Plant Talks Energia, com Evandro Gussi

Presidente da Unica inicia nova fase de comunicação do setor sucroenergético com a sociedade


Edição 15 - 11.07.19

Plant Talks Energia

Por Luiz Fernando Sá

Nos últimos anos o advogado Evandro Gussi assumiu uma valiosa causa. Como deputado federal eleito por São Paulo, ele dedicou boa parte de seu mandato à defesa do RenovaBio, o projeto que estabeleceu os pilares da nova política nacional de biocombustíveis. Foi o autor e grande porta-voz da proposta, que tramitou e foi aprovada em tempo recorde no Congresso e, no ano passado, sancionada pelo então presidente Michel Temer. A legislatura acabou, ele deixou a Câmara dos Deputados, mas se manteve engajado na causa, agora à frente da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica). Gussi assumiu a presidência da principal entidade do setor sucroenergético no início do ano disposto a colocar a produção de etanol, de açúcar e de energia nas usinas nos holofotes. Com informação, ele pretende despertar na população a visão de quanto o setor contribui com o desenvolvimento e com a sustentabilidade no País. Confira a seguir os principais trechos de sua entrevista à PLANT: 

Sua gestão na presidência da Unica começou praticamente junto com o novo governo. Qual será a característica dessa gestão, tendo em vista a atual conjuntura do País?

Alguns desafios estão claros. Não são desafios apenas da Unica, do setor sucroenergético, mas do empreendedorismo e para o agro brasileiros como um todo. Temos de mostrar aquilo que nós somos. O Brasil tem um agronegócio, tem uma agroindústria que não precisa de maquiagem. Ela precisa de lentes, precisa de câmeras, precisa aparecer para as pessoas. Um grande desafio que nós queremos levar para a frente é tornar a Unica mais digital, mais moderna no sentido de estar conectada às pessoas, para elas saberem o que é setor sucroenergético, o que é o açúcar, o que é etanol, a bioeletricidade que a gente gera. Ou seja, saber quem somos o que fazemos e como contribuímos para o Brasil e para o mundo.

Sua ideia é abrir mais as portas da Unica, que é uma entidade empresarial e que, portanto, se dedica em grande parte a tratar dos temas que são importantes para a indústria como um todo e, assim, é uma entidade mais fechada, menos exposta ao público.

Ela de alguma maneira se tornou com muita justiça a grande voz do setor sucroenergético. Temos aqui os melhores estudos, grandes técnicos, grandes profissionais que oferecem formulações e soluções para toda a cadeia sucroenergética. Isso nós queremos continuar, queremos acentuar esse diálogo. Mas queremos mostrar isso para as pessoas, mostrar isso para o próprio setor, que às vezes não se conhece. Nós temos 700 mil pessoas, só no estado de São Paulo, que são colaboradores diretos das unidades. Se nós pegamos indiretos, podemos pensar aí em 2,8 milhões de pessoas. Essas pessoas, mesmo de alguma maneira interagindo com o setor sucroenergético, não sabem, em escala global ou em escala nacional, o que significa aquilo que elas fazem. Nós precisamos dar essa organicidade. Ao lado de todo esse trabalho de relações institucionais, que pressupõe todos os aspectos técnicos, entendemos que a gente precisa também levar isso para o cidadão comum. Precisamos entender o que existe no Brasil. Esses dias eu chegava a uma cafeteria e lá estava escrito: “Aqui você pode escolher expresso ou café de coador”. Na hora eu tive um insight. Em termos de combustível para ciclo Otto, o Brasil é o único país que pode fazer a mesma pergunta. O sujeito chega ao posto de combustíveis e o frentista pergunta para ele: “gasolina ou etanol?” Em que lugar do mundo nós temos isso? Essa grande virtude, esse grande processo de eficiência que o setor sucroenergético trouxe ao Brasil é um exemplo para nós. Precisamos nos apropriar dele, porque as pessoas aí fora em geral não perceberam. Para eles, é uma coisa trivial, algo que eles vivem no dia a dia, e não percebem que, sem medo do trocadilho, nós somos únicos nessa questão.

“O Brasil tem um agronegócio, tem uma agroindústria que não precisa de maquiagem. Ela precisa de lentes, precisa de câmeras, precisa de aparecer para as pessoas.”

Em outros momentos a própria Unica liderou campanhas de comunicação sobre esse assunto. Mas eram, em geral, bastante pontuais. Você imagina agora uma comunicação direta com a população, de forma mais estruturada? O setor tem duas frentes bem distintas, não? Uma é o etanol e a outra, o açúcar. Elas vivem momentos diferentes de percepção. O etanol aparece como uma solução energética com menos emissões, como alternativa energética. Já o açúcar hoje é mais combatido…

Acho que as coisas são muito conectadas. Sobre a comunicação, acredito que ela precisa, ainda que menor, ser perene e resiliente. A comunicação que fica é aquela que vai tendo redundância, que dá às pessoas a oportunidade do conhecimento. O segundo ponto é que nós vivemos no açúcar algo que não é a primeira vez que acontece em relação a gêneros alimentícios. O frango já sofreu um monte porque alguém inventou que as aves chegavam a 3 kg em 45 dias porque era aplicado hormônio. Nunca existiu não é nem intenção da indústria de proteína animal de frango aplicar hormônio. O ovo já foi um grande vilão. Hoje é um grande aliado. As castanhas que no passado eram sinônimos de gordura hoje são um elemento medicinal. O que nós temos hoje em termos de pesquisa mostra que o açúcar, como a maioria das coisas que nós consumimos, precisa ser qualificado num estilo de vida saudável. Não me refiro só a uma alimentação saudável, mas a uma vida organicamente saudável. Isso vai implicar no consumo, sim, de açúcar, de panificados, dos carboidratos em geral, das gorduras em geral, de uma maneira equilibrada. Hoje tem muita ciência para isso, mas ao mesmo tempo devemos pensar como vamos lidar com a nossa atividade física, o que nós vamos fazer porque hoje, com as comunidades do mundo contemporâneo, nós temos baixa queima calórica.

É função da Unica entrar nesse debate?

Eu acho que sim, porque há um equívoco quando terceirizamos responsabilidades. A Unica não faz defesa de aumento do consumo de açúcar. Na verdade, o que nos preocupa é que, como responsáveis por segurança alimentar que somos, nós não vamos ter solução para desnutrição africana, para desnutrição asiática sem que parte desse povo ultrapasse 7 quilos per capita/ano de consumo de açúcar. Não estou dizendo que queiramos que as pessoas consumam 92 kg por ano, como é o caso dos Estados Unidos. Mas enquanto nós não rompermos os 7 quilos de regiões africanas e asiáticas não vamos bater nesse flagelo chamado desnutrição.

Em relação ao etanol, existem uma grande oportunidade e, ao mesmo tempo, uma grande concorrência em torno de novos modelos energéticos na questão veicular. Há vários modelos de automóveis elétricos com tecnologias diferentes. Como enfrentar essa concorrência para que o uso do etanol seja um modelo na eletrificação da frota?

Nós vemos na eletrificação uma grande oportunidade para o etanol. A eletrificação é um dado posto, é uma necessidade da humanidade já no curto, mas sobretudo no médio e no longo prazos. Nós entendemos que temos a oferecer o melhor caminho para a eletrificação: como diz o doutor Plinio Nastari, querido amigo, essa bateria líquida chamada etanol. Por quê? A primeira pergunta que eu tenho que fazer quando eu vou eletrificar um carro é de onde virá a eletricidade. Pode vir de uma fonte externa, mas às vezes essa fonte externa é altamente poluente, como é o caso de termoelétricas movidas a carvão. O Daily Car publicou recentemente um estudo mostrando que o Tesla 3, rodando na Alemanha com matriz energética da Alemanha, tinha emissão de ciclo de vida – que computa desde a produção de energia até a emissão do próprio veículo – de 156 a 181 gramas de CO2 equivalente por quilômetro rodado. Isso é mais do que um carro a gasolina no Brasil. Não adianta eu zerar a emissão na propulsão do carro, mas manter uma emissão fortíssima na geração da energia. Quando pensamos, por exemplo, num híbrido flex como é o caso do Corolla que está sendo lançado pela Toyota, estamos falando de um carro que terá emissões de 28 gramas de CO2 equivalente por quilômetro rodado. Se eu pego 147 gramas, que é a gasolina sem mistura de etanol, para 28, estou falando de uma redução de mais de 80% das emissões, aproveitando tecnologias existentes. Com o RenovaBio, que gera um quadro institucional de previsibilidade para a indústria do etanol e que vai garantir a disponibilidade de 50 milhões de litros até 2028, não tenho dúvida de que o caminho para o Brasil é um híbrido flex movido a etanol.

Mas isso depende evidentemente de a indústria automobilística comprar essa ideia. A indústria automobilística trabalha com escala e com um olhar para os mercados como o americano e o chinês, pelo volume. Eles acabam tendo uma preferência na definição das tecnologias. Existe espaço para que seja uma tecnologia regional?

Sem dúvida, existe espaço para essa tecnologia regional, que pode ter profunda sinergia com processo de eletrificação global a partir do carro híbrido, no primeiro momento. Hoje a taxa de blend global, contando com o 100% do etanol hidratado brasileiro, não passa de 6%. A gasolina sem mistura de etanol emite, como eu já disse anteriormente, cerca de 147 gramas de CO2 equivalente por quilômetro rodado. Se eu misturo 27% de etanol a essa gasolina – uma solução para a China, para a Índia e para países europeus –, eu já reduzo mais de 20% das emissões desse veículo. Agora, se esse veículo é híbrido com gasolina com 27% de mistura de etanol, o nível de emissão tem uma redução de aproximadamente 50%. Ou seja, eu misturei dois combustíveis que se completam, porque o etanol substitui os aditivos clássicos da gasolina com performance muito maior. Então, imaginando que nós contribuamos para esse desenho com o mapa da indústria do etanol em termos globais, que nós consigamos mostrar ao mundo os benefícios que isso pode trazer, com aproveitamento da tecnologia híbrida que já está disponível, eu não tenho dúvida de que as pessoas primam pela eficiência. Eu acho que a mobilidade do século 21 vai ser plural.

Você vislumbra evidentemente um mercado de exportação muito grande para o etanol brasileiro, embora a gente saiba que hoje ainda é uma dificuldade se falar nisso, em função dos entraves em várias frentes, como os logísticos e tarifários?

A gente pode exportar etanol. O Brasil, com os estímulos certos, pode suprir as demandas crescentes que nós teremos e, além delas, a gente pode ainda oferecer combustível para outros mercados. Mais do que isso, no entanto, nós entendemos que commodities energéticas precisam estar geograficamente diversificadas. Ninguém quer mais o Oriente Médio das décadas de 1970, 1980, ou seja, a concentração de produto em um tema que é tão estratégico para a segurança dos povos. Nós entendemos que a gente precisa contribuir para países que hoje produzem cana e produzem açúcar com ineficiência e com excedentes estruturais possam, num futuro relativamente próximo, apreender esse grande princípio de eficiência que a indústria sucroenergética brasileira possui, que é o mix de produção entre açúcar e etanol. Não entendemos que tenhamos que ser os únicos produtores e exportadores. O etanol precisa estar geograficamente diversificado.

Nesse caso o Brasil exportaria a tecnologia de produção e serviços…

Fomos obrigados a mover painéis em face de alguns países que tinham práticas anticoncorrenciais proibidas pela OMC. Tivemos que usar o braço forte, mas também queremos oferecer a mão amiga, ou seja, compartilhamento de tecnologia, tanto no campo quanto no processo industrial. Acho que é mais do que justo que o Brasil faça isso.

Outra área com enorme potencial para a indústria sucroenergética é a interligação das usinas à rede elétrica, com cogeração de energia. Como o setor pode ganhar com isso, inclusive na questão de imagem, já que há um impacto ambiental importante na medida em que elas podem substituir termelétricas, que são mais poluentes?

Essa sem dúvida será uma das grandes consequências do RenovaBio. Faltava para o setor sucroenergético a precificação das externalidades positivas que já existiam, mas que não chegavam ao potencial que poderiam ter. Hoje oferecemos só 15% da energia elétrica a partir da cogeração que a gente tem potencial para fazer. É uma energia limpa, está perto dos centros produtores. Mas quais eram os incentivos para isso ser proliferado? O RenovaBio passa a precificar por regimes de mercado toda essa cadeia de produção de biocombustível. A cogeração contribui muito para a nota de eficiência energética de uma usina.

O projeto do RenovaBio, que foi assinado por você, tramitou em tempo recorde no Congresso, foi regulamentado pelo governo anterior e agora está em fase de implantação. Isso está sendo feito em ritmo adequado?

Temos até o final do ano de 2019 para concluir a regulamentação do RenovaBio. Todas as fases até agora foram milimetricamente cumpridas nos prazos estipulados. Estamos agora nas últimas fases de regulamentação, que basicamente diz respeito à estruturação financeira. Estamos num movimento fortíssimo no campo e na cidade, com as indústrias e os produtores de etanol identificando como se certificar, organizando seus processos. Já temos, de outro lado, certificadoras que estão aprovadas e outras que estão no forno. Enfim, estamos num ritmo frenético, mas até agora com cronograma sendo cumprido, prontos para entrarmos em 2020 com o RenovaBio implementado.

A entrada do novo governo causou algum tipo de impacto nesse sentido?

Nenhum problema, pelo contrário. O presidente Bolsonaro, ainda entre o primeiro e o segundo turno, gravou um vídeo em que estávamos juntos no qual reconhece o valor do setor sucroenergético, do setor de biocombustíveis como um todo, e quer justamente contribuir com essa política de biocombustíveis no Ministério de Minas e Energia. Além disso, temos apoio do próprio ministro, o almirante Bento. A equipe que desenvolveu o projeto sob o ponto de vista técnico, do secretário Márcio Félix e do diretor Miguel Ivan e todo seu staff, continua no ministério. É gente absolutamente qualificada e comprometida com o País, comprometida com a sustentabilidade. Temos na Agricultura a ministra Tereza Cristina, que é uma grande entusiasta do RenovaBio e ajudou na aprovação, quando era líder partidária e, depois, presidente da Frente Parlamentar Agropecuária. O ministro Ricardo Salles, do Meio Ambiente, é outro grande entusiasta do RenovaBio e sabe dos potenciais. O ministro Onix Lorenzoni também conhece a minha proposta, foi um artífice importante na aprovação como deputado federal.

O fato de você ter vindo do Congresso facilita a continuação desse processo, de alguma forma isso foi estratégico nesse sentido?

O que facilita é que esse é um programa que para em pé. O RenovaBio é um programa inovador, não usa um centavo de dinheiro público, nem em subsídio nem em renúncia fiscal. Ele, por instrumentos de mercado, induz a eficiência do setor de biocombustíveis, no nosso caso o setor produtor de etanol, precificando as boas externalidades, valorizando os ganhos de eficiência. Por outro lado, o que ajuda estrategicamente é o fato de a Unica ser uma instituição com algumas décadas de serviços prestados ao Brasil, símbolo de credibilidade, não só no compliance com que executa suas tarefas, mas sobretudo na qualificação técnica do seu corpo. Sempre dizemos que a Unica é solução para o Brasil, solução para o governo. O fato de eu ter sido deputado fez com que eu tenha boas amizades. Isso sem dúvida é um grande ativo que o Parlamento me deu, a possibilidade de conhecer pessoas boas, comprometidas com o Brasil. Mas para a Unica e para o setor essas conexões não são as mais importantes. O mais importante é um programa que para de pé, mais importante é uma instituição que está de pé e que assim ficará por um longo tempo.

 

 

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