Plant Talks com Marcello Brito

Para presidente da Abag, quem desmata é criminoso, e não produtor rural


Edição 16 - 10.09.19

 

Por Luiz Fernando Sá

Recentemente, Marcello Brito, presidente da Associação Brasileira do Agronegócio (Abag), participou de uma mesa-redonda com o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, e o ex-diretor do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), Ricardo Galvão. Ele representou as cadeias agroindustriais nessa conversa que aconteceu durante o programa GloboNews Painel, conduzido pela jornalista Renata Lo Prete, e o tema era desmatamento, sobretudo as discordâncias entre o governo federal e as estatísticas do Inpe. Brito falou sobre o quanto essa falta de sintonia prejudica a imagem do agro brasileiro no exterior e reforçou a ideia de que é preciso desvincular o setor produtivo da imagem do desmatamento ilegal.

Presidir a Abag já justificaria a participação de Brito em conversas como aquela, mas é certo que os convites aumentam por conta do equilíbrio entre a forma clara e direta de falar sobre as vantagens e as angústias do agro, o chamado papo reto, e sua inteligência diplomática. É assim que o executivo também respondeu a esta entrevista exclusiva para a PLANT. Cerca de um mês depois dessa conversa, ele comandou, no início de setembro, destacando que grilagem de terras é um crime.

Na entrevista, o CEO da Agropalma, uma das três principais indústrias de óleo de palma do mundo, como ele mesmo diz, falou sem rodeios sobre diplomacia ambiental, oportunidades internacionais, compromisso com o fim do desmatamento ilegal e a discussão sobre o desmatamento zero. Acompanhe.

Como essa discussão sobre dados de desmatamento impacta a imagem do agronegócio brasileiro no exterior?

Impacta muito. Ninguém está lá fora para passar a mão na nossa cabeça. O jogo comercial é muito pesado. Temos pontos que carecem de um tratamento mais adequado com tudo o que falamos e colocamos. A atuação do ministro [Ricardo Salles, do Meio Ambiente] convencendo o senador Márcio Bittar a retirar a proposta de Projeto de Lei [nº 1551, de 2019] que excluía as determinações sobre as reservas legais do Código Florestal foi uma mensagem positiva. Mostra que somos sérios e não queremos mudar uma lei que foi tão arduamente debatida. Faz sete anos que foi aprovada, nem está toda regulamentada e já estamos querendo mudá-la? Os concorrentes aproveitarão toda e qualquer nuance negativa para espalhar por aí.

Governo, ciência e agronegócio podem direcionar essa discussão juntos?

Toda boa discussão, feita de forma criteriosa, traz ganhos. Essa discussão entre o governo e os números do Inpe é muito antiga. Quase todos os governos vindos após a redemocratização do Brasil tiveram problemas com o Inpe, é a parte política incomodada com a científica. Isso acontece em qualquer lugar. Deve-se analisar essa situação com muita calma e seriedade, porque há o jogo político que faz parte da cena, há toda a parte científica que muitas vezes tem uma carga ideológica e há a parte empresarial que está ali para defender sua lucratividade. A função do governo é mediar todos esses interesses em prol da sociedade. Esse debate é salutar, deve acontecer, pois com certeza sairemos fortalecidos disso tudo, se o fizermos com clareza e honestidade.

O senhor fala muito sobre a diplomacia ambiental. Isso também vai para o exterior?

Quando olhamos para a assinatura do acordo Mercosul e União Europeia, tem lá um item sobre a parte social e ambiental e uma série de compromissos assumidos pelo Brasil, que entram na conversa sobre diplomacia ambiental. De outro lado, vemos essa disputa entre China e Estados Unidos, e isso fundamentalmente muda a cara do mercado mundial e vai abrir novos espaços em vários desses mercados. Pesquisas mostram que 47% dos consumidores chineses entre 18 e 30 anos de idade elegem a rastreabilidade socioambiental como primeiro item de decisão de compra. É essa geração que vai dominar a economia da China daqui a dez anos, e já está nos mandando um sinal claro dos modelos de produção que devemos ter para acessar o mercado. Diplomacia ambiental é sabermos usar as vantagens competitivas que a parte de floresta e biodiversidade nos dá para aproveitarmos esse mercado lá fora.

Estamos falando de oportunidades…

Claro! Porque, veja bem, essa conversa de “Ah, não, os outros desmataram… A Alemanha desmatou, então a gente tem o direito de desmatar”, isso é uma bobagem total. Esse pessoal desmatou há séculos, porque ou tocavam fogo nas árvores ou morriam de frio no inverno. Quando você olha de 50 anos pra cá, período em que a ciência passou a mostrar a necessidade de serviços florestais e ambientais, esses países têm sido os que mais reflorestaram suas áreas. A China é o país que mais planta árvores hoje no mundo, e a Índia é o segundo. Então, com base nessa história de que se os outros fizeram eu posso fazer, como o Brasil foi escravagista por muitos anos os outros países poderão fazer a mesma coisa. Não! A sociedade evolui e aprende e é com evolução e aprendizado que a gente deixa de cometer os erros do passado e monta algo focado em um modelo de desenvolvimento diferente. O Brasil deveria estar focado 100% em bioeconomia, em dar valor a toda sua riqueza biológica, que lamentavelmente não é aproveitada.

A equação para irmos bem nessa relação envolve, basicamente, fazer correto, ter informações confiáveis e comunicar de forma adequada para fora do País?

Com certeza. Nunca tivemos tanto acesso à informação, a todo tipo de dado que a gente precisa para o desenvolvimento de uma boa governança em cima de bioeconomia. Mas nossos concorrentes e nossos clientes também, principalmente em relação a tudo o que fazemos aqui dentro. Esqueçamos o modelo 1.0 de biodesenvolvimento e vamos abraçar tudo o que a tecnologia e a ciência nos oferecem neste momento. Não podemos perder tempo com picuinhas, o jogo político tem de ser para levar o País para a frente, não ficar parado nesse Fla x Flu, essa polarização que estamos vivendo aqui no Brasil há tanto tempo. São pelo menos 15 anos com uma parte da sociedade de um lado e uma parte da sociedade de outro, em uma discussão absurda que até agora não conseguiu levar o Brasil a lugar algum, a não ser a uma recessão ou à crise mais grave da história.

“Ninguém está lá fora para passar a mão na nossa cabeça. O jogo comercial é muito pesado”

Então o agro é apenas mais um tema que passa por essa polarização?

A gente fala muito do grande sucesso do agronegócio, mas devemos lembrar que só vai perdurar se o Brasil, de forma geral, também tiver êxito. A gente já tem muita dificuldade de competir em alguns mercados por uma questão de custo. E, além do Custo Brasil, temos a burocracia, a estrutura tributária – essa loucura tributária que vamos tentar passar nessa reforma – e a governança política e governamental. Os setores da economia evoluíram muito – agronegócio, indústria, serviços – e aí eu te pergunto: a administração pública evoluiu na mesma velocidade? Olha as dificuldades que temos para conseguir qualquer documentação, é uma fila louca, o tempo que demora, são carimbos e assinaturas, se a gente não reformar esse Brasil não tem setor que consiga se perpetuar no sucesso.

Como o agro endereça suas demandas ao governo?

Fomos condecorados com a escolha da Tereza Cristina. A ministra [da Agricultura, Pecuária e Abastecimento] é muito competente e sabe realmente como colocar as coisas. Ela tem feito uma administração de união dessas forças com bastante fibra. Temos centenas de representações do agronegócio no Brasil, se não me engano, são umas 230 associações. Nenhum setor pode ser bem representado com esse número de entidades. As demandas dos clientes, sejam nacionais, sejam internacionais, chegam primeiro a quem está na ponta do negócio, o processador, e depois descem pela cadeia toda – supermercado, indústria, transformador e produtor. E a gente tem que irrigar o governo com essas demandas da sociedade, interna e externa, para que as políticas públicas sejam feitas em cima disso.

Como entra a comunicação nessa história?

Precisamos dividir em dois pontos, comunicação é uma coisa e marketing é outra. O marketing põe valor em algo que foi efetivamente bemfeito. Não adianta a gente fazer uma propaganda falando que o Brasil é o único país que tem reserva ambiental e que os produtores são obrigados a preservar uma parte de sua área etc. Essa mensagem não vai colar, porque o desmatamento ilegal continua crescendo. Agora, se fizermos uma grande campanha contra o desmatamento ilegal e reduzi-lo em 50% nos próximos dois anos, aí, sim, a gente vai pro mercado contar essa história. E que, além disso, temos investido fortemente em governança e nos últimos dois anos conseguimos reduzir a criminalidade ambiental em um esforço conjunto da sociedade, do governo, da Justiça, do Legislativo e com fatos para mostrar. Precisa ser muito bem estruturado, o marketing é feito em cima da comunicação de um fato que já foi alcançado.

O senhor tem comentado sobre descolar do agro a imagem do desmatamento ilegal.

Esse deve ser nosso mantra, pois temos que tirar essa mancha do nosso setor. Alguém pode dizer que tem lá um produtor ou outro que pratica, então não é um produtor, é um criminoso, ele age de forma ilegal. A grande produção do Brasil é legal, feita por gente decente, séria, que recolhe impostos, e olha que não são poucos impostos. Se compararmos o nível de suporte governamental que a agricultura brasileira tem com qualquer um dos países que estão na lista dos 20 maiores produtores agrícolas do mundo, é absurda a concorrência desleal que o Brasil sofre, principalmente com subsídios monstruosos colocados em cima da agricultura americana, canadense, europeia, japonesa, australiana e assim por diante.

“O Brasil deveria estar focado 100% em bioeconomia, em dar valor a toda a sua riqueza biológica, que lamentavelmente não é aproveitada”

Quais são os próximos passos da Abag para contribuir com toda essa conversa?

Quero esclarecer que esse trabalho foi iniciado na primeira gestão do Caio Carvalho [Luiz Carlos Corrêa Carvalho], quem primeiro trouxe essa agenda ambiental para dentro da discussão do agro. Ele só não conseguiu colocar em prática algumas ações porque o setor ainda não estava maduro o suficiente para fazer aquele tipo de discussão oito anos atrás. Se você olhar as grandes mesas-redondas que acontecem hoje no mundo – para óleo de palma, soja, algodão, açúcar, suco, pescado e vários outros produtos –, estão sentados em volta dessa mesa bancos, ONGs, supermercados, produtores, transformadores, ou seja, é a visão da sociedade em um estágio mais maduro de que está na hora de discutir os problemas do planeta como um todo. Em relação a essa questão do desmatamento ilegal, estamos bolando uma forma de atuação, uma campanha, e pretendemos ter isso pronto até o final de setembro.

A partir disso, pode-se pensar em desmatamento zero?

Prefiro nem entrar nessa discussão agora, pois acho que ela é infrutífera. Temos que primeiro eliminar o que é ilegal, porque isso já transformaria sobremaneira a economia brasileira e vai abrir tanta perspectiva de área e desenvolvimento, e ao mesmo tempo acoplamento de novas tecnologias, que vamos continuar crescendo em cima de produtividade. Existe um modelo internacional chamado High Carbon Stock Approach, conhecido pela sigla HCSA, uma iniciativa do Greenpeace com outras grandes ONGs internacionais, envolvendo vários stakeholders e grandes empresas do mundo, que determina, por meio do estoque de carbono, florestas a serem desmatadas ou não. O conceito é desmatamento zero, no entanto é só o conceito por causa da percepção que o nome passa, mas é justamente uma regra aceita pelas maiores ONGs internacionais que diz o seguinte: baseado em tal estoque de carbono você pode, sim, desmatar. Então por que não adaptar esse tipo de coisa para culturas tropicais aqui no Brasil, ou subtropicais para a parte do Cerrado? Temos um Código Florestal que é updated, muito bem construído e é uma das melhores leis ambientais do mundo, e além disso teremos sempre novas tecnologias que estão sendo desenvolvidas pelo mercado e que virão a contribuir com isso. Vamos cuidar primeiro dessa parte ilegal e, lá na frente, quando conseguirmos vencer essa batalha feroz, que é muito grande, aí, sim, teremos uma outra realidade de mundo para discutir se essa questão do desmatamento zero é necessária ou não. Acho que, no momento, ele não cabe nessa discussão.

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