Natural ou industrial, o que importa é a qualidade do vinho

Coluna TERROIR - Por Irineu Guarnier Filho


15.03.19

Irineu Guarnier Filho é jornalista especializado em agronegócio, cobrindo este setor há três décadas. Metade deste período foi repórter especial, apresentador e colunista dos veículos do Grupo RBS, no Rio Grande do Sul. É Sommelier Internacional pela Fisar italiana, recebeu o Troféu Vitis, da Associação Brasileira de Enologia (ABE), atua como jurado em concursos internacionais de vinhos e edita o blog Cave Guarnier. Ocupa o cargo de Chefe de Gabinete na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul, prestando consultoria sobre agronegócio

Quem gostaria de consumir alimentos – e aqui incluo o vinho – contaminados por elementos químicos perigosos à saúde? Eu não. Nem você, não é? Vejo, portanto, com bons olhos essa tendência de valorizarmos cada vez mais os alimentos produzidos em harmonia com o meio ambiente – especialmente no caso dos vinhos. Mas, vamos com calma: todo alimento “natural” é bom?

Não acho que tudo seja obrigatoriamente saudável, muito menos “moderno”, como o marketing de certos produtores de orgânicos faz supor. Por outro lado, não veja esse movimento como mais um modismo passageiro. Trata-se, na verdade, de um retorno a uma agricultura mais natural, tal como era praticada até o começo da utilização em grande escala de agroquímicos, mas que veio para ficar. O que, em tese, é bom.

Isso não significa, no entanto, que eu considere qualquer vinho orgânico, biodinâmico ou mesmo natural (?) incondicionalmente melhor do que um vinho dito “industrial” elaborado de forma cuidadosa, com manipulação e intervenção química limitadas por regras oficiais de certificação agrícola e de saúde pública. Nem tanto ao céu, nem tanto à terra.

Há vinhos “naturebas”, contaminados por impurezas ou bactérias, que podem ser bem mais nocivos à saúde do que rótulos industriais elaborados dentro de rigorosos padrões de higiene e sanidade. Sem falar de que alguns vinhos turvos de fundo de quintal são intragáveis do ponto de vista organoléptico… Nem tudo que é “natural” é bom: veneno de cobra, por exemplo, é 100% natural – e mata!

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Andei provando vinhos naturais e, lamento dizer, muitos estavam com evidentes problemas técnicos de elaboração. Oxidados, adstringentes, desequilibrados, ascéticos, quando não bouchonée ou contaminados por Brett. Fossem rótulos de vinícolas conhecidas, seriam prontamente recusados após o primeiro gole por qualquer enófilo de primeira viagem. Mas, como trazem no rótulo uma declaração de “orgânico” ou “biodinâmico”, noto uma certa condescendência por parte de quem os bebe…

Comigo, não. Para mim, existem apenas dois tipos de vinhos: os bons e os ruins. Não contemporizo com defeitos grosseiros só porque um vinho se declara “puro”. Contudo, se foi elaborado por métodos naturais e está delicioso, que maravilha! É a perfeição.

O fato é que evoluímos muito em tecnologia desde o Cáucaso, há 7 mil anos, para chegarmos ao vinho que bebemos hoje: límpido, macio, equilibrado, estável, rico em aromas e sabores. Assepsia de cantinas, tanque de inox, controle de temperatura, bactericidas, análises laboratoriais, esterilização de rolhas – tudo isso tem contribuído para uma evolução extraordinária da qualidade, da sanidade e da durabilidade dos vinhos modernos. Lamentavelmente, no entanto, poucos desses recursos têm sido utilizados na elaboração de muitos vinhos autoproclamados “naturais”. Quem quiser conquistar adeptos com este tipo de vinho terá de se preocupar, em primeiro lugar, com a qualidade. Preceito que vale, aliás, para os produtores de qualquer tipo de vinho.

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