A influência leve de Blairo Maggi

Mais distante da política e mais ativo nas redes sociais, ex-ministro cultiva uma nova imagem


Edição 19 - 20.04.20

Por Luiz Fernando Sá

Da janela do edifício Concorde, o empresário Blairo Maggi tem uma visão privilegiada de tudo o que construiu. Enxerga, em primeiro plano, a Avenida André Maggi, moderna via que virou endereço do poder em Cuiabá. Poucos metros à direita, a menos de cinco minutos de caminhada, fica a bela sede do grupo AMaggi. Cruzando a rua, a Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Mato Grosso (Famato). Olhando à esquerda, o centro político-administrativo, com o prédio da Assembleia Legislativa e, um pouco mais ao fundo, o Palácio Paiaguás, base do governo estadual. Em cada um deles, Blairo deixou sua marca. Ex-presidente do AMaggi, ex-governador, ex-senador e ex-ministro da Agricultura, hoje, porém, guarda cuidadosa distância do cotidiano desses locais.

Desde que deixou o Ministério da Agricultura, há pouco mais de um ano, Blairo Maggi tratou de redefinir sua imagem. Sai o político – embora seu escritório no Concorde ainda receba a visita de prefeitos, deputados e correligionários e seja ingênuo pensar que ele não tenha voz ativa em várias questões eleitorais, sobretudo no estado. Entra uma espécie de influencer do agronegócio, uma pessoa mais leve, que expõe um lado doméstico e familiar para cerca de 90 mil seguidores no Facebook e outras 25 mil no Instagram. Suas postagens, antes conduzidas por assessores, hoje têm mais o seu dedo, resgatando suas relações com a terra, com momentos de prazer e com os antepassados. Quando questões mais relevantes sobre o agronegócio entram na pauta, não se omite, embora tente reforçar que fala como alguém que conhece os temas com a intimidade de quem frequentou o poder, mas que hoje prefere acompanhá-lo do lado de fora. Mesmo seu escritório na sede da AMaggi, que mantém como grande acionista, já não é tão utilizado como em outros tempos.

As interações em cada publicação nas redes sociais são contadas aos milhares, na imensa maioria positivas. PLANT acompanhou e analisou sua atividade no Facebook durante o ano de 2019 e pôde constatar como a empatia, apresentada pelo número de likes nos posts, cresceu ao longo desse período. Em seu último dia como ministro, 31 de dezembro de 2018, escreveu uma mensagem de despedida – não do cargo, mas, segundo afirmou, “da vida pública”. Treze meses depois, a postagem contabilizava módicos 153 curtidas, 18 comentários e cinco compartilhamentos.

Uma distância colossal da audiência registrada em sua publicação mais popular, feita em 7 de setembro passado. Nela, ele registrava, com uma foto histórica de família, as quatro décadas da chegada da AMaggi ao Mato Grosso.

Foi em um ‘7 de setembro’, que o Sr. André Maggi comprou a primeira Fazenda SM-1, em Itiquira. Lembro bem que eu estava em casa, em São Miguel do Iguaçu, ele ligou, e me disse: “Comprei uma fazenda para você cuidar”! E, desde então, estamos aqui. Eu, Hugo, Itamar e os colaboradores que vieram conosco. Agora, já é a 3ª geração vivendo e fazendo a vida por aqui.
Obrigado meu Pai pelo caminho que nos conduziu! Viva o Brasil pela sua Independência, e viva o dia em que marca o início de uma nova e longa jornada da família Maggi! 
#7desetembro🇧🇷 #matogrosso

Com 4,2 mil curtidas, 296 comentários e 195 compartilhamentos, a postagem revela como, ao se reencontrar com suas raízes, Blairo reconquistou uma aura de simpatia e humanidade que se desgastou nos muitos anos de gabinetes oficiais. Agora, exerce uma espécie de softpower, sem o peso das obrigações, mas com influência mantida. Sua opinião ainda vale ouro, seus movimentos, milhões de reais. Sem estar permanentemente na vitrine, pode escolher quando se expor e quando se recolher.

LAÇOS DE FAMÍLIA

Aos 87 anos, dona Lúcia é companhia frequente do filho Blairo nas redes sociais. O pai, André, morto em 2001, é constantemente lembrado. Ao lado dos filhos e netos, o ex-ministro demonstra que, aos 63 anos, o titã das lavouras e da agroindústria, ex-rei da soja, vive um período de deleite ao lado de sua corte, seja em Cuiabá, seja em Balneário Camboriú, no litoral de Santa Catarina, onde possui um apartamento para veraneio. Em janeiro passado, não faltaram fotos tomando cerveja com amigos à beira-mar ou jogando bola com um dos netos na areia. E também um vídeo na cozinha, preparando em casa a massa para a macarronada.

Como acontece anualmente, 3 de janeiro é dedicado a seu André, o homem que iniciou o império agrícola dos Maggi.

Bom dia! Hoje tem festa no Céu, meu Pai completaria 93 anos. Parabéns, Saudade eterna👏👏👏

A foto traz a capa da biografia do patriarca, escrita pela jornalista mato-grossense Martha Baptista e lançada no ano passado.

O mesmo acontece no dia dos pais. Em 11 de agosto, um Blairo com faca de corte na mão diante de um leitão assado, registrou a data celebrando um almoço com filhos e netos. No texto, porém, compartilhou ainda outro sentimento.

Passei um dia feliz com meus filhos e netos, mas no final do dia uma tristeza enorme tomou conta do meu coração. Saudades do meu Pai…😓 Quem já perdeu o seu, sabe a dor da saudade. Meu Pai André, esteja onde estiver vai meu beijo à vc! 🙏🏻#diadospais

A cozinha é, frequentemente, cenário para as publicações que tratam da relação com dona Lúcia. “É o lugar mais parecido com a casa da mãe”, diz ele em descontraído vídeo em que aparecem juntos, postado em 8 de dezembro passado. “Estou muito bem na casa do filhinho da mamãe”, afirma a matriarca, emoldurada por uma rosca que Blairo segura. Mais de 35 mil visualizações e 3,4 mil curtidas pra eles.

Duas semanas antes, o mesmo ambiente e os mesmos sorrisos registrados pelo filho:

Ontem foi dia de curtir mamãe!!! Recebi a visita surpresa da matriarca e como sempre, fomos juntos pra cozinha!!

MOTOSSERRA DE OURO

Numa rede social em que o debate político prosperou nos últimos anos, Blairo Maggi tem sido econômico em suas manifestações sobre temas sensíveis. Foram apenas quatro postagens de caráter político, sendo três delas para negar uma eventual candidatura para novo cargo eletivo, como fez em 19 de setembro.

Outros temas, como cozinha/gastronomia (nove posts, entre eles falando de camarão ao bafo, peixada, costelinhas e até omelete), férias na praia (sete posts), visitas a fazendas e lavouras (seis posts) Quando necessário, porém, registra sua opinião de forma clara. Em 23 de agosto, em meio ao calor das discussões sobre as queimadas na Amazônia, publicou seu texto mais longo, sem imagens, sobre a questão ambiental. Não deixou de tratar, inclusive, de um nada honroso título recebido:

Minhas práticas como empresário, agricultor nunca passaram a linha da lei, mas como Governador coube a mim a tarefa de lidar com algo parecido com o que está acontecendo agora. A culpa sempre recai em cima do Governante de plantão, exatamente o que acontece com Bolsonaro! (Sem culpa)
E não é com bravatas que se vence uma guerra como está
, mas com diálogo e união nacional! Esta união que deve vir dos envolvidos no caso!
Até hoje sou lembrado pela motosserra de ouro, e não reclamo, pois foi ela que me permitiu unir os Produtores e criar um programa chamado ‘MT Legal’, que regularizou o passivo ambiental em MT, sentamos na mesma mesa, MPE, MPF, IBAMA, Entidades Classistas. E depois, o exemplo serviu para fazer o Novo Código Florestal Brasileiro.
Eu já enfrentei isso, sei do que estou falando…

Em outubro, em um vídeo, esbarrou em outra questão delicada em Mato Grosso, a relação do agronegócio com os povos indígenas. Mas o fez em seu estilo light, revelando um encontro com um jovem da tribo dos Parecis chamado Blairo, em sua homenagem. “Você gosta do nome?”, pergunta. Em resposta ouve: “Cada vez que vou pra cidade me perguntam: ‘Mas não é Maggi, não, né?’”

TEMOS DE ESTAR ATENTOS

Capítulo à parte na jornada de Blairo nas redes sociais no ano passado foi a viagem que ele e outros acionistas e executivos da AMaggi fizeram ao Vale do Silício, meca da inovação tecnológica nos Estados Unidos, em setembro. O veterano agricultor ficou particularmente impressionado com o que viu na visita a startups como a Just Egg, que produz um ovo alternativo “que nunca chegou perto de uma galinha”, como diz no vídeo que ele fez no laboratório da empresa. “É chocante!”, afirma, com cara de incrédulo.

Na minha viagem ao Vale do Silício USA, lugar onde as startups sonham com tudo, são efervescentes as ideias! Não existem limites para mudar o mundo! Altíssimas tecnologias sendo desenvolvidas e essas tendências chegaram no Agro, na forma de fazer proteínas. As de animais, sendo substituídas por carnes, leite e ovos a partir de vegetais, ou carnes produzidas totalmente em laboratórios in vitro. É assustador este movimento, é uma desruptura total de como nos alimentamos até hoje. Muitas coisas ainda precisam ser respondidas, mas a pergunta não é mais, vão conseguir fazer? Mas sim, quando isso tudo chegará ao mercado para competir com tudo aquilo que estamos acostumados. Minha percepção: muito mais rápido do que imagino ou desejo!!!

Três dias antes, posando com um hambúrguer feito com carne substituta, produzida com base em proteínas vegetais, ele já havia indicado seu espanto com a velocidade das transformações que podem moldar o futuro do agronegócio. E advertiu: “Temos de estar atentos”.

Estou em viagem ao Vale do Silício, San Francisco USA, para conhecer as tendências do mundo com o uso de novas tecnologias, algumas coisas me chamaram a atenção! Muitas vão mudar não só no mundo digital, mas também, na agricultura e pecuária, ovo, leite e todo tipo de alimentos de origem animal! Todos aqui querem fazer uma disruptura em alguma coisa.
Tive a oportunidade de comer um hambúrguer feito de vegetais, o “Impossible Hambúrguer”, para minha surpresa é tão bom quanto o feito de carne bovina. Perguntei ao atendente qual a porcentagem de venda deste hambúrguer em referência ao outro, para minha surpresa: de 50 a 60%.
Nós temos que estar atentos para não sermos surpreendidos num futuro muito próximo!

Estará aqui uma indicação da próxima missão do influencer Blairo Maggi?

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