A política da comida e o agronegócio brasileiro

Recente missão à Ásia dá o tom do que será a diplomacia comercial para o campo brasileiro


Edição 15 - 01.07.19

* Ibiapaba Netto é diretor executivo da CitrusBR (Associação Nacional dos Exportadores de Sucos Cítricos)

Por Ibiapaba Netto*

Uma frase muito conhecida no mundo corporativo prega que “quem não se senta à mesa corre o risco de ir parar no prato”. Em tempos em que Estados Unidos e China travam suas guerras particulares, sobra para o Brasil a oportunidade de tentar fazer parte do banquete, em vez de estar listado no menu. O caminho para isso não será fácil, exigirá foco do governo, apoio do setor privado e, acima de tudo, uma estratégia bem clara sobre onde se quer chegar e como.

O mês de maio passado foi recheado de boas notícias para quem acompanha os movimentos do governo brasileiro na cena internacional. Para começar, a ministra da Agricultura, Tereza Cristina, realizou missão oficial à Ásia. Dias depois, foi a vez do vice-presidente Hamilton Mourão visitar a Ásia. Como representante da Associação Nacional dos Exportadores de Sucos Cítricos (CitrusBR), entidade da agroindústria produtora e exportadora de suco de laranja, participei dos trechos de Japão e China da missão do Ministério da Agricultura.

A pauta levada pelo governo foi bastante diversificada do ponto de vista de produtos e procurou uma abordagem estratégica na construção de alianças locais, quando possível. Começando pelo Japão, boa parte da missão se concentrou em levar a empresários locais uma mensagem de reconstrução das relações.

Durante as décadas de 1970 e 1980 o Japão foi um importante parceiro estratégico do Brasil e financiou projetos como Cenibra e Carajás. Os anos se passaram, os governos se distanciaram e as relações esfriaram. Em 2005, o Japão assinou um acordo bilateral com o México, que passou a perna no Brasil como principal parceiro comercial na América Latina. A boa notícia é que o Keidanren, espécie de CNI japonesa, é bastante simpático à ideia do lançamento de acordo comercial Japão-Mercosul. O assunto foi claramente abordado pelo embaixador Eduardo Saboia em reunião no próprio Keidanren, com a presença da ministra e de parlamentares.

O vice-presidente Hamiltom Mourão em visita à China

A presença de membros do Congresso foi outro ponto interessante da missão. Incialmente, para quem nunca acompanhou esse tipo de evento, o primeiro impulso é pensar que se trata de um grande passeio às custas do dinheiro público. Ocorre que para investidores estrangeiros é importante ouvir de representantes do Parlamento o compromisso com as reformas estruturantes. Em todos os encontros entre governo brasileiro e empresários, o deputado Alceu Moreira, presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária, fez questão de mostrar os músculos ao afirmar que o grupo representa 300 de 512 congressistas. A apresentação de credenciais, somada ao discurso reformista, causou boa impressão e sorrisos nos encontros.

Após deixar o Japão com uma sensação de que antigas relações podem ser retomadas, a delegação seguiu para a China, com uma primeira parada em Xangai, a pérola do Oriente. A cidade é porta de entrada para boa parte dos produtos que chegam e saem da China. É uma pequena mostra do poder de mercado daquele país. Na pauta, mais encontro com investidores, enquanto os setores presentes aproveitavam os poucos momentos livres para fazer contatos locais. Depois, partimos para a capital a fim de acompanhar importantes discussões entre Pequim e Brasília.

O Ministério da Agricultura tem tido um papel importante nas relações Brasil-China, uma parceria com valor anual de US$ 52 bilhões, mais que o dobro dos US$ 24 bilhões com os Estados Unidos, segundo maior parceiro comercial brasileiro. Tem ficado a cargo da ministra Tereza Cristina e sua equipe o trabalho de levar à diplomacia brasileira a possibilidade de bônus de uma relação mais estruturada com os chineses, bem como o ônus de um eventual distanciamento entre os países. Muitos analistas dizem que Brasil e China estão fadados a fazer negócio. Pelo lado asiático, as cerca de 1,3 bilhão de bocas criam uma demanda sem precedentes. A China é o maior produtor do mundo de frutas, de citrus, de carne de porco, entre outros produtos. E nem chega a atender à sua própria demanda. Para membros do governo chinês, o discurso é de que o Brasil é e será o principal fornecedor de alimentos. Ouvi pessoalmente do ex-embaixador da China no Brasil, Li Jinzhang, em encontro no ano passado, que não há problema nenhum aquele país ter déficit nas relações comerciais com o Brasil, até porque eles possuem superávit com outras nações, entre elas os Estados Unidos. Contudo, os chineses são hábeis negociadores e, numa época em que o Brasil nem havia sido descoberto pelos portugueses, essa turma já negociava na Rota da Seda.

A pauta bilateral do agronegócio é enorme: envolve habilitação de novos frigoríficos, que serão estratégicos para suprir uma demanda por carne que deve aumentar por causa dos efeitos da peste suína que se abateu sobre o país asiático. Há discussões em torno do acesso do açúcar, suco de laranja, lácteos, frutas, café e segue o jogo.

Contudo, embora a China seja não só o principal parceiro, mas provavelmente o maior potencial de crescimento para os próximos anos, há outras peças nesse imenso tabuleiro planetário. Mercosul e Coreia do Sul avançam nas discussões de um acordo de livre-comércio, o que poderá dar aos produtos nacionais acesso ou facilitação comercial a um mercado de 53 milhões de almas com um incrível poder aquisitivo impulsionado por uma indústria de tecnologia que assiste de camarote à guerra comercial entre Estados Unidos e China e que vitimizou a chinesa Huawei, gigante da área de telecomunicações.

Há também acordo lançado e com avanços entre Mercosul e Canadá, um dos países mais “amigáveis” em se tratando de comércio e com um poder aquisitivo de tirar o fôlego. Mas o que todos esperam é a assinatura do acordo Mercosul- União Europeia, uma novela que se arrasta por quase duas décadas. Recentemente, em reunião com diplomatas, ouvi da alta cúpula do Itamaraty que o Brasil está disposto a ceder em pontos importantes para fechar o acordo. Entre eles, algumas indicações geográficas, o que pode ter impacto sobre alguns setores porque impede que produtos sejam comercializados internacionalmente utilizando nomenclaturas atribuídas a lugares como “Parma”, “Champagne”, entre outros. Também estão pendentes limites para cotas de carnes, até então consideradas insuficientes, bem como a não tarifação do açúcar dentro das cotas estabelecidas, afinal, a cota já é uma restrição ao livre-comércio em si. Sairiam beneficiados do acordo suco de laranja e frutas, que alcançariam no médio e longo prazos benefícios já concedidos a outros concorrentes como o México, que tem feito um ótimo trabalho em se tratando de acordos comerciais com parceiros importantes, entre outros.

Nos últimos 20 anos, o Brasil pouco se movimentou em relação a parcerias com países ricos. Enquanto o Mercosul empacava na apatia de governos pouco afeitos a negócios com o Hemisfério Norte, o Chile fechou nada menos do que 26 acordos comerciais e faz negócio com todo mundo que é importante e paga bem. Mas mesmo com essa nova disposição liberal em vender para o mundo, o Brasil tem alguns desafios pela frente. Nosso liberalismo é muito mais latente na venda do que na compra. Enquanto nossa agropecuária é extremamente ofensiva, nosso País ainda carrega a cultura de produzir de tudo: de guarda-chuvas a aviões. Nossa indústria é extremamente diversificada por um lado e pouco competitiva por outro. Vender mais significa comprar mais e há setores que, infelizmente, são casados com o atraso. Se esse casamento vai durar ou se o divórcio acontecerá em nome do futuro quem viver verá.

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