A força do glúten do cerrado

Trigo plantado na região de Minas Gerais surge como uma promessa de autossuficiência para o Brasil


Edição 17 - 23.01.20

Por André Sollitto

Até hoje, quando se fala nas regiões mais indicadas para a plantação de trigo, dificilmente Minas Gerais será a primeira opção para a maioria dos produtores. A ideia de plantar o grão em qualquer outro lugar fora do Paraná ou do Rio Grande do Sul parecia inviável, como plantar soja no Maranhão ou Piauí. Considerada uma cultura de inverno, o trigo simplesmente não se adaptaria ao clima desses estados. De fato, inúmeras tentativas deram errado. Mas assim como aconteceu com a soja, adaptada pela ciência a solos e climas diversos e hoje plantada em praticamente todo o Brasil, o trigo acabou vingando na região central do País. Novos cultivares, mais resistentes ao clima, espalharam o grão por Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Brasília e até Bahia. Mas ele se adaptou mesmo foi em Minas Gerais, graças à altitude e ao regime de chuvas. O estado já é o terceiro maior produtor de trigo do Brasil, atrás apenas do Paraná e Rio Grande do Sul. Os dados oficiais indicam 87 mil hectares plantados, mas o número real deve passar de 100 mil hectares. Com um pouco de otimismo, já dá até para sonhar com a autossuficiência.

A história do trigo na região central do Brasil tem quase 100 anos. As primeiras pesquisas com o plantio em Minas Gerais começaram no final da década de 1920. Nos anos 1940, uma campanha incentivou o plantio na região e o governo criou a Estação Experimental de Patos de Minas com o objetivo de criar cultivares adaptados ao clima da região. Após alguns anos de tentativas, ele caiu em declínio. Só voltou a ser pesquisado na metade da década de 1970 pelas equipes da Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (Epamig). Na mesma década, a Embrapa fundou uma unidade dedicada ao trigo, a primeira após a sede em Brasília. Nos anos 1990, a empresa passou a trabalhar em programas de melhoramento genético no cerrado na década de 1990. Mais recentemente, em 2014, estabeleceu um Núcleo Avançado de Pesquisa em Trigo Tropical, em Uberaba, Minas Gerais.

E se o desenvolvimento só ganhou velocidade nos últimos anos foi por conta do surgimento de variedades de soja de ciclo mais curto. Com isso, os produtores da região viram a oportunidade de plantar o trigo em regime de safrinha. “Isso mudou o cenário das propriedades. Abriu uma vaga para o trigo”, diz Vanoli Fronza, pesquisador da Embrapa Trigo na área de melhoramento genético. As vantagens são muitas. A cultura auxilia na rotação dos ingredientes e deixa a lavoura muito mais limpa após a colheita, principalmente em relação ao milho, uma opção popular de safrinha na região. Com isso, os produtores gastam menos com herbicidas para deixá-la pronta para a soja. A plantação do trigo também representa uma forma efetiva de atender à legislação do vazio sanitário, período de no mínimo 60 dias sem a cultura da soja com o objetivo de reduzir a sobrevivência do fungo causador da ferrugem asiática durante a entressafra e atrasar a ocorrência da doença durante a safra.

Segundo dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), a produção brasileira está estimada em 5,4 milhões de toneladas para a safra 2018/19. Para efeito de comparação, a Argentina produz normalmente 16 milhões, mas neste ano ultrapassou a marca de 20 milhões de toneladas. A região de Minas Gerais é responsável por 250 mil toneladas – o que ainda representa pouco, mas o potencial de crescimento é imenso. De acordo com Vanoli Fronza, o estado tem cerca de 200 mil hectares disponíveis a curto prazo para o plantio do trigo. Em Goiás, são outros 250 mil hectares, e outros 100 mil em Mato Grosso. “Dizemos que existe um número mágico de 2 milhões de hectares que poderiam ser explorados no Brasil Central”, diz o pesquisador da Embrapa.

O cenário é favorável, mas ainda há muito a melhorar. Por enquanto, a principal responsável por travar o desenvolvimento do trigo na região é a doença conhecida como brusone. Quando a infestação é alta e o controle não é eficaz, o prejuízo pode chegar a 50% da safra. “Estamos perto de ter grandes avanços em cultivares mais resistentes à doença”, diz Vanoli Fronza. “Acreditamos que dentro de cinco anos essas sementes estarão disponíveis no mercado”, afirma o pesquisador.

Fomentar a produção do trigo nacional é muito importante porque o Brasil ainda é um grande importador de trigo. De acordo com dados da Conab, o País consome cerca de 11 milhões de toneladas todos os anos, e importa de 50 a 70% dessa quantidade. O principal fornecedor é a Argentina, que exporta quase 70% de sua produção para cá. Uma parte do trigo importado vem do Paraguai, dos Estados Unidos e do Canadá. Além da produção não ser suficiente, o nosso grão tem uma qualidade inferior, com uma concentração de glúten menor do que o importado. Do total produzido aqui, só 30% servem para a panificação, enquanto o resto vai para a fabricação de outros tipos de farinha, como aquela usada em bolos. As novas variedades desenvolvidas pela Embrapa, no entanto, estão mudando esse cenário, apresentando uma força de glúten superior à do grão importado.

Demanda não falta. Segundo dados da Associação Brasileira da Indústria do Trigo (Abitrigo), em 2019, na comparação com 2018, a procura nacional por farinha de trigo e derivados deverá crescer 1,5%. A expansão, no entanto, não terá reflexos positivos nos resultados da indústria moageira, já que o setor não repassou aos consumidores a alta de 17% com os custos de produção. Esses custos envolvem principalmente o valor do frete, ainda mais alto por conta da importação.

A Abitrigo tem incentivado o desenvolvimento da indústria nacional. Em novembro de 2018, enviou aos candidatos à Presidência um documento, chamado Política Nacional do Trigo (PNT). Uma versão mais detalhada foi entregue à ministra da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), Tereza Cristina, em fevereiro deste ano. Trata-se de uma série de propostas, divididas em seis eixos temáticos (Ambiente Legal, Produção, Incentivos Fiscais, Ambiente de Negócios, Comércio Internacional e Logística e Infraestrutura), com o objetivo de fomentar o trabalho dos triticultores a partir de parcerias e do desenvolvimento de um livre mercado. O documento foi recentemente discutido no 26º Congresso Internacional da Indústria do Trigo, realizado em Campinas no final do mês de setembro. A história centenária do trigo no cerrado brasileiro caminha rapidamente para um de seus capítulos mais interessantes.

 

A evolução das varietais

Desde a década de 1990, a Embrapa lança cultivares de trigo irrigado e de sequeiro específicas para a região do Cerrado

BR 180 Terena

Introduzida ainda nos anos 1990, foi a primeira cultiva de trigo se sequeiro indicada para a região. Seu potencial é de 50 sacas por hectare.

BR 254 e BR 264

As varierais de trigo irrigado chegaram em 2005 e até hoje representam 80% de toda a área cultivada na região. O potencial é de 100 sacas por hectare.

BRS 394

A cultivar de trigo irrigado é a mais recente, lançada em 2015, e possui potencial de 100 sacas por hectare

BRS 404

Também introduzida em 2015, é a variedade de trigo de sequeiro com tolerância a brusone. Chegou a 86 sacas por hectare.

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