Agrotrends segundo Maurício Antônio Lopes, estudioso do agronegócio

Ex-presidente da Embrapa indicou movimento que vão guiar a produção de comida


Edição 18 - 02.03.20

Ex-presidente da Embrapa e um dos maiores estudiosos das tendências do agronegócio em todo o mundo, o pesquisador indicou os principais movimentos que vão guiar a produção de alimentos nos anos 2020.

Precisão e Sustentabilidade
Na próxima década veremos o fortalecimento do conceito de “manejo sítio-específico” nas fazendas, que é outro termo para caracterizar “agricultura de precisão”. Nas suas versões mais avançadas, envolverá o uso de algoritmos que analisam o estado geral das lavouras, as condições locais do solo e do clima para ajudar o agricultor, por exemplo, a definir a quantidade e o momento das aplicações de insumos, que são realizadas com grande precisão – usando equipamentos guiados por satélite – operando com grande exatidão através de sensores e atuadores que permitem aplicação de quantidades corretas nos locais e momentos adequados. A implementação de práticas de manejo sítio específico nas fazendas irá provocar uma revolução na agricultura, por algumas razões óbvias:
a) praticamente todas as áreas agrícolas têm variabilidade espacial significativa em fatores que afetam o rendimento das lavouras, como fertilidade, umidade, dispersão de pragas, etc.;
b) hoje dispomos de conhecimentos e instrumentos para identificar e medir múltiplas fontes de variabilidade; e
c) com esse conhecimento podemos usar ferramentas da tecnologia da informação e da comunicação, associadas a automação avançada, para modificar as práticas de manejo de forma a aumentar eficiência, reduzir impactos e tornar a agricultura mais sustentável, em resposta às expectativas da sociedade.

Nutrição Personalizada
Avanços recentes em genômica, combinados à possibilidade de se gerar e analisar grandes conjuntos de dados usando algoritmos avançados e inteligência artificial, já mostram que é biológica e fisiologicamente impossível desenvolver um conceito de dieta universal. Ou seja, é pouco provável que determinada composição alimentar responda à nossa enorme heterogeneidade genética, metabólica e nutricional. É por isso que as dietas no futuro provavelmente tenderão a ser individualizadas. Muito embora seja difícil antecipar todas as consequências práticas que tais conhecimentos poderão gerar no futuro, é importante monitorar os avanços cada vez mais rápidos no campo da nutrição personalizada de precisão e suas possíveis consequências sobre a agricultura e o sistema alimentar.

Biomassa e a Bioeconomia chegando às fazendas
Quando se avalia a monumental produção de biomassa em áreas agrícolas no cinturão tropical do globo e todos os problemas gerados anualmente pela queima intencional ou acidental de parte dessa biomassa, é impossível não considerar a emergência de alternativas de manejo sustentável desse recurso no futuro. Por isso não parece absurdo antecipar as fazendas do futuro com suas plantas de pirólise de biomassa para produção de biocarvão ou até mesmo o surgimento de biorefinarias capazes de aproveitar todo o potencial econômico da biomassa, com rotas de conversão capazes de transformá-la numa espécie de petróleo bruto, do qual possam ser destilados produtos líquidos, como bio-óleo, para produção de químicos industriais; produtos gasosos, como o bio-gás, como fonte energética; e produtos sólidos, como o biocarvão, a ser aplicado aos solos.

Insetos na dieta humana
Os insetos estão entre os organismos mais disseminados e abundantes no planeta, com cerca de 30 milhões de espécies, que juntas acumulam o maior volume de biomassa dentre todos os seres vivos. Estima-se haver mais de 200 milhões de insetos para cada ser humano, o que significa 140 quilos de insetos para cada quilo que cada um de nós acumula. Os insetos estão por aqui há cerca de 400 milhões de anos, o que lhes deu capacidade adaptativa extraordinária, além de habilidade de converter as mais variadas fontes de alimentos em proteína de alta qualidade, o que pode dar aos insetos um papel de destaque na composição das dietas humanas e de rações animais no futuro. Aproximadamente 2 bilhões de pessoas em 130 países já comem insetos regularmente e a FAO vem promovendo e estimulando a ampliação do seu uso como forma de prover proteínas, vitaminas e aminoácidos de alta qualidade para reforço das dietas humanas. Além do uso direto na alimentação humana, outra grande promessa é o uso de insetos devoradores de lixo e resíduos para produção de adubos orgânicos e rações animais.

Agricultura urbana, ou o agro ganhando espaço nas cidades
O quadro de urbanização acelerada e frequentemente desordenada está causando toda sorte de problemas ao redor do globo. Até 2030 estima-se que o mundo terá 43 megacidades com população superior a 10 milhões de pessoas, a maioria em regiões que não conseguirão criar oportunidades de emprego suficientes, em especial para a população mais pobre. Inevitável também é o crescimento dos problemas relacionados a moradia, transporte, lixo e esgotos, qualidade do ar, dentre muitos outros. É frente a este quadro de perplexidade com os múltiplos problemas gerados pelo crescimento desordenado das cidades que o tema agricultura urbana e peri-urbana ganha força, como estratégia complementar para redução da insegurança alimentar e da pobreza, e para melhoria da gestão ambiental urbana. Para se tornarem sustentáveis e resilientes as cidades precisarão ser socialmente inclusivas, produtivas e ambientalmente saudáveis. E como atividade essencialmente multifuncional, a agricultura pode contribuir enormemente para a superação de muitos dos problemas gerados pela urbanização, nas dimensões econômica, social e ambiental.

A mimetização da proteína animal
Dentre as tendências de mudança no padrão alimentar da sociedade, uma surge com força e ganha grande espaço entre os jovens e a população mais afluente. Trata-se da rejeição aos produtos de origem animal – em especial à carne. Comportamento usualmente justificado pelo impacto negativo dos sistemas de produção animal sobre o meio ambiente – com produção de gases de efeito estufa e outros poluentes, consumo excessivo de água, etc.. E também por questões humanitárias, relacionadas ao bem- estar animal, em especial na produção em escala industrial. Em resposta a esse movimento irá crescer a influência de modelos de negócios é
baseados na mimetização da carne, usando componentes exclusivamente derivados de vegetais. Estas “carnes” vegetais são produzidas com proteínas de grãos, batata, óleos vegetais, condimentos, aromas, etc., e usualmente servidas como hambúrgueres. Este é um negócio em franco crescimento e já surgem empresas se aventurando a produzir similares de peixe, frango, ovos e até de laticínios, como o leite, sem qualquer componente animal.

As leguminosas ganham mais importância e evidência
As leguminosas de grãos tradicionalmente utilizadas como alimentos, como a soja, os feijões, o grão-de-bico, a lentilha, a ervilha, o amendoim, dentre muitas outras, tendem a se tornar cada vez mais essenciais para a humanidade. Elas serão cada vez mais importantes no enfrentamento de desafios globais, com destaque para o alcance da segurança alimentar e nutricional de uma população em rápido crescimento; para a luta contra as emissões de gases de efeito estufa, que impactam as mudanças climáticas; e para o atendimento à crescente demanda por energia limpa, de baixo impacto para o meio ambiente. Há expectativas de que uma
gama diversificada de leguminosas alimentares ganhe espaço em resposta ao crescimento populacional e às mudanças demográficas previstas para as próximas décadas. Devido à sua capacidade de estabelecer simbiose com organismos fixadores de nitrogênio, as leguminosas são excelentes provedoras, a baixíssimo custo, desse nutriente essencial aos agroecossistemas, melhorando a produtividade das lavouras, o uso da água e de nutrientes caros e finitos, como o fósforo. E as leguminosas são componentes centrais no processo de intensificação sustentável dos sistemas produtivos, viabilizando consórcios e a integração de lavouras, pecuária e florestas, com uso mais intensivo e eficiente da terra, o que reduz as pressões da agropecuária sobre os recursos naturais, em especial as florestas nativas e os recursos hídricos.

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