Vinhos “diferentes”

Coluna TERROIR, por Irineu Guarnier Filho


21.02.20

Irineu Guarnier Filho é jornalista especializado em agronegócio, cobrindo este setor há três décadas. Metade deste período foi repórter especial, apresentador e colunista dos veículos do Grupo RBS, no Rio Grande do Sul. É Sommelier Internacional pela Fisar italiana, recebeu o Troféu Vitis, da Associação Brasileira de Enologia (ABE), atua como jurado em concursos internacionais de vinhos e edita o blog Cave Guarnier. Ocupa o cargo de Chefe de Gabinete na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul, prestando consultoria sobre agronegócio.

A minha já longa convivência com o mundo do vinho tem me proporcionado experiências únicas. As constantes visitas a diferentes regiões produtoras, no Brasil e no Exterior, a vinícolas, a vinhedos, e a convivência muito próxima com enófilos, lojistas, colecionadores, confrarias e, principalmente, com enólogos, volta e meia me surpreendem com vinhos “diferentes”, não encontrados no mercado.

Vou lembrar alguns exemplos. Há algum tempo, quando gravava uma reportagem sobre vinhos brasileiros antigos para o programa E Por Falar em Vinhos, do Canal Rural, a Vinícola Dal Pizzol, de Bento Gonçalves (RS), me presenteou com uma degustação única de um de seus vinhos mais antigos – um Do Lugar Cabernet Franc 1978, quardado a sete chaves na Enoteca da Casa. O vinho estava em ótima forma. De quebra, ainda abrimos mais duas garrafas com cerca de 30 anos de adega. Todas ótimas. Uma deferência muito especial que devo ao vinhateiro e querido amigo Antônio Dal Pizzol.

Em outra ocasião, durante outra gravação, o enólogo Gilberto Pedrucci, da Vinícola Pedrucci, de Garibaldi (RS), me surpreendeu com a degustação de um espumante Moscatel (sem rótulo) elaborado em…2007. O moscatel é, como se sabe, um vinho espumante adocicado de única fermentação e baixo teor alcóolico (7,5% em média), geralmente elaborado para ser consumido muito jovem. Neste caso, porém, o bebemos com nada menos do que nove anos de garrafa – uma raridade! O velho Moscatel estava soberbo. Douradão, cremoso, ainda com boa acidez, perlage inatacável e menos doce do que a média dos moscateis. Incomparável com qualquer outro vinho existente no mercado.

Mas ninguém me surpreendeu mais, nesses anos todos, do que o enólogo uruguaio Alejandro Cardozo, que faz vinhos em diferentes países, e, para nossa alegria, também aqui no Brasil. Seguidamente, o Alejandro me enviava uma caixa com vinhos, digamos, “diferentes” – alguns elaborados em parceria com outro enólogo autoral e criativo, o Irineo Dal Agnoll, da vinicola Estrelas do Brasil.

Dessas sensacionais “experiências” do Alejandro e do Irineo, destacaria o espumante tinto – sim, um espumante tinto! – Negro, elaborado com uvas Merlot. Também um Fumé Blanc, elaborado, naturalmente, com uvas Sauvignon Blac – mas com passagem por barrica de carvalho. E outro exemplar que provei há alguns anos: um espumante com seis anos de garrafa fermentado com rolha (em vez da tampa metálica provisória) e sem dègorgement (as leveduras mortas ainda estavam todas na garrafa). Delicioso!

São essas experiências sensoriais inusitadas, e sem preço, que fazem com que a crônica do vinho – que, modestamente, exerço há mais de dez anos na mídia brasileira – se torne um ofício tão prazeroso quanto divertido.

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