Robert Parker sai de cena

Coluna TERROIR - Por Irineu Guarnier Filho


30.09.19

*Irineu Guarnier Filho é jornalista especializado em agronegócio, cobrindo este setor há três décadas. Metade deste período foi repórter especial, apresentador e colunista dos veículos do Grupo RBS, no Rio Grande do Sul. É Sommelier Internacional pela Fisar italiana, recebeu o Troféu Vitis, da Associação Brasileira de Enologia (ABE), atua como jurado em concursos internacionais de vinhos e edita o blog Cave Guarnier. Ocupa o cargo de Chefe de Gabinete na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul, prestando consultoria sobre agronegócio.

Robert Parker, o mais influente crítico de vinhos do mundo, anunciou há pouco a sua aposentadoria. Por mais de 30 anos os julgamentos do advogado norte-americano influenciaram – para o bem ou para o mal – a indústria vitivinícola do Velho e do Novo Mundo. Suas notas (de até 100 pontos) consagraram ou condenaram rótulos ao ostracismo.

Cercado, obviamente, por uma grande equipe de degustadores, Parker fez e desfez ícones, avaliando mais de 10 mil garrafas por ano. Seu site The Wine Advocate (controlado hoje por investidores de Singapura) tornou-se referência obrigatória para produtores, enólogos e enófilos em volta do mundo. Nunca na história moderna do vinho um crítico foi tão poderoso, temido e respeitado – inclusive pela sua isenção. E olhe que neste ramo opinam analistas tão ou mais competentes, como os britânicos Hugh Johnson e Jancis Robinson.

A saída de cena de Parker (embora o seu boletim continue a ser tocado por sua equipe) é boa ou ruim para o mundo do vinho? Depende do ponto de vista. Com sua atuação “evangelizadora”, não se pode negar que Parker ensinou mais de uma geração de enófilos a beber melhor – e não apenas nos Estados Unidos. Nesse sentido, ele prestou um inestimável serviço à enocultura contemporânea.

Todavia, seu gosto por vinhos mais alcoólicos e encorpados inegavelmente influenciou além da conta legiões de consumidores mundo afora. Ao ponto de se suspeitar que certos vinhos franceses de Bordeaux, por exemplo, contenham hoje um grau a mais de álcool em média mais por influência de Parker do que por conta do aquecimento global. O fenômeno da submissão de produtores ao gosto do crítico ganhou até uma expressão: “parkerização do vinho”. Essa padronização, evidentemente, não é salutar para uma indústria que se orgulha de oferecer diversidade de estilos e opções. Houve, também, considerável inflação nos preços de rótulos incensados pelo americano.

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Particularmente, embora reconheça a contribuição de Parker para a cultura do vinho, nunca simpatizei com o sistema de pontuação do Wine Advocate (imitado por outras publicações do gênero). Reduzir a expressão de uma bebida tão complexa e rica em nuances a um número sempre me pareceu uma simplificação um tanto grosseira. Boa, talvez, para o marketing das vinícolas agraciadas com notas acima dos 90 pontos, mas insuficiente para uma apreciação mais precisa das qualidades de um vinho.

Parker, é claro, sempre teve noção de quanto suas opiniões moldavam o mercado vinícola. Por isso, dizia que procurava ser “o mais justo possível” nas suas avaliações. Sobre preços, pontificou: “Acredito que um bom apreciador de vinhos, com o tempo, adquire a experiência necessária para identificar vinhos maravilhosos que custam entre US$ 15 e US$ 35.” Ele também considera os vinhos do Novo Mundo (EUA à frente) tão bons quanto os europeus. De tudo o que escreveu, no entanto, é bem provável que Robert Parker venha a ser lembrado por uma frase que, de certo modo, minimiza a importância da crítica especializada, à qual ele se dedicou por tanto tempo: “Vinho bom é aquele que você gosta”.

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