DECISÕES À DISTÂNCIA

CowTech Parte 6: Não é preciso ir à fazenda para administrá-la


Edição 14 - 19.04.19

Por Romualdo Venâncio e André Sollitto

Entre as facilidades da digitalização mais apreciadas pelos produtores está a capacidade de gerenciar a fazenda remotamente. Que o diga o zootecnista e pecuarista Paulo Henrique Vieira Saddi. É ele quem administra as fazendas de sua família, localizadas em Goiás, Pará e Tocantins. Nessa terceira propriedade, que tem cerca de 500 hectares, começou a experimentar uma nova tecnologia para avaliar os índices de consumo de suplementos minerais do gado de corte. Para dar uma dimensão mais exata do que significa essa praticidade, quando atendeu nossa reportagem Saddi estava na Flórida, nos EUA, acompanhando o torneio de tênis de Miami. “Mas posso olhar diariamente um relatório já todo detalhado, com análises e indicações do que fazer para otimizar a alimentação do gado”, explica o produtor.

Saddi está se referindo a um sistema oferecido por sua fornecedora de minerais, a Minerthal, que conecta o cocho no campo, a fábrica dos suplementos e a gestão da fazenda. A conexão entre as informações começa por uma combinação de QR-Codes, um gravado nas embalagens de mineral e outro, no cocho. Por meio de um aplicativo, chamado de CLICQ, o tratador faz a leitura desses códigos, digita as informações sobre o alimento que ofereceu ao rebanho, pode inserir imagens – tudo isso já com georreferenciamento. “É possível correlacionar o ganho de peso com o produto oferecido, como um proteinado, e fazer uma análise econômica por lote, um índice importante para avaliação do resultado financeiro da fazenda”, explica Sergio Morgulis, diretor da Minerthal.

Morgulis, da Minerthal: relação entre insumos e ganho de peso é importante para a análise econômica

Um bom exemplo da confiança do pecuarista nas inovações tecnológicas é quando ele decide dividir – ou até ceder – seu espaço, ou de seus colaboradores, com um robô na ordenha de suas vacas. Afinal de contas, é preciso ter muita confiança para apostar em um investimento na casa dos sete dígitos antes da vírgula sem que antes possa ver o equipamento funcionando com suas próprias vacas. Pelo que mostram os resultados já registrados nas fazendas e a maior procura pelo sistema robotizado, dentro e fora do Brasil, está valendo a crença na positiva relação custo/benefício.

Os ganhos com os robôs aparecem de diversas formas. Uma delas é o próprio conforto dos animais, que seguem para a ordenha por conta própria, quando têm vontade, com menor risco de estresse. A partir daí a máquina assume o comando do manejo, faz a higienização dos tetos e do úbere, posiciona e coloca as teteiras e inicia a retirada do leite. Esse minucioso processo reduz os riscos de problemas sanitários, beneficiando a longevidade das vacas, e impacta nos índices de volume e qualidade da produção. Cada etapa desse procedimento também se transforma em informação, pois o robô ordenhadeira ainda lê a identificação de cada animal e integra os dados ao histórico da vaca correspondente.

Não é incomum o rebanho se acostumar à novidade antes mesmo que seu dono, até porque a lida diária muda bastante. Sem a necessidade de manter a rotina de horários das duas ou três ordenhas, que quase sempre começa com o dia ainda escuro, o pessoal da fazenda pode rever a programação de atividades cotidianas, e até ganhar em qualidade de vida. A maior tranquilidade vem ainda pelo aumento de subsídios para as tomadas de decisão a partir da associação dos números e relatórios fornecidos pelo sistema robotizado com o programa de gestão.

O avanço da tendência de automação na sala de ordenha já impacta nas estratégias de outras empresas do setor. A Genex, de inseminação artificial, incluiu em seu catálogo de reprodutores de raças leiteiras de origem europeia o Índice de Contabilidade Robótica (RC$). A ideia é ajudar os produtores que já investiram ou pretendem optar pela ordenha robotizada a escolherem touros com base em características como comprimento e colocação de tetos e maior resistência à mastite.

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