O endereço do poder agro em Brasília

Mansão às margens do Lago Paranoá se firma como o centro das principais decisões do setor


Edição 14 - 06.05.19

Por Iva Velloso | Fotos Sérgio Amaral

Todas as terças, a partir do meio-dia, o entra e sai de carros na mansão 19 do conjunto 08 da QI 10 do Lago Sul, bairro nobre de Brasília, agita a vizinhança. Deputados, senadores, dirigentes de instituições do agronegócio e jornalistas se encontram na mansão para, saboreando uma deliciosa comida caseira, discutir temas que preocupam o setor e a economia do País. O tradicional almoço promovido pela Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) é um dos principais pontos de encontro do poder do agronegócio em Brasília. Ali se reúnem parlamentares de quase todos os partidos, ministros de Estado, dirigentes de entidades setoriais, produtores e empresários. Até presidentes da República já passaram pela mansão para participar do convescote.

Esse pedacinho do Lago Sul poderia até ser batizado de “Agro Sul”, por abrigar boa parte do PIB do agronegócio na capital federal. Próximo à mansão da FPA, precisamente na casa 6, ficam localizadas as sedes da Aprosoja Brasil (Associação Brasileira dos Produtores de Soja); da Abramilho (Associação Brasileira dos Produtores de Milho); da Abrass (Associação Brasileira dos Produtores de Sementes de Soja) e do Canal Rural. São endereços tradicionalmente frequentados pelos expoentes do PIB Agropecuário, mas que ganharam movimento (e relevância) extra desde a eleição de Jair Bolsonaro para a Presidência da República. Em retribuição ao apoio maciço do setor a sua candidatura, Bolsonaro abriu frentes de atuação para os representantes do agro no parlamento e, assim, novos nomes ligados ao campo começaram a ganhar brilho no mapa dos mais influentes em Brasília. A região do “Agro Sul” definitivamente entrou para o mapa do poder, tendo como epicentro a sede da FPA.

A proximidade da Frente com o setor é que garante o diferencial na atuação da entidade em Brasília. E esse diferencial se materializou por meio da criação do IPA (Instituto Pensar Agropecuária), responsável por gerir um fundo financiado por 39 instituições do agronegócio. O fundo banca despesas que vão desde o aluguel da mansão da FPA no Lago Sul, passando pelo pagamento de funcionários, dos almoços das terças – são servidas cerca de 300 refeições a cada encontro – até a contratação de consultorias, pesquisas e trabalhos que são usados para subsidiar os parlamentares da Frente nos projetos em tramitação ou para balizar a atuação legislativa.

Por causa dessa organização, a FPA vem ganhando mais apoio a cada legislatura. “Já estamos com quase 300 parlamentares”, comemora o presidente da Frente, deputado Alceu Moreira, cuja posse, dia 19 de fevereiro, contou com a presença do presidente Jair Bolsonaro. Uma bela demonstração da força da bancada ruralista. “A Frente tem força por causa da sua legitimidade junto ao setor”, avalia o presidente da OCB (Organização das Cooperativas do Brasil), Márcio Freitas, um dos colaboradores do IPA. Apesar de apenas de 35% a 40% da OCB ser formada por cooperativas ligadas ao agro, a instituição vê na FPA uma ponte para garantir conquistas junto ao Legislativo e Executivo.

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Os estudos bancados pelo IPA são encomendados de acordo com as prioridades do setor estabelecidas a cada ano. O presidente da Aprosoja — principal financiadora do IPA –, Bartolomeu Braz, viu a necessidade de criação do Instituto como uma solução para a melhor atuação da Frente. “A Frente age muito mais do que as pessoas pensam”, afirma Braz. Por meio do IPA, diz, os deputados e senadores recebem informações que ajudam no debate técnico tanto no Legislativo quanto no Executivo.

Com mais de 30 anos, a FPA é a frente parlamentar mais antiga, mais atuante do Legislativo e com maior poder de influência junto ao Executivo Federal. Essa força ficou ainda maior no governo Jair Bolsonaro, que retirou dos partidos e passou para as bancadas temáticas o poder de indicação de ministros. Graças a essa mudança, a FPA conseguiu alçar a então presidente da Frente, deputada Tereza Cristina (MS), ao cargo de Ministra da Agricultura. Uma vitória e tanto. Afinal, os antecessores, apesar de ligados ao setor, foram escolhidos à revelia da bancada ruralista. Kátia Abreu pela amizade com a então presidente Dilma Rousseff, e Blairo Maggi, por indicação do PP.

Além da própria ministra, a FPA indicou ainda o secretário executivo da Pasta, o ex-deputado Marcos Montes, e o secretário de Agricultura Familiar e Cooperativismo, Fernando Henrique Kohlmann Schwanke. As indicações não pararam por aí. O ex-deputado Valdir Colatto ganhou de presente a presidência do Serviço Florestal Brasileiro (SFB), um órgão que até pouco tempo pertencia ao Ministério do Meio Ambiente e que agora se subordina ao Ministério da Agricultura.

Além do Ministério da Agricultura, a FPA tem bastante trânsito junto à Casa Civil da Presidência, chefiada pelo ex-deputado Onyx Lorenzoni. Egresso da Frente, o médico veterinário foi presidente da Comissão de Agricultura da Câmara dos Deputados e tem ampla influência junto à ministra Tereza Cristina, companheira de partido (ambos são filiados ao DEM). Onyx, aliás, tem participado ativamente dos assuntos do Ministério da Agricultura. Para acompanhar a transição, ele indicou o servidor aposentado da Embrapa, Francisco Basílio Freitas de Souza, que ajudou a ministra Tereza Cristina a montar sua equipe. Basílio chegou a ser indicado para assumir a poderosa vice-presidência de Agronegócios do Banco do Brasil, mas foi vetado pela Lei das Estatais porque responde a um processo na Justiça. Acabou virando assessor especial da ministra e um dos seus principais conselheiros.

Ao lado de Onyx, atua como assessor especial da Casa Civil outro ex-deputado bastante conhecido da bancada ruralista: Abelardo Lupion, fundador e ex-presidente da UDR (União Democrática Ruralista). “Ele (Lupion) tem nos ajudado bastante”, afirma o deputado Neri Geller, ex-ministro da Agricultura no primeiro mandato de Dilma Rousseff.

Como todo núcleo que envolve o poder há sempre dissidência, no agro não poderia ser diferente. O secretário especial de Assuntos Fundiários do Ministério da Agricultura, Naban Garcia, é uma liderança que vem despontando com muita força em Brasília, principalmente pela sua aproximação com o presidente Bolsonaro. Mas está longe de ser unanimidade. Embora atue diretamente nas questões fundiárias, Naban tem defendido alguns assuntos que não são consenso dentro da FPA. Um deles é o não pagamento do Funrural, um acordo firmando ainda no governo Michel Temer. “Nós achamos que a maior parte (da dívida do Funrural) já foi paga. As negociações que fizeram foram razoáveis”, afirma o deputado Arnaldo Jardim, ex-secretário de Agricultura de São Paulo no governo Geraldo Alckmin, contrário à ideia de calote. O tema está sendo levantado pelo deputado Jerônimo Goergen, que chegou a ser indicado para assumir o Ministério da Agricultura por Naban.

Infográfico: Quem é quem do Agro no Planalto

Esse assunto não é o único que divide e preocupa os ruralistas. Uma proposta de securitização também vem agitando o núcleo de poder do agro em Brasília. Os defensores da proposta, liderada por Goergen, já preparam uma grande mobilização para o mês de maio. Os contrários temem que a securitização possa causar o aumento do spread bancário nos empréstimos do agro, que tem uma média de 1,6% de inadimplência.

Por fim, uma das maiores forças políticas não partidárias do agronegócio brasileiro está representada pela CNA (Confederação Nacional da Agricultura e Pecuária). A base da CNA é formada por 1.951 Sindicatos Rurais e 1.122 extensões de base. Esses sindicatos são representados por 27 federações. A CNA está sempre presente nas discussões políticas envolvendo o setor, inclusive nos momentos cruciais da política brasileira. Um exemplo dessa manifestação política foi em 2016, quando a entidade publicou uma nota defendendo o afastamento da presidente Dilma Rousseff, mesmo tendo a presidente licenciada da instituição, Kátia Abreu, ocupando o Ministério da Agricultura.

Apesar da força, o sistema começa a ser questionado por alguns parlamentares da Frente por causa da longevidade dos dirigentes de algumas federações. Um exemplo disso é o do presidente da Faesp (Federação da Agricultura do Estado de São Paulo), Fábio Meireles, que está à frente da instituição há pelo menos 48 anos. “Em outros estados a média de tempo de mandato dos dirigentes é de 30 anos. Isso precisa mudar”, afirma um deputado da FPA. Essa é uma discussão que, embora não tenha um viés político-partidário, vai acabar entrando na pauta da Frente mais cedo ou mais tarde. A CNA, ao lado do Ministério da Agricultura e da FPA, forma a tríplice estrutura de poder do agronegócio na capital federal. Uma força política e econômica que se consolida a cada dia.

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