As sementes da inovação

Como a soja serviu de laboratório para novas tecnologias que revolucionaram a produção de grãos


Edição 16 - 01.10.19

Por Evanildo da Silveira

Durante séculos, os 207 milhões de hectares do Cerrado, o equivalente a 24% do território nacional, sempre foram vistos como pobres e sem serventia. Eram vastidões vazias, que só começaram a ser ocupadas no século 18, com a mineração de ouro e pedras preciosas. Esgotadas essas riquezas minerais, veio a pecuária extensiva, principal atividade econômica até a virada dos anos 1950 para os 1960, quando Brasília foi construída e começaram a surgir estradas e ferrovias, pelas quais chegaram os migrantes. E com eles veio a soja – que, afinal, mudou tudo.

Antes, porém, foi preciso mudar o próprio Cerrado. Para transformar a savana de solos pobres e sujeita a secas numa das mais importantes áreas agrícolas do Brasil e do mundo, entrou em cena um aliado fundamental do agronegócio: a tecnologia. Graças a ela, os pesquisadores e fazendeiros melhoraram as propriedades da terra, recuperaram áreas degradadas e criaram novos métodos de cultivo. Foi a tecnologia que tornou possível a incorporação da região ao processo produtivo da agropecuária nacional. Hoje em dia, da área total do Cerrado, cerca de 139 milhões de hectares são agricultáveis.

Entre as tecnologias desenvolvidas para melhorar o aproveitamento das terras para a agricultura está o sistema de plantio direto (SPD), técnica de manejo conservacionista que tem como principais características a semeadura sem revolvimento do solo, a rotação de culturas e a cobertura permanente da área com plantas em desenvolvimento ou restos da lavoura anterior. Segundo o engenheiro agrônomo Amélio Dall’Agnol, pesquisador da Embrapa Soja, unidade da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária em Londrina (PR), e autor de livros de referência na área, a primeira tentativa experimental de implantar o SPD se deu em Matão (SP), em 1966. Pouco tempo depois, em 1972, o sistema passou a ser adotado, em escala comercial, em Rolândia (PR).

Apesar dos notáveis avanços que o SPD proporcionava, sua incorporação ao sistema produtivo nacional foi lenta durante os primeiros 20 anos. Havia, naquele período, desinformação a respeito da nova técnica de cultivo, faltavam equipamentos e herbicidas e as máquinas que eram apropriadas para o manejo custavam caro demais. “Foi somente a partir dos anos 1990 que a adoção do SPD deslanchou, passando de aproximadamente 1 milhão de hectares para mais de 13 milhões no final daquela década”, escreveu Dall’Agnol no livro A Embrapa Soja no Contexto do Desenvolvimento da Soja no Brasil – Histórico e Contribuições. Hoje em dia, o SPD é o sistema dominante no território nacional, com área superior a 33 milhões de hectares que coloca o País na liderança mundial no uso da tecnologia.

Os benefícios do SPD são extraordinários. Ele evita a perda de 2 milhões de toneladas de calcário, 300 mil toneladas de cloreto de potássio e 200 mil toneladas de superfosfato simples por ano, além de combater o assoreamento de lagos, rios e reservatórios de hidrelétricas. Também diminui os custos com combustível em cerca de 1,3 bilhão de litros de diesel por ano, reduzindo assim a emissão de dióxido de carbono. Trata-se, portanto, de uma tecnologia indispensável para a preservação do meio ambiente.

A pegada ambiental do SPD tem forte apoio de outra tecnologia desenvolvida pela Embrapa para melhorar o aproveitamento da terra e aumentar a produtividade do agronegócio nacional: a chamada Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF). “Ela envolve sistemas produtivos de grãos, fibras, madeira, carne e leite, implantados em uma mesma área em consórcio, sucessão ou rotação”, explica Dall’Agnol. “É um sistema particularmente eficiente na recuperação de áreas com pastagens degradadas, que, no Brasil, são estimadas em mais de 50 milhões de hectares.”

A soja teve papel vital no desenvolvimento das novas tecnologias. Nos últimos anos, duas técnicas contribuíram para o alto desempenho da oleaginosa. A primeira delas é a fixação biológica de nitrogênio (FBN), que consiste no uso de bactérias em vez de adubos à base do elemento químico. Uma dessas bactérias, a Bradyrhizobium sp., tem a capacidade de captar o nitrogênio do ar e fixá-lo nas raízes das plantas. A solução que levou agricultores a ganharem produtividade e economizarem bilhões de dólares com adubos nitrogenados foi desenvolvida na década de 1960 por Johanna Döbereiner, pesquisadora tcheca naturalizada brasileira que trabalhava na unidade da Embrapa em Seropédica (RJ) (antes Serviço Nacional de Pesquisa Agropecuária). A partir daí os cientistas criaram um processo pelo qual os micro-organismos são inoculados nas sementes antes do plantio, o que dispensa a adubação.

Estima-se que o Brasil economize R$ 15 bilhões por ano ao desprezar completamente o uso do nitrogênio mineral na adubação das lavouras de soja, considerando os custos do fertilizante e operacionais para aplicá-lo na semeadura e cobertura. “Além disso, não usar esse elemento químico traz benefícios ao ambiente, pois reduz a contaminação das águas subterrâneas com nitrato e diminui a contaminação atmosférica com óxido nitroso, um dos gases de efeito estufa”, diz Dall’Agnol.

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O manejo integrado de pragas e doenças é outra tecnologia que ajudou a tornar a agricultura brasileira um grande negócio, em especial a soja. “Foi de fundamental importância o desenvolvimento de cultivares resistentes à pústula bacteriana, mancha olho-de-rã e cancro da haste, doenças que foram importantes em distintos períodos do desenvolvimento da oleaginosa”, escreveu Dall’Agnol em seu livro. O especialista diz que, sem o combate a essas pragas, o crescimento da planta teria ficado limitado aos seus primórdios, privando o Brasil de ser um dos líderes mundiais na produção de soja – o que teria causado efeitos devastadores na economia brasileira. Graças ao manejo integrado, 4 milhões de litros de fungicidas deixam de ser aplicados em cerca de 5 milhões de hectares. Os resultados representam menos impacto sobre o ambiente e ganhos econômicos significativos.

Poucos setores da economia são tão abertos à inovação tecnológica quanto o agronegócio. Nos últimos anos, chegou ao campo uma nova revolução: a das plantas transgênicas. Elas abrem a possibilidade da inserção de genes de interesse produtivo ou qualitativo que antes não existiam em uma determinada espécie, aumentando assim as perspectivas do melhoramento genético.

No Brasil, o plantio de soja transgênica, tolerante a herbicidas, foi liberado em 2003. Ela trouxe uma série de benefícios, especialmente um melhor controle de pragas. Atualmente, 90% da soja plantada no País é transgênica. “Esse processo foi importante para a sojicultora, mas deixou sequelas”, reclama o presidente da Aprosoja (Associação Brasileira dos Produtores de Soja), Bartolomeu Braz Ferreira. “O custo das sementes cresceu três vezes nos últimos dez anos. Ficamos reféns das multinacionais produtoras. Além disso, houve perda de materiais genéticos desenvolvidos para um país tropical, deixando as pequenas empresas de germoplasma sem condições de existir nesse mercado.”

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