Devaneios em bares de hotel

Coluna TERROIR - Por Irineu Guarnier Filho


28.06.19

Irineu Guarnier Filho é jornalista especializado em agronegócio, cobrindo este setor há três décadas. Metade deste período foi repórter especial, apresentador e colunista dos veículos do Grupo RBS, no Rio Grande do Sul. É Sommelier Internacional pela Fisar italiana, recebeu o Troféu Vitis, da Associação Brasileira de Enologia (ABE), atua como jurado em concursos internacionais de vinhos e edita o blog Cave Guarnier. Ocupa o cargo de Chefe de Gabinete na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul, prestando consultoria sobre agronegócio.

Muita gente que conheço não gosta de bares de hotel. Eu gosto. Como viajo muito e, às vezes, não estou disposto a me aventurar por geografias desconhecidas, o bar do hotel acaba sendo um refúgio seguro para um drinque, petiscos, a leitura de e-mails, de um livro, ou até para uma prolongada meditação. Uma breve viagem de elevador, e estou na minha cama quentinha.

Geralmente, bares de hotéis são lugares tranquilos, com música instrumental baixa, garçons sempre disponíveis, e poucos frequentadores. Como ninguém se conhece, e todos por ali estão em trânsito, a possibilidade de um encontro com aquele chato velho conhecido é remota. Bares de hotéis são lugares propícios ao exercício por vezes prazeroso da solidão.

O cineasta espanhol Luís Buñuel gostava de refletir, sonhar, e escrever roteiros em bares de hotéis escuros e silenciosos. Hospedava-se em hotéis com bares criteriosamente selecionados, nos quais imaginava seus filmes perturbadores. Grandes escritores da Era do Jazz, como Dorothy Parker e F. Scott Fitzgerald, eram frequentadores assíduos do bar do Algonquin Hotel, em Nova York. A mesa do Algonquin ficou célebre pelas histórias e porres de seus frequentadores.

Truman Capote, que nos legou a obra-prima do romance de não ficção A Sangue Frio, também era chegado a um bar de hotel – para encher a cara e, de vez em quando, até escrever. Woody Allen toca jazz com seus amigos nas noites de terça-feira no bar do Carlyle Hotel (Bemelmans Bar), em Nova York. Hemingway escrevia em cafés de Paris – mas a frivolidade dos cafés não têm nada a ver com a atmosfera intimista dos bares de hotel, como nos ensinou Buñuel em seu magnífico livro de memórias Meu Último Suspiro.

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No Brasil, quase não temos o hábito de frequentar esses bares, a menos que estejamos hospedados no hotel. Mas a maioria dos bons hotéis brasileiros possui bares aconchegantes, onde podemos nos sentir ao mesmo tempo em casa e em viagem. Quase nunca nos lembramos dos bares de hotel da cidade onde vivemos como opção para um happy hour tranquilo, por exemplo. Mas eles estão lá, com seus frequentadores discretos, às vezes solitários ou com jeito de extraviados, porque não conhecem ninguém na cidade, com seus garçons solícitos, um solo de jazz baixinho ao fundo e pouca luz.

Não é preciso ser um gênio como Buñuel para se deixar levar por devaneios num lugar assim.

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