dispõe de equipamentos de alta precisão para análise e seleção dos ingredientes das rações, como o NIR (Near Infrared Spectroscopy), um espectroscópio de infravermelho próximo. Cuidados como esses ajudaram a empresa a obter a certificação internacional BAP (Best Aquaculture Practices), uma condição para fazer parte da cadeia exportadora. Já no mercado local, ganhou espaço ao oferecer soluções que aumentassem a praticidade na rotina de produção e reduzissem os custos. É o caso da implantação de silos para distribuição a granel nas plantas dos clientes, assim a ração vai do silo diretamente para os barcos que abastecem os tanques-rede. Isso teve impacto direto em redução de custos com mão de obra, transporte e armazenagem.

Efeito cardume

Francisco Medeiros, da Peixe BR, acredita que o crescimento da piscicultura entre Santa Fé do Sul e Aparecida do Taboado tende a se intensificar a partir de agora, pois, além da base já construída para o progresso da atividade, não faltam exemplos do sucesso que pode se alcançar por lá. “A tendência é de que ainda nesta década a produção seja triplicada, ou pelo menos duplicada”, analisa o dirigente.

Como em qualquer setor do agronegócio, é exatamente quando se comprova que a coisa está dando certo do outro lado da cerca que surgem novos interessados. “Outro dia alguém comentou comigo que agricultor é tudo igual: se um resolve plantar sorgo na safrinha, vários outros fazem o mesmo, e assim acontece com milho ou sorgo. Esse é o efeito manada, que acontece em qualquer segmento, e não quer dizer que seja ruim”, diz Francisco. Para ele, em se tratando de agronegócio, essa movimentação coletiva é até bem positiva, pois protege, fortalece e aumenta a representatividade dos produtores.

No caso de Santa Fé do Sul e Aparecida do Taboado, pode-se dizer que é um efeito cardume. E o grupo acaba nadando para o lado que lhe parece mais favorável. De tão significativa, a definição dessa direção já começa a impactar até nas estatísticas do setor. De acordo com o Anuário Brasileiro da Piscicultura 2020, publicação lançada pela Peixe BR em fevereiro, a produção nacional de peixes de cultivo cresceu quase 5% na comparação do ano passado com 2018, subindo de 722,5 mil toneladas para 758 mil toneladas. Quando entra no detalhe, o levantamento mostra que São Paulo, ainda o segundo maior produtor nacional, registrou 69,8 mil toneladas de peixe de cultivo em 2019, com queda de 4,6% em relação a 2018, enquanto Mato Grosso do Sul produziu 29,8 mil toneladas e avançou 15,3%, passando da décima para a oitava posição nesse ranking.

A principal explicação para essas variações está na percepção de cada um desses estados sobre o potencial da piscicultura. “O governo sul-mato-grossense foi muito ágil e inteligente, criando uma política tributária altamente atrativa para o setor. Também identificou a dificuldade em relação às questões ambientais e elaborou uma política que desse celeridade aos processos”, explica Francisco. “Enquanto você leva de três a cinco anos para obter uma licença em São Paulo, com 180 dias já é possível dar andamento ao negócio em Mato Grosso do Sul. Qualquer empresário que decida investir por ali acaba indo para o lado de Aparecida do Taboado.”

Foi o que aconteceu com a GeneSeas, empresa controlada pelo fundo de investimentos independente Aqua Capital e que tem cinco propriedades nas proximidades do alto Paranazão, sendo três em São Paulo e duas em Mato Grosso do Sul. A companhia tinha ainda uma unidade de processamento na cidade paulista de Promissão, a uns 250 quilômetros da margem do Rio Paraná. Estrategicamente, fazia muito mais sentido esse frigorífico estar mais próximo de todo o complexo produtivo da empresa, tanto que em 2016 veio a decisão de mudá-lo de lugar. “Nossa fábrica está do lado do Mato Grosso do Sul por conta dos incentivos para levar o desenvolvimento para lá”, afirma Roberto Haag, CEO da GeneSeas e vice-presidente do Conselho de Administração da Peixe BR.

A GeneSeas nasceu em 2001, ainda como uma startup, e passou a ser controlada pelo Aqua Capital em 2015. Com um novo aporte de recursos financeiros, se tornou um nome de destaque na produção e na exportação de tilápias. As vendas externas vão principalmente para os Estados Unidos, um mercado bastante exigente que compra filés de tilápia frescos. “Nosso peixe sai do frigorífico e no prazo de um a três dias está em uma loja dos Estados Unidos”, assegura Roberto. Segundo ele, além de todo o cuidado com o padrão de qualidade dos peixes, há um grande desafio logístico, pois os carregamentos saem do Brasil de avião em voos comerciais. Outro mercado internacional atendido pela empresa é o Japão, que compra a pele dos peixes para produção de colágeno. “Como a rendimento da tilápia é relativamente baixo, apenas 30% vira filé, aproveitamos também os subprodutos”, diz o executivo. As carcaças dos animais, por exemplo, viram óleo e farinha.

Roberto também aposta alto no crescimento da piscicultura na região. “Ali há um potencial gigantesco e ainda pouco explorado, assim como em outros pontos do Brasil”, afirma. Mas não se trata apenas de um conceito, essa visão tem claro reflexo sobre os negócios. Como no caso da fábrica que migrou de Promissão, que foi construída no novo endereço para processar 40 toneladas de peixe por dia. No ano passado, a GeneSeas investiu R$ 25 milhões na expansão dessa unidade e o potencial mais que dobrou, chegando a 85 toneladas/dia. “O plano é processar 21 mil toneladas de tilápia em 2020, e para isso vamos buscar também peixes de outros produtores, pois a capacidade de nossas fazendas é de 15 mil toneladas”, acrescenta. A empresa tem ainda fábrica de ração para abastecer a cultivo das tilápias.

O melhor dos mundos

Se do lado de Mato Grosso do Sul os empreendedores encontram o estímulo de políticas tributária e ambiental, o que dá mais segurança para os investimentos e contribui para a redução dos custos de produção, em São Paulo há outros fatores bastante atrativos. O mercado consumidor é um deles. De maneira geral, o consumo nacional de pescados vem crescendo entre 8% e 10%, segundo a Peixe BR, com significativo avanço em restaurantes, nas redes de atacarejo e no segmento de food service. Esses setores são muito representativos no estado de São Paulo, sobretudo na capital.

Outro ponto favorável do lado paulista é a logística. “Mais ainda se a empresa for exportadora, por conta do porto [de Santos] e dos aeroportos. Isso acaba favorecendo a instalação de projetos mais robustos”, comenta Francisco, da Peixe BR. “As empresas que estão nos dois lados aproveitam as vantagens de cada um. É o melhor dos mundos.”

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Piscicultura brasileira em 2019

758 mil toneladas de peixe de cultivo
4,9% de crescimento sobre 2018
31% é o crescimento desde 2014*
432 mil toneladas só de tilápia
57% é quanto a tilápia representa no setor
*Primeiro ano do levantamento da Peixe BR
Fonte: Peixe BR

Piscicultura em São Paulo
Produção – peixe de cultivo
2019 – 69.800 t
2018 – 73.200 t
2017 – 69.500 t
2016 – 65.400 t
Produção por espécie – 2019
Tilápia – 64.900 t
Peixes nativos – 4.200 t
Outros (carpa, truta e panga) – 700 t
Fonte: Peixe BR

Piscicultura em Mato Grosso do Sul
Produção – peixe de cultivo
2019 – 29.800 t
2018 – 25.850 t
2017 – 25.500 t
2016 – 24.150 t
Produção por espécie – 2019
Tilápia – 25.300 t
Peixes nativos – 4.500 t
Fonte: Peixe BR

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