Um SUV para chamar de seu

Por que todo mundo quer um utilitário esportivo e as montadoras aumentam o cardápio de ofertas?


Edição 14 - 12.06.19

Por Sergio Quintanilha

Você adora SUV, mas não usa o carro na lama ou mesmo em estradas ruins? Quer um SUV, mas não quer a sensação de estar dirigindo um caminhão? Tudo bem, isso é normal. Assim como você, milhões de pessoas adotaram os SUVs (sigla para Sport Utility Vehicles) como o tipo de carro perfeito para usar na rua, na chuva ou na fazenda. Esse movimento começou nos anos 1980, foi reinventado no final do século 20 e conquistou corações e mentes no século 21. Ninguém mais resiste ao charme, à bravura e à versatilidade dos SUVs. No Brasil, por exemplo, as vendas dessa categoria (24,6%) só perdem para as vendas de hatches pequenos (35,3%), segundo o ranking da Fenabrave (Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores). Mesmo assim, no segmento de luxo, os SUVs são insuperáveis.

Carros como Porsche Cayenne, Jaguar E-Pace e Volvo XC60 vendem muito mais do que modelos clássicos como Porsche 911, Jaguar XE e Volvo V40. Por isso, a variedade de SUVs disponíveis no mercado é cada vez maior. Não apenas a variedade, mas também a utilidade. Na origem, um SUV nada mais era do que uma perua sobre o chassi de uma caminhonete. Por isso, até recentemente, os SUVs eram considerados “comerciais leves” pela legislação brasileira. Assim eram veículos como o Nissan Pathfinder e o Jeep Cherokee, dois desbravadores desse mercado no Brasil. Porém, o gosto dos consumidores por esses veículos robustos aumentou tanto, em todo o mundo, que os fabricantes acabaram transformando-os em carros normais. Inicialmente, os SUVs mantiveram a robustez e a capacidade off-road, mas ganharam conforto, um item que faltava nos veículos originais.

Os SUVs tinham a carroceria montada sobre duas longarinas que unem os eixos dianteiro e traseiro. Mas esse tipo de veículo é instável, desconfortável, sua dirigibilidade lembra a de um caminhão. Por isso, alguns fabricantes abandonaram a construção sobre chassi e adotaram a carroceria tipo monobloco, que é uma peça de aço única montada diretamente sobre os eixos. Isso melhorou a segurança e deu aos SUVs um comportamento dinâmico parecido com o de um automóvel normal. Ainda assim, mantinham grande altura do solo e também o teto bem alto. E suas linhas eram retas, valorizando mais a praticidade do que a aerodinâmica e a beleza exterior. O BMW X5 foi o precursor desse tipo de carro.

Isso não resistiu por muito tempo. As montadoras logo perceberam que a forma era mais importante do que o conteúdo para a maioria dos consumidores. As pessoas não queriam carros altos e capazes de enfrentar qualquer terreno, mas sim carros com posição de dirigir elevada e que transmitissem uma sensação de poder no trânsito. Assim, os SUVs ficaram mais baixos em relação ao solo e ganharam formas mais aerodinâmicas, porém com a posição de dirigir (que os engenheiros chamam de ponto H) elevada. Foi assim, por exemplo, que o Cayenne salvou a Porsche da falência – e, por consequência, manteve vivo também o baixíssimo esportivo 911 Carrera.

O Qashqai, da Nissan: mistura de hatch com SUV, lançou tendência na indústria

Claro que muitos puristas e especialistas torceram o nariz para o Porsche Cayenne. Mas o público adorou. Assim, novos “Cayenne” foram surgindo em todas as marcas. Não demorou para que a Nissan criasse o conceito de crossover (mistura de SUV com qualquer outro tipo de carroceria) e lançasse o modelo Qashqai, que logo se tornou um sucesso mundial e foi copiado. O Nissan Qashqai é uma mistura de hatch com SUV. Perfeito para uso na cidade. No Brasil, a Ford foi a primeira a perceber o potencial desse mercado e lançou o EcoSport, que nada mais era do que um Ford Fiesta elevado e reforçado para ganhar imagem de SUV – com um detalhe: era acessível ao grande público, ao contrário dos chamados “jipões”. Por incrível que pareça, a Ford ficou sozinha nesse mercado durante dez anos. Hoje, porém, todas as marcas têm o seu “Qahsqai”. A própria Nissan tem o Kicks, a Honda tem o HR-V, a Citroën tem o Cactus, a Volkswagen acaba de lançar o T-Cross, baseado no Polo. O interesse pelos SUVs é tão grande que a Renault arriscou apresentar o pequeno Kwid como “o SUV dos compactos”. Um exagero, sem dúvidas, mas ainda assim o modelo tem feito sucesso nas vendas.

REAL VERSUS IMAGINÁRIO

Entender o comportamento do público que deseja um SUV mesmo sem necessidade de possuir um carro desse tipo, é preciso se aprofundar em leituras que mostrem a construção de valor no imaginário. No livro O que É Imaginário (Editora Brasiliense), os professores François Laplantine (francês) e Liana Trindade (brasileira) fazem uma introdução ao tema, que reúne filósofos de várias vertentes de pensamento. “Para construir o processo do imaginário é preciso mobilizar as imagens primeiras, como dos homens, cidades, animais e flores conhecidas, libertar-se delas e modificá-las. Como processo criador, o imaginário re-constrói ou transforma o real”, afirmam. “O imaginário possui um compromisso com o real e não com a realidade. A realidade consiste nas coisas, na natureza, e em si mesmo o real é interpretação, é a representação que os homens atribuem às coisas e à natureza. Seria, portanto, a participação ou a intenção com as quais os homens de maneira subjetiva ou objetiva se relacionam com a realidade, atribuindo-lhe significados.”

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É mais ou menos disso que estamos falando quando se trata de dar aos SUVs um valor que, na maioria dos casos, eles não têm. Carros como o Land Rover Discovery Sport, o Jeep Compass 4×4 e o Mitsubishi Pajero realmente entregam toda a essência dos utilitários esportivos, porém modelos como o Honda HR-V, o Hyundai Creta e o Renault Captur oferecem apenas a posição elevada, o visual marcante e o imaginário do utilitário-esportivo para seus proprietários. Por isso, na hora de comprar um SUV, também vale a pena analisar o custo/benefício de adquirir certas tecnologias que jamais serão usadas. Isso seria a compra racional. Mas a maioria das compras é emocional – nesse caso, novamente o imaginário impõe o seu valor e faz o sucesso dos carrões das marcas de luxo.

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O primeiro SUV que se popularizou no Brasil foi o Willys Rural. Era montado sobre o chassi do Jeep Willys, que tinha também uma versão caminhonete. O carro era chamado de “perua Rural” e tinha tração 4×4 com reduzida. Nos Estados Unidos, o Willys Rural foi substituído pelo Jeep Cherokee. Outro SUV pioneiro no mercado americano é o Chevrolet Suburban, uma enorme perua montada sobre chassi de caminhonete. Hoje, somente três carros à venda no Brasil mantêm esse, digamos, “DNA de dinossauro”, ou seja, a fórmula da carroceria montada sobre chassi: o Toyota SW4 (irmão da picape Hilux), o Chevrolet Trailblazer (irmão da picape S10) e o Mitsubishi Pajero Sport (geração antiga do Pajero Full). Mas o desaparecimento desse tipo de carro é tão certo como a morte do Sol – só que não vai levar 5 bilhões de anos para acontecer.


A General Motors já apresentou a nova geração do Trailblazer, produzida no Canadá. Ele se transformou totalmente e mais parece um Chevrolet Camaro do que uma S10. Nos EUA, a Ford chocou o mundo recentemente ao revelar um Mustang-SUV. O carro tem carroceria cupê (a nova onda dos SUVs) e antecipa o que a montadora quer para o seu futuro. Claro que o carro não tem nada a ver com a esportividade do Mustang, mas o visual do modelo mais icônico da marca mostra que ela não quer mais saber de carros tradicionais como o Focus, o Fusion e o Fiesta em alguns mercados. Não menos chocante foi a atitude da Mitsubishi de recriar o mitológico Eclipse (um esportivo adorado no mundo inteiro e que foi produzido de 1989 a 2011) como um… SUV!!! O Mitsubishi Eclipse Cross chegou e já ganha novos adeptos, enquanto os fãs do antigo Eclipse roem as unhas.

No ano passado, foi a vez de a Lamborghini reescrever a história dos SUVs, ampliando seus limites. O supercarro, que usa um motor V8 biturbo 4.0, acelera de 0 a 100 km/h em 3,2 segundos e vai de 0 a 200 em 12 segundos. Nada mal para um modelo de duas toneladas. Mas, por incrível que pareça, o Lambo Urus (cuja foto abre esta reportagem) também tem enorme capacidade off-road. Com isso, a Lamborghini espera simplesmente dobrar o seu volume de vendas de 3.500 para 7 mil unidades anuais. No Brasil, já foram vendidos cinco exemplares do Urus nos primeiros dois meses deste ano. A marca italiana se vangloria de ter inventado o “Super-SUV” nos anos 1980 – uma referência ao modelo LM002, construído para uma concorrência do Exército americano nos anos 1970. O carro foi um fracasso de vendas, mas ficou conhecido como Lambo Rambo.

No ranking global dos SUVs, o Toyota RAV4 roubou o primeiro lugar do Honda CR-V. Segundo os números da consultoria Focus2Move, o RAV4 vendeu 800.676 unidades no ano passado, contra 754.417 do CR-V. Em terceiro aparece o Volkswagen Tiguan, com 718.773 unidades. Um dado interessante no ranking global é que dos dez SUVs mais vendidos do mundo, nenhum faz grande sucesso no Brasil, provavelmente pelo preço.

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Apesar do sucesso dos SUVs, todos aqueles que amam o carro baixo, dinamicamente perfeito, de aerodinâmica impecável, continuam resmungando. Não dão o braço a torcer! Por mais que a Porsche tenha aperfeiçoado a qualidade dinâmica do Cayenne, por mais que a BMW tenha feito inúmeros sucessores esportivos para o X5, como o X6M, o X4 e o próprio X5M, por mais que a Mercedes tenha nos dado um GLE Coupé com a impecável qualidade da mecânica AMG, por mais que a Land Rover tenha provado com o Evoque que um SUV pode ser esportivo e até conversível (!), continuam, todos, torcendo o nariz para os SUVs! Você se importa com isso?

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