A geopolítica do agro

Avaliar desafios e oportunidades do agro sob a perspectiva internacional é essencial para o Brasil


Edição 15 - 01.07.19

Por Odilson Luiz Ribeiro e Silva*

*Auditor fiscal federal agropecuário, aposentado, ex-secretário de Relações Internacionais do Agronegócio – SRI/MAPA e primeiro adido agrícola em Bruxelas

O comércio mundial de produtos agropecuários representa cerca de US$ 1,2 trilhão por ano. Sua importância, no entanto, não pode ser medida em divisas, mas em relação à multifuncionalidade do setor. Trata-se de um conceito desenvolvido pelos europeus para justificar o apoio da sociedade local aos recursos aplicados, muitas vezes a fundo perdido ou não reembolsáveis, na política agrícola comum do bloco. O setor do agro, para países que têm condições competitivas de produção, interage com diversas áreas, desde a saúde, infraestrutura e energia, tradição e cultura, e meio ambiente, além de poder afetar a segurança das nações.

Por causa dessa complexidade e interação com tantos setores importantes, o agro é sempre o desafio central na negociação internacional, seja em âmbito bilateral, regional ou multilateral. Certamente, esse foi o setor mais sensível durante as intensas negociações entre o Mercosul e a União Europeia no ano passado. Para o Brasil, cujo agronegócio representa cerca de 23% do PIB e a maioria das exportações, o agro é política de Estado e deveria ser visto de forma estratégica na geopolítica mundial.

O gráfico abaixo mostra a participação no mercado internacional agrícola dos cinco mais importantes atores globais do setor (UE, EUA, Brasil, China e Canadá), somando, em 2017, 43,7% do total. Desses, o Brasil detém historicamente o maior superávit no segmento, já que importa muito menos produtos agropecuários do que os outros quatro países citados. A importação de produtos do agro é também fator decisivo em negociações internacionais, já que exerce influência na geopolítica mundial. A China, por exemplo, costuma divulgar aberturas comerciais, inclusive no setor do agro, por ocasião de visitas internacionais de alto nível. Em novembro de 2018, durante a China International Import Expo (Ciie), em Xangai, ocorreu a maior feira de importação com o objetivo de mostrar a abertura comercial do país para o mundo. Assim, a China consolida sua estratégia de ser um ator cada vez mais importante na geopolítica global.


Os cinco principais atores globais do agro adotam políticas específicas de governo em suas ações internacionais. Valorizam, por exemplo, eventuais aberturas de seu mercado a outros parceiros, monitoram continuamente as importações e notificam as não conformidades correspondentes, atuam ativamente em órgãos multilaterais como OMC e organismos internacionais de referência (Codex Alimentarius, Organização Mundial de Saúde Animal – OIE e Convenção Internacional para a Proteção dos Vegetais – CIPV) para temas SPS (sanitários e fitossanitários), como também naqueles relativos a propriedade intelectual, a obstáculos técnicos ao comércio, a agricultura, entre outros. No entanto, não basta atuar efetivamente junto a essas instâncias. É preciso entender a interação entre suas atividades e as políticas internas de fomento e valorização dos produtos agropecuários nacionais, para fortalecer a posição do País nas negociações internacionais. Contar com quadro estável de especialistas em negociações agrícolas internacionais, como é o caso dos adidos agrícolas, é fundamental para o sucesso das iniciativas de valorização das políticas que visam maior inserção do agro nacional no comércio mundial.

No Brasil, falta ainda reconhecer o poder geopolítico do agro no mercado internacional, não somente para aumentar os cerca de 7% que temos no comércio global do setor, mas para evitar futuras crises. Exemplo desse fato seria a avaliação de políticas públicas a serem implementadas com o setor privado para evitar impactos na nossa exportação de soja e seus produtos, tendo em vista a ocorrência da peste suína africana na China. O sacrifício de cerca de 130 milhões de suínos naquele país poderá afetar a aquisição de mais de 40 milhões de toneladas de grãos anualmente, principalmente a soja. Alternativas para usos, no Brasil, da soja e seus produtos como na indústria química, na de alimentação animal ou na de biocombustíveis, por exemplo, poderiam ser estimuladas para minimizar efeitos negativos relacionados à futura demanda do produto no mercado internacional.

Outro exemplo poderia ser na área de tecnologia e logística. Para maior conexão com o setor de desenvolvimento de veículos não tripulados em estradas inteligentes, setor de grande potencial no futuro, o Brasil poderia implantar projeto-piloto para o transporte de cargas nesse tipo de veículos. Além de apoiar a pesquisa e o desenvolvimento nos setores de tecnologia da informação e outras engenharias, poderiam ser minimizadas, no futuro, dificuldades enfrentadas durante períodos de eventuais greves de transporte no País, abrindo um círculo virtuoso de atuação de diversas empresas e segmentos comerciais na atividade. Exemplo, também exitoso, ocorrido por ocasião do lançamento do Edital 64/2008, do CNPq, para apoio tecnológico às áreas de interesse da defesa agropecuária brasileira, poderia ser reproduzido, suprindo carências de tecnologia em área estratégica e estimulando a interação da academia para assegurar a qualidade do complexo agroalimentar do País, amparar certificações e minimizar riscos sanitários ou fitossanitários quanto às importações brasileiras.

A maior inserção do agro brasileiro no comércio internacional não é tarefa fácil e necessita de estratégia integrada, como foi proposto pela Resolução Camex 104, de 20 de dezembro de 2018. Avaliar os desafios e oportunidades do agro nacional sob perspectiva de geopolítica mundial é essencial para um país como o Brasil, que pretende valorizar seus produtos agropecuários exportados e aumentar sua parcela de atuação no mercado mundial. O resultado de políticas exitosas relacionadas ao setor mais dinâmico da economia nacional também reforçaria a importância do Brasil nas relações internacionais e a posição do País em decisões estratégicas globais.

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