Agrotrends: As proteínas que vêm da água

O fragmentado setor de piscicultura desponta por seu enorme potencial de inovação


Edição 18 - 02.03.20

Por André Sollitto

Com um mercado avaliado em US$ 13,3 bilhões, o setor de aquicultura é importante e promissor – e frequentemente ignorado na maioria das discussões sobre proteína animal. Até 2030, especialistas acreditam que 62% de todos os peixes consumidos serão provenientes de sistemas de aquicultura, e ainda assim é muito mais comum ouvir debates sobre gado, frango, e agora sobre as proteínas animais à base de plantas ou desenvolvidas em laboratório.

O setor é bastante fragmentado e a diferença tecnológica entre os mercados é enorme. A produção de salmão na Noruega, por exemplo, é muito avançada, enquanto a pesca de camarões no Vietnã é mais rudimentar. É nesse cenário de enorme potencial que algumas agtechs estão conquistando a confiança de produtores e despertando a atenção dos investidores.

No Brasil, a criação de pescados é uma das atividades que mais crescem no agro, com adoção cada vez maior de tecnologia. Existem várias empresas brasileiras que estão de olho no setor. A TatilFish é uma delas. As ferramentas desenvolvidas pela empresa de Londrina incluem o monitoramento da concentração de oxigênio dos tanques, automatizando o funcionamento dos aeradores, e o cálculo da quantidade de ração que deve ser oferecida nos alimentadores de acordo com a temperatura da água. A Embrapa resolveu fomentar a inovação no setor e lançou o Hackathon Inove Aqua, cujo objetivo será encontrar soluções para grandes problemas do setor. Com foco no público universitário, o evento acontecerá em maio, em Tocantins. Um dos destaques entre as agtechs estrangeiras é a canadense XpertSea, que usa ferramentas semelhantes àquelas adotadas por produtores rurais. A solução conta com um dispositivo que capta informações dos tanques de aquicultura e uma plataforma em que esses dados são analisados. A partir deles é possível tomar decisões para otimizar a produção e aumentar os lucros.

Assim como em outros setores do agronegócio, algumas das startups que estão despertando a atenção dos investidores lidam com pequenas dores dos produtores. A israelense BioFishency desenvolveu uma tecnologia de filtragem da água dos tanques – e recebeu US$ 2,4 milhões em uma rodada de investimentos. Já a norueguesa Molofeed criou uma ração de alta qualidade para camarões que facilita a digestão dos animais. São apenas dois cases que mostram a diversidade de um setor ainda pouco digitalizado.

O setor já tem até fundos de investimento de olho em startups com soluções para a aquicultura. É o caso do holandês Aqua Spark, que busca empresas pequenas e médias que apresentem um modelo de negócios que leve em conta a sustentabilidade econômica, ambiental e social. Eles têm inclusive uma agtech brasileira, a Fisher Piscicultura, em seu portfólio. A empresa mineira foi fundada em 2011 e oferece, entre outros serviços, tanques-rede de grande volume, voltados para o ganho de escala e melhor desempenho no cultivo.

Confira as outras tendências identificadas pela nossa reportagem:

Agbiotech para mudar o mundo

Produção em escala, cuidados individuais

Até onde vão as proteínas alternativas

Uma década para as agfintechs

Um setor com menos intermediários

Cannabis e o medo de uma viagem errada

Cultivo high tech: a segunda geração das fazendas urbanas

O consumidor como protagonista

Pulses: vida nova para os antigos grãos

Índia, a próxima fronteira

Pecuária 4.0 vai digitalizar os rebanhos

Agricultura regenerativa

A tecnologia promove o bem-estar animal

TAGS: Aqua Spark, BioFishency, Embrapa, Fisher Piscicultura, Hackathon Inove Aqua, Molofeed, TatilFish