Enochatos e enopopulistas

Coluna TERROIR - Por Irineu Guarnier Filho


18.02.19

Irineu Guarnier Filho é jornalista especializado em agronegócio, cobrindo este setor há três décadas. Metade deste período foi repórter especial, apresentador e colunista dos veículos do Grupo RBS, no Rio Grande do Sul. É Sommelier Internacional pela Fisar italiana, recebeu o Troféu Vitis, da Associação Brasileira de Enologia (ABE), atua como jurado em concursos internacionais de vinhos e edita o blog Cave Guarnier. Ocupa o cargo de Chefe de Gabinete na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul, prestando consultoria sobre agronegócio

Os excessos cometidos pelos enochatos – esnobes que transformam o simples ato de beber uma taça de vinho num ritual esotérico – resultaram no surgimento de um outro tipo de chato ainda pior: o “enopopulista”.

Se os arrogantes “sacerdotes” do culto místico a Baco complicam ao máximo o consumo da bebida, os “desmistificadores” mais exaltados da enocultura caem no extremo oposto: pretendem converter um produto nobre da agricultura em uma commodity insossa.

Vinho branco – ou tinto – “estupidamente gelado”? Misturado com Coca-Cola? Harmonizado com cachorro-quente ou churros? Late harvest com feijoada ou fortificado com peixe? Servido em copos plásticos descartáveis? Pode isso? Claro que sim. Tudo é permitido em matéria de gosto. Regrinhas básicas – desenvolvidas em séculos de experimentação – podem ser simplesmente jogadas no lixo. Mas, convenhamos: até que ponto este vale tudo populista favorece a milenar cultura do vinho?

É certo que o consumo de vinhos no Brasil – de menos de dois litros por habitante ao ano – é muito baixo. Um aumento das vendas seria muito bem-vindo para o setor. Mas, será que o caminho é mesmo este? O que há de errado em olhar, cheirar, rolar o vinho pela boca e procurar descrever, descontraidamente, suas cores, aromas e sabores, comparando-os com flores ou frutos? Bem, quem preferir pode beber seu vinho de um gole só, no gargalo da garrafa, solitariamente, sem nenhum comentário. Por que não? Mas, qual a graça?

Tire do vinho a literatura, o encanto das palavras que o descrevem, a história das famílias que o elaboram, a figura do vinhateiro por trás do rótulo, as paisagens onde brotam as vinhas e teremos apenas uma beberagem vulgar para entorpecer os sentidos de beberrões sem critério.

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O vinho é bem mais do que um suco de uva fermentado. É uma obra de arte da civilização. Acompanha a árdua caminhada da humanidade sobre a Terra há pelo menos sete mil anos. Tem sido associado às artes, à religião, à saúde e à alegria do convívio. Merece, portanto, ser apreciado com alguma cerimônia – não com aquela devoção presunçosa dos enochatos, mas com carinho e respeito. Na temperatura certa, devagar, em boa companhia, com a comida adequada, e, por que não?, em uma boa taça.

Alguém acredita, sinceramente, que a popularização demagógica do vinho – tipo comercializá-lo em estádios de futebol – vai torná-lo a bebida preferida das “massas” no país da cerveja e da cachaça? Tenho minhas dúvidas. Acho que o enopopulismo pode, isso sim, afastar do vinho aqueles que gostariam de ser seduzidos pelos seus mistérios e de explorar sensorial e intelectualmente a sua complexidade. Como diz um amigo, não é necessário “tirar a gravata do vinho” – basta afrouxar-lhe o nó! Em outras palavras, nem tanto ao céu, nem tanto à terra. Nem enochatice, nem enopopulismo. Como escreveu Aristóteles, “a virtude está no meio”.

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