O Resgate do Solo

Por que, mais do que nunca, precisamos olhar para o que acontece sob nossos pés


Edição 17 - 28.10.19

Por Romualdo Venâncio

Na agropecuária, encomendar uma análise de solo é como acessar um extrato bancário. Primeiro pelo fato de as terras serem consideradas a maior riqueza da propriedade. E, segundo, porque assim como no balanço financeiro do negócio, desequilíbrio entre depósitos e retiradas é prenúncio de más notícias. Por mais simples que essa equação possa parecer, carrega certo grau de complexidade quanto à interpretação dos resultados e de suas consequências, para o bem ou para o mal. É melhor se dedicar a tal compreensão, pois quem vive da terra precisará se preocupar cada vez mais com o desempenho alcançado na parte de cima do solo – a performance das lavouras propriamente dita – e com as condições na parte de baixo, ou seja, a composição química, física e biológica. Não é opcional, é uma necessidade vital. Nem é individual, porque qualquer área agrícola degradada impacta, com maior ou menor intensidade, na preservação ambiental do planeta.

O que acontece sob nossos pés hoje é tão crucial que o mundo assumiu a recuperação de solos como agenda número um no combate às mudanças climáticas. E isso confere ao agronegócio um papel preponderante na preservação das condições de vida no planeta. Muitas vezes visto como vilão ambiental, o setor começa a ser visto mais como o mocinho que pode nos salvar de um desastre iminente. Isso justamente pela capacidade dos solos em sequestrar e manter confinadas enormes quantidades de dióxido de carbono (CO2), um dos principais gases responsáveis pelo chamado efeito estufa. Ótimos para quem produz, solos saudáveis e tratados de maneira responsável são igualmente importantes para toda a população mundial.

Com tantos olhares desconfiados mirando o setor, ainda mais no Brasil, por sua importância como fornecedor global de alimentos, fibras e energia, questionamentos e protestos não deixarão de existir, mas há chances de mudar a dose. A essa altura, alguém já deve estar se perguntando: “Se todo mundo sai beneficiado quando eu preservo minha fazenda, minhas terras, não deveríamos rachar o custo disso tudo?”. A conta não é bem essa, tampouco o discurso. Mas a boa-nova é que aquela história de “se não for por amor, será pela dor” ganhou mais uma variável: também pode ser por valor. Já começam a surgir iniciativas que preveem novas recompensas, inclusive financeiras, para quem zela pelo solo e garante um eficiente estoque de carbono. É uma nova pegada no agro.

Com a preservação do solo e o agronegócio no centro dos principais debates globais sobre sustentabilidade, qualquer discussão sobre mudanças climáticas e aquecimento global passará pelos índices de emissão dos gases de efeito estufa e seu impacto na camada de ozônio. O CO2 tem uma relação muito íntima com a agricultura e a pecuária. “O solo tem grande capacidade de estocar carbono, maior até do que a atmosfera. Ele aprisiona o carbono, e são as práticas de conservação de solo e água que aumentam esse potencial de aprisionamento, revertendo isso em melhorias de produtividade e benefícios para o meio ambiente e para o produtor”, afirma Joyce Monteiro, pesquisadora da Embrapa Solos.

Durante décadas, a agropecuária comercial aprendeu a transformar terras pouco férteis em ambientes altamente produtivos. A ciência e a indústria de fertilizantes prestaram grande serviço à população global desenvolvendo técnicas e nutrientes capazes de dar nova função a grandes faixas de terras antes sem uso. O problema é que, também em imensas áreas, o uso excessivo e o manejo equivocado levaram à degradação das terras destinadas à agropecuária. Elas foram castigadas pela erosão, desequilíbrio de nutrientes, compactação, poluição, acidificação, extração de água, aumento da salinidade e perda de biodiversidade. Como o solo abriga cerca de 25% da biodiversidade do planeta, o impacto é bem relevante.

“Entender o sistema solo como um ambiente extremamente complexo, dinâmico e vivo, é algo que faz a diferença no manejo agrícola”, diz Dorotéia Alves Ferreira, gerente de Produtos da Fertiláqua, em um artigo no qual destaca quão importante é o componente biológico desse sistema e a necessidade de que seja mais bem explorado, e relacionado com os resultados no campo. Segundo a executiva, a funcionalidade do sistema está ligada à biodiversidade dos grupos de organismos e microrganismos que compõem a biologia do solo. “Quando nos referimos aos microrganismos, este potencial funcional é ainda maior, visto que estudos revelam que realmente temos um mundo debaixo de nossos pés, com mais de 10 mil espécies de microrganismos por grama de solo”, acrescenta.

O estudo Status of the World’s Soil Resources, coordenado pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) e publicado em 2015, envolveu 600 pesquisadores de 60 países e concluiu que mais de 30% dos solos do mundo estão degradados. No Brasil, a preocupação é maior em relação aos pastos, pela extensão e pelos níveis de deterioração. Segundo levantamento da Embrapa, as áreas de pastagens, entre nativas e plantadas, somam 180,2 milhões de hectares, mais de 21% do território nacional. “Mas estima-se que aproximadamente metade dessa área esteja degradada ou apresente algum grau de degradação. São terras que poderiam ser aproveitadas para a agricultura”, comenta Flávio Bonini, gerente de Serviços Técnicos da Mosaic Fertilizantes, uma das empresas líderes no segmento de nutrientes para a agricultura.

A redução da capacidade produtiva do solo também aflige outras grandes potências agrícolas do mundo. O estado de Iowa, por exemplo, um dos maiores produtores de milho, soja e aveia dos Estados Unidos, é caracterizado por uma cobertura orgânica escura e tão rica em nutrientes e fértil que passaram a chamá-la de “ouro negro”. Mas entre o início e o final do século 20, a profundidade do solo caiu de uma medida entre 35 a 45 centímetros para algo entre 15 e 20 centímetros, como mostra a série Follow the Food, produzida pela BBC Future e pela BBC World News, com apoio da Corteva Agriscience. Apenas na primavera de 2014, por exemplo, a degradação levou algo próximo de 14 milhões de toneladas de solo em campos férteis do Iowa. Essa perda toda tem impacto direto na produção de alimentos, e por isso cresce a preocupação com as práticas agrícolas.

Safra de mudanças

O estudo da FAO sobre as condições dos solos também chama a atenção para a emergencial necessidade de se promover transformações impactantes nos modelos de produção agropecuária. “A degradação dos solos no mundo é muito alta e pode trazer consequências desastrosas nas próximas décadas para milhões de pessoas nas áreas mais vulneráveis”, analisa Maria de Lourdes Mendonça Santos Brefin, pesquisadora da Embrapa Solos que integra o comitê editorial e é a coordenadora para América Latina e Caribe dessa publicação. Segundo ela, sem ações concretas que envolvam indivíduos, setor privado, governos e organizações internacionais, a situação pode se agravar.

Essa condição é reforçada pelos dados de um relatório divulgado em agosto deste ano pelo Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC, sigla em inglês para Intergovernmental Panel on Climate Change), órgão das Nações Unidas para avaliar a ciência relacionada às mudanças climáticas. De acordo com o documento, a agricultura e o desmatamento geram cerca de 23% das emissões de gases de efeito estufa, incluindo aí 44% das emissões de metano. Com a população mundial crescendo, insistir em uma agricultura não sustentável pode até nos levar a um aumento maior que 2 °C no aquecimento global, o que vai prejudicar, entre outras coisas, o potencial de cultivar alimentos. A boa notícia, por outro lado, é que o relatório também diz ser possível reduzir tal impacto aumentando a capacidade de sequestro de carbono, o que pode ser feito com alterações nas práticas de agricultura e silvicultura de forma rápida e intensa. E é bem verdade que em solo brasileiro essa transformação já vem acontecendo, e pode ser ampliada.

Sem tempo a perder, quanto mais ferramentas e incentivos, melhor. Esses estímulos, que podem vir pela pesquisa científica, por definições de políticas públicas e por agregação de valores, tendem a aumentar o nível de comprometimento da cadeia produtiva com todo esse processo de mudanças teóricas e práticas. “Estamos chegando a patamares de produtividade em que é preciso rever os métodos de conservação de solo”, comenta Bonini, da Mosaic. Ao mesmo tempo que a indústria aperfeiçoa o desenvolvimento de produtos que contribuem para esses esforços, o Brasil tem dado passos importantes na aplicação de técnicas de manejo que o tornaram referência em aplicação de tecnologias para preservação do solo, como o sistema de plantio direto na palha. “Metade da produção nacional de grãos já é feita dessa forma. O agricultor está vendo valor nesse manejo”, diz o executivo. Dados da Federação Brasileira de Plantio Direto e Irrigação (Febrapdp), mostram que o sistema já é aplicado em quase 33 milhões de hectares.

Um dos precursores desse manejo e um dos fundadores da Febrapdp é Franke Dijkstra, da Fazenda Frank’Anna (Carambeí, PR), personagem na primeira temporada da série TOP FARMERS, produzida pela PLANT. Dijkstra começou a trabalhar com plantio direto, em 1976, exatamente para conter a erosão causada pelo aumento da exploração, acima do que suas terras poderiam suportar. Após o início do cultivo com arroz, entrou também no milho. Em seguida vieram o trigo e a soja, compondo uma rotação de culturas. “Parecia uma maravilha, mas a movimentação de preparo do solo duas vezes por ano acelerou a degradação, que ficou quatro vezes mais rápido do que se fosse uma só cultura”, conta o produtor.

É importante ressaltar que o problema de Dijkstra, naquele período, não era a rotação de culturas, mas sim a forma como foi utilizada. A técnica em si é uma prática altamente favorável à preservação do solo e otimiza o sistema de plantio direto, em especial quando são plantas com tipos distintos de raízes, capazes de explorar partes diferentes da terra. “Isso aumenta o aproveitamento da matéria orgânica”, diz Joyce Monteiro, da Embrapa Solos, que destaca ainda outras tecnologias que avançam no Brasil e contribuem para a preservação ambiental. Ela cita, por exemplo, a integração lavoura-pecuária-floresta, a ILPF, que favorece os processos de recuperação de pastagens e de reflorestamento. “Grande parte do uso de nossas terras para agropecuária é com pastagens, e a recuperação de áreas degradadas vai evitar a perda de carbono do solo e reduzir a emissão de gases de efeito estufa por unidade animal”, explica. Isso, além de evitar a necessidade de desmatamento para a criação de novas áreas produtivas. A Associação Rede ILPF estima que os sistemas de integração já são utilizados em cerca de 11,5 milhões de hectares.

Nesse novo momento da relação entre o agronegócio e a sustentabilidade, reduzir virou palavra de ordem. A indústria de insumos também foi impactada e precisa se adequar para ajudar o produtor a ter lavouras mais eficientes aplicando menos produtos. Para Bonini, no caso dos fertilizantes, um avanço significativo é a assertividade na aplicação, ou seja, o produto certo, na dose correta e no momento e local adequados. Essa precisão vem também pelas inovações. “Desenvolvemos uma fonte de fósforo que é associada a duas fontes de enxofre, uma que fornece o mineral rapidamente no arranque da planta e outra que vai liberando gradualmente na formação do grão ou na reprodução”, explica o gerente da Mosaic, que ainda destaca a importância da qualidade física do solo e das plantas para o melhor aproveitamento desses nutrientes. “Cada ajuste desse tem trazido avanços consideráveis. São muitas inovações envolvendo a parte química, com a melhor distribuição de cada elemento, e física, como a melhoria da raiz para absorção de água.”

As mudanças geradas pelos cuidados com a fertilidade do solo podem ter a dimensão de uma região toda ou de um bioma. “Desde que a agricultura migrou para o cerrado houve uma explosão de produtividade. Isso ocorreu basicamente porque aprendemos a manejar esse solo que era muito pobre do ponto de vista da composição química”, diz Ana Borin, pesquisadora da Embrapa Algodão. Alocada em Goiânia (GO), Ana acompanhou de perto a evolução das terras naquela região do Brasil Central. Para se ter ideia do impacto da alteração de manejo nas fazendas, em cerca de 25 anos o que era deficiência de fósforo acabou se transformando em reserva do mineral. “Como se tratava de um elemento limitante para o solo do cerrado, culturalmente o agricultor se acostumou a trabalhar com altas doses de fósforo. Hoje, a maioria das áreas já está com os níveis adequados ou até elevados”, comenta.

Ana também reforça que a avaliação das condições do solo não se restringe à composição química. E faz um alerta em relação a um risco da parte física das terras, a compactação, que pode ser causada até mesmo pelas chuvas, quando são mais intensas, caso não haja cobertura sobre o solo. “Por isso a gente preconiza tanto o plantio direto”, ressalta. Outro fator que merece atenção é o tráfego de máquinas em terras com alta umidade. Ana conta que alguns grupos de produtores já trabalham com um controle maior desse trânsito de maquinário. “Em função da intensificação da agricultura, muitas vezes é preciso entrar com uma colhedora de soja mesmo em um período de chuva, ainda mais no caso de cultivares precoces”, explica. Segundo ela, com a antecipação dos ciclos, a semeadura da segunda safra acaba acontecendo com o solo ainda úmido. “A compactação impede o crescimento adequado das raízes das plantas, que sofrem muito mais no caso de um veranico, e favorece o escorrimento superficial da água, pois não há infiltração. Quando isso acontece, mesmo que a nutrição da terra esteja correta, os resultados não aparecem.”

Políticas públicas

O incentivo à adoção de práticas mais sustentáveis na produção agropecuária também chega ao campo por meio de políticas públicas. Um dos principais exemplos disso no Brasil é a implementação, no início desta década, do Plano ABC, desenvolvido pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa). Esse projeto é bastante estratégico, a começar pela sigla, uma referência à agricultura de baixa emissão de carbono, que facilitou bastante sua divulgação. Certamente daria muito trabalho explicar a iniciativa com seu nome oficial: Plano Setorial de Mitigação e de Adaptação às Mudanças Climáticas para a Consolidação de uma Economia de Baixa Emissão de Carbono na Agricultura. Mas o que vale mesmo é o conteúdo do projeto, os resultados que já gerou e os que ainda deve gerar.

Baseado em linhas de crédito específicas para os produtores rurais, o Plano ABC é coordenado pela Embrapa e composto por sete programas voltados ao desenvolvimento de uma agropecuária com menor impacto ambiental. Praticamente todos têm relação com a preservação do solo. Três deles, mais diretamente: Recuperação de Pastagens Degradadas, Sistema de Plantio Direto e Fixação Biológica de Nitrogênio. Como consequência do estímulo ao uso de práticas sustentáveis, já foi possível sequestrar 35 milhões de toneladas de gás carbônico (CO2), muito por conta da expansão da ILPF, que também faz parte da lista dos programas. O resultado contribui para que o Brasil possa cumprir a meta de reduzir em 40% a emissão dos gases de efeito estufa no período que vai de 2005 a 2020. Na verdade, trata-se de um compromisso assumido em 2009, de forma voluntária e com efeito retroativo, durante a COP 15, a Conferência do Clima das Nações Unidas, realizada em Copenhague, na Dinamarca.

“O Plano ABC é uma comprovação de que a produção agropecuária pode estar em equilíbrio com a preservação ambiental. Somos pioneiros em políticas conservacionistas”, comenta Joyce Monteiro, lembrando que a Embrapa tem se dedicado a ampliar o leque de ferramentas e sistemas que deem condições aos produtores de corresponderem às demandas globais de preservação. A pesquisadora cita como exemplo os programas de certificação de carne carbono zero ou de baixo carbono. Mas há também o Pronasolos, o Programa Nacional de Solos do Brasil, instituído em junho de 2018 pelo Mapa, com o apoio da Embrapa e duração de 30 anos. O objetivo nos primeiros dez anos é mapear os solos de 1,3 milhão de km2 e, até 2048, mais 6,9 milhões de km2. “Estamos com a faca e o queijo nas mãos, e precisamos aproveitar”, acrescenta.

Colega de Joyce na Embrapa Solos, o pesquisador Aluísio Andrade conta que já há outra ação envolvendo a instituição e o Mapa. Trata-se de um programa de microbacias hidrográficas para a preservação de água e solo. “Sobram motivos para termos políticas públicas nesse sentido, e temos tecnologia para resolver esses problemas”, comenta. “Esse novo projeto é também uma grande campanha que deveria ser adotada imediatamente desde o ensino fundamental, tanto no meio urbano quanto no rural. Isso tudo tem impacto na sociedade, pois o tratamento de água fica mais caro a cada dia e pode haver problemas para a produção de energia.” A previsão era de que o resultado da análise desse projeto saísse ainda no mês de outubro, e, a partir daí, havendo recursos, começaria o desenvolvimento.

No cenário internacional, vai ganhando força o Green New Deal, movimento iniciado nos Estados Unidos, pela deputada Alexandria Ocasio-Cortez e pelo senador Ed Markey, ambos democratas, cujo objetivo principal é acelerar a “descarbonização” da economia. Um dos vetores dessa mudança é a chamada agricultura regenerativa, que pode promover o crescimento de empregos no campo, pela maior demanda de trabalho manual, e beneficiar a saúde das comunidades pela qualidade dos alimentos, como mostra uma reportagem veiculada pela revista Fast Company. Embora não seja uma publicação especializada em agronegócio, os principais temas que aborda têm tudo a ver com a evolução do setor: inovação tecnológica, liderança, ideias disruptivas e criatividade e design.

O artigo da Fast Company diz que o Green New Deal quer promover uma substituição da monocultura convencional e multiplicar as fazendas com produção mais variada de culturas, integrando todos os aspectos da agricultura. No campo da política, a iniciativa enfrenta a resistência dos republicanos. E, na área econômica, é preciso convencer sobre as vantagens para o balanço financeiro dos produtores, afinal, sustentabilidade também é negócio, sobretudo agronegócio. É na contabilidade das cifras que reside parte dos embates desse novo acordo ambiental, pois o governo norte-americano destina anualmente US$ 13 bilhões ao sistema de monocultura que o movimento combate. Esses recursos são disponibilizados por meio da Farm Bill, a legislação que define subsídios e financiamentos para a agropecuária do país, e atendem operações de apenas seis culturas (milho, trigo, soja, algodão, arroz e amendoim). A discussão traz à tona a questão da remuneração aos fazendeiros pela prestação de serviços ambientais, que começa a ganhar corpo também no Brasil.

A tecnologia compensa

A combinação do impacto ambiental da recuperação dos solos com os aspectos econômicos abertos por essa perspectiva atraiu a atenção de empreendedores de todo o mundo, inclusive nos berços da tecnologia mundial. Entre os meses de novembro agora e janeiro do ano que vem acontece a etapa de incubação do desafio para startups criado pela americana Indigo Ag, a AgTech mais valiosa da atualidade, como mostrou a PLANT. Trata-se do Terraton Challenge, que faz parte do Terraton Initiative, um programa que tem como meta ambiciosa gerar condições para o sequestro de 1 trilhão de toneladas de carbono da atmosfera em reservas de solo. A ousadia dessa iniciativa não está apenas no tamanho desse objetivo, mas também nas recompensas para os envolvidos. As startups que chegarem à etapa semifinal do desafio já podem pensar em investimentos que vão desde US$ 60 mil em subsídios até US$ 3 milhões em contratos, além da possibilidade de acesso a mentores, painéis de revisão, palestrantes especializados e experiências no mundo real. Praticamente uma plataforma de lançamento para a estratosfera das inovações tecnológicas.

Das três áreas que estruturam o desafio, duas estão voltadas especificamente para o manejo no campo, pois envolvem a aceleração do sequestro de carbono pelo solo e métodos para quantificar o carbono no solo. Ambas são igualmente vantajosas para os fazendeiros, mas a terceira deve animá-los um pouco mais: programas financeiros inovadores que premiem produtores que adotarem práticas de sequestro de carbono. Em junho deste ano a Indigo já havia lançado o Carbon Marketplace, uma plataforma para estimular essas negociações, com pagamento médio de US$ 15 por tonelada de carbono, remuneração variável de acordo com a relação oferta e demanda.

Produtor que está percebendo essas novas oportunidades mercadológicas é geralmente aquele mais bem preparado e antenado com as novidades tecnológicas. É esse agricultor que torna mais desafiador o trabalho das empresas de insumos. “Quando visitamos um produtor da fazenda, ele já nos recebe com um volume de informações muito grande e um senso crítico muito forte. E é ele quem primeiro percebe as mudanças no campo, afinal é sua rotina, seu dia a dia. Como profissionais do setor, precisamos estar muito ligados às demandas”, diz Harley Sales, especialista agronômico sênior da Yara Brasil. Segundo ele, a troca de informações também é muito mais veloz entre produtores, entre consultores e entre os dois grupos. “Qualquer situação inusitada, logo todos estão sabendo. Temos a preocupação de oferecer ferramentas que ajudem o produtor a entender essas situações e a tomar decisões acertadas.”

Nessa dobradinha de tecnologia e ganho econômico, a Embrapa desenvolveu uma novidade que soma 18 anos muito tempo de pesquisa e o resgate de um tesouro, enterrado por praticamente meio século, que vale em média US$ 40 bilhões, ou seja, mais de R$ 165 bilhões. Por meio de uma parceria público-privada que envolveu sua unidade Milho e Sorgo e a empresa Bioma, foi desenvolvida uma solução biológica que ajuda o produtor a resgatar o fósforo que estava em suas terras por décadas sem que pudesse ser aproveitado. O inoculante foi produzido a partir de duas bactérias que a Embrapa identificou, uma no solo e outra no milho, e que podem aumentar a absorção de fósforo pelas plantas. “Em alguns solos de plantio direto, cerca de 88% do fósforo encontra-se em forma orgânica, indisponível para ser absorvido pelas raízes, e precisa ser mineralizado para esse fim. As bactérias solubilizadoras de fosfatos conseguem disponibilizar o elemento para a planta, atuando de forma agronômica nesse grande estoque presente na natureza”, explica Christiane Paiva, pesquisadora da Embrapa Milho e Sorgo e responsável pelo estudo que levou a essa novidade.

Experimentos realizados com o inoculante em lavouras de milho apresentaram ganho médio de 10% na produção de grãos, o equivalente a um aumento de dez sacas por hectare. Mais do que a vantagem produtiva, o produto pode gerar economia no consumo de fertilizantes fosfatados sintéticos – pela redução da dependência e por ser mais barato – e diminui significativamente o índice de emissão de gás carbônico na atmosfera.

Como se pode ver, a preservação dos solos agrícolas é uma responsabilidade compartilhada, uma questão que tem de estar bem resolvida em todos os elos da cadeia. Para o produtor rural, então, ou cuidar do solo, ou correr o risco de ficar sem chão, seja no sentido literal, seja no figurado. “Meu pai sempre falou que o solo era o maior patrimônio que poderiam deixar para mim e meus irmãos. Ele dizia que ativos como máquinas e armazéns a gente reconquista, mas se deixássemos a erosão levar a camada de ouro que é nosso solo, a base de nossa produção, não perderíamos apenas nutrientes”, diz Fernanda Falcão, agrônoma, gerente técnica da Sementes Falcão e personagem da segunda temporada da série TOP FARMERS.

 

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