Agrotrends: Até onde vão as proteínas alternativas?

O mercado de carnes está mudando com a chegada das opções "plant based"


Edição 18 - 27.02.20

Por André Sollitto

Há cerca de três anos, o conceito de proteínas alternativas e carne à base de plantas não passava de uma curiosidade. Desde então, esse nicho tão pequeno do mercado cresceu com uma velocidade enorme. Cerca de US$ 16 bilhões foram investidos em startups do setor em um mercado estimado em US$ 888 milhões. Um relatório divulgado neste ano pelo banco Barclays estimava que até 10% do mercado de carnes poderia ser substituído por alternativas até 2029, mas hoje esses dados são considerados conservadores. A realidade pode ser ainda maior: 15% do mercado até 2025.

E ele não dá sinais de diminuir sua velocidade de crescimento. A Beyond Meat, principal food tech americana do setor, lançou seu IPO em março e o sucesso foi enorme, muito maior do que o esperado. Desde então, ela registrou um lucro de US$ 4,1 milhões no terceiro trimestre. Sua principal concorrente lá fora, a Impossible Foods, busca alcançar a marca de US$ 5 bilhões em avaliação após uma nova rodada de investimentos. A companhia americana lançou no início de 2020 a primeira versão “suína” de seus burgers alternativos, apontando uma outra tendência: Já começam a pipocar também substitutos “plant based” para outras fontes de proteínas animais, como aves e pescados.

Com essa demanda maior, as startups precisam lidar com a falta de insumos para a produção de seus alimentos. O que abre uma nova oportunidade no setor: grãos tradicionalmente ignorados passam a receber atenção renovada por conta de seu uso nas receitas. O governo canadense estabeleceu um plano de “dominação mundial” de insumos para proteínas alternativas, investindo US$ 153 milhões em pesquisas e desenvolvimento das chamadas proteínas veganas.

O aquecimento do mercado “plant based” tem movimentado também fundos de capital. O AgFunder, um dos mais tradicionais a focar exclusivamente em inovação no agro, criou o New Carnivore Alt Protein Fund, dedicado a investir em empresas early stage que façam parte do que eles chamam de “revolução das proteínas”. Mas eles não estão sozinhos. O Paine Schwartz, fundo de capital privado dedicado ao setor agrícola, levantou US$ 1,5 bilhão para seu quinto fundo, dedicado exclusivamente a essas alternativas.

Além das carnes à base de plantas, outra revolução vem se desenhando. Por enquanto, longe dos olhos do público. Tratam-se das carnes feitas em laboratório, desenvolvidas a partir do uso de células animais, mas sem o abate. O principal desafio dos pesquisadores é reproduzir o sabor e a textura da proteína original, e até agora eles obtiveram sucesso moderado em cortes específicos. Bifes já foram produzidos, mas outras peças ainda continuam distantes. O alto custo envolvido nessa produção também será repassado ao consumidor quando os produtos chegarem às prateleiras dos supermercados – algo que só deve acontecer no final de 2020 ou início de 2021. Há também um certo receio da população em provar uma “carne de laboratório”, algo que precisará ser trabalhado pelas startups que desenvolvem essa alternativa.

E essas proteínas todas representam apenas uma pequena faceta da categoria do mercado que engloba todo tipo de alimentos inovadores. Aqui, entram diversos produtos, do leite feito de amêndoas e outros grãos, por exemplo, às kombuchas, os chás fermentados que podem ou não ser alcoólicos e lá fora já disputam com as cervejas artesanais o gosto do público. O Radar AgTech 2019, maior levantamento de agtechs e food techs já realizado aqui no Brasil, mostrou o tamanho desse setor. Do total de 1125 empresas listadas, 224 dedicam-se ao desenvolvimento de alimentos inovadoras. É mais do que todas as startups que buscam soluções Dentro da Fazenda.

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