A complexidade da carne sustentável

Coluna AGROAMBIENTAL - Com apoio do GTPS


30.01.19

Ruaraidh Petre é Diretor Executivo da Mesa Global de Carne Sustentável

Por RUARAIDH PETRE

Essa é uma perspectiva da indústria brasileira de carne bovina e de suas relações mais amplas por um observador externo. Entretanto, apesar de ter contato com muitos atores diretos do setor, não estou intimamente envolvido no Brasil. Pode ser que os leitores brasileiros achem que o meu texto não é coerente com a realidade, mas ele reflete o modo como a indústria é percebida por pessoas de fora com algum conhecimento. Nesse caso, a frase “um pouco de conhecimento é algo perigoso” certamente se aplica!

No Brasil e em outros países da América Latina, a conversão de terras para a produção pecuária é vista como um risco.  O Brasil, é claro, fez o máximo para lidar com isso e demonstrou que é possível desassociar a expansão da pecuária do desmatamento através da intensificação do manejo de pastagens.

Continua a ser verdade que áreas recém-desmatadas muitas vezes têm como primeiro uso a produção de carne bovina. E existem razões muito simples para isso:

1) É fisicamente o mais simples – o desmatamento ocorre em áreas com infraestrutura precária. Uma vez aberta, a terra não está imediatamente pronta para a produção agrícola. Mesmo que as máquinas agrícolas possam chegar lá, é mais fácil colocar o gado e requer um manejo menos intensivo;

2) Quando desmatados, os solos da Amazônia não são ricos e as pastagens e o pastoreio podem iniciar fluxos de carbono (embora a eficácia disso dependa muito da gestão);

3) É, de longe, a opção mais barata;

4) O desmatamento é frequentemente especulação imobiliária: a terra dobra em valor no momento em que as árvores são removidas. Os responsáveis ​​pela remoção das árvores podem não se fixar à terra por muito tempo e não investirão mais nela do que o necessário;

5) Uma vez que a terra muda de mãos, ela provavelmente será usada para outras commodities. A carne leva toda a culpa, mas a indústria de carne bovina no Brasil ocupa 22 milhões de hectares a menos de terra agora do que na década de 1990. A médio e longo prazo, a carne bovina geralmente será substituída por empreendimentos de cultivo mais lucrativos.

Há algumas considerações que se aplicam em qualquer lugar na América Latina onde a conversão de terras está ocorrendo. Em primeiro lugar, os proprietários de terra têm o direito legal de converter algumas áreas. No Paraguai, por exemplo, alguns setores do governo apoiam ativamente a conversão legal no Chaco, enfatizando o imperativo econômico.Em segundo lugar, não há incentivo econômico para manter a floresta em pé e apenas desincentivos fracos para evitar a conversão.

A rastreabilidade também é um desafio e isso se aplica a todas as commodities produzidas nessas regiões. É uma operação relativamente simples levar gado, soja ou palma de áreas desmatadas ilegalmente para terras legalmente desmatadas e rastrear o processo a partir daí, “legitimando” o produto. Na pecuária, seria possível implementar um sistema de rastreabilidade nacional que registrasse a fazenda de nascimento de todo o gado, mas isso não foi feito. Ainda seria possível tentar manipulá-lo, mas dada a falta de recursos disponíveis para o acompanhamento do desmatamento ilegal, isso só ajudaria se houvesse fiscalização ativa – que parece ser um custo que, por enquanto, ninguém está disposto a arcar.

Em resumo, o desmatamento é um risco porque ninguém quer investir na proteção das florestas em pé. Os países que desmatam, justamente/corretamente reivindicam o mesmo direito ao desenvolvimento econômico que os países mais ricos desfrutaram no passado.

Já os países que insistem que a floresta deveria ser deixada de pé investem muito pouco para criar os incentivos econômicos necessários. Analise o valor dos investimentos agrícolas na América Latina e compare-o com os baixos valores destinados à preservação florestal. Você vai descobrir que não há concorrência.

Sabemos que é possível expandir sem perder a cobertura florestal – por exemplo, através de recuperação e melhor manejo das pastagens, bem como sistemas de produção integrados (sistemas agrosilvipastoris) nos trópicos, mas eles são muito mais complexos para se estabelecer e o investimento necessário está além do alcance da maioria dos produtores.

Se os investimentos forem disponibilizados estruturalmente (tanto para estabelecimento como para extensão), essa seria uma opção realista. Os sistemas integrados não são apenas caros, mas também relativamente complicados. Por esse motivo, a especialização e o apoio técnico também são custo importante na implantação desse processo.

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O papel das empresas é ambíguo, claro. Se há um mercado de exportação, há um incentivo para produzir. Caso uma empresa se comprometa com a legalidade ou evite uma área por completo para diminuir seu risco, está também contribuindo indiretamente com a demanda de produção em áreas ilegais – é simples destinar o produto legalmente produzido para mercados mais exigentes e o produto ilegal para os mercados menos exigentes.

Espera-se que as exportações brasileiras de carne bovina continuem a crescer, já que a produção está conseguindo superar a demanda local (o Brasil exporta 20% da produção), apesar da queda nas exportações em 2016-17. No entanto, nem todos os mercados para os quais o Brasil exporta são os mais exigentes em termos de credenciais de sustentabilidade. O Brasil exporta a maior parte de sua carne bovina para os seguintes países: Hong Kong (incluindo “mercado negro” para a China), China, Egito, UE, Chile, Ira, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, EUA e Filipinas. Embora haja algumas exportações para a UE, isso equivale a menos de 3% do total.

Em termos de poder das empresas para qualquer tipo de mudança, é preciso realmente olhar para aqueles ativos no mercado interno brasileiro, que consome 80% da produção. Já as empresas internacionais ativas no Brasil, varejistas como Pão de Açúcar, Carrefour, Arcos Dorados e Walmart, têm escala para provocar mudanças, assim como bancos como o Santander. Todos esses atores estão envolvidos no Grupo de Trabalho da Pecuária Sustentável (GTPS).

As empresas mais poderosas da cadeia de suprimentos brasileira são, sem dúvida, as processadoras. São todas empresas multinacionais brasileiras: Minerva, JBS e Marfrig. Há muitos players menores, mas esses três controlam mais da metade da oferta de carne bovina no país e quase 60% da oferta da Amazônia, além de estar entre as maiores empresas de carne do mundo. Também estão envolvidos no GTPS. Espero que eles possam melhorar a rastreabilidade em sua cadeia de suprimentos, mas parece que seus clientes não estão pressionando muito para que isso aconteça.

As empresas podem esperar um “level playing field” (igualdade nas condições de mercado), onde todas são responsáveis ​​da mesma maneira? Eu não acredito. Não há demandas sobre a carne bovina indiana (búfalo) e poucas em uma proporção significativa do que é exportado da América Latina. Mesmo para aqueles que criam as demandas, há oferta suficiente de fontes “limpas” que não impactam nas atividades. No entanto, qualquer empresa com credibilidade não deve usar outras empresas para julgar suas escolhas, mas seguir seu próprio código de ética.

Também está claro que as empresas pressionam governos e investidores a colocar seu dinheiro onde estão seus interesses. É muito bom dizer que você não comprará animais da Amazônia para produzir carne, mas pode ter certeza de que alguém o fará. A única maneira de proteger esses biomas da conversão é torná-los mais valiosos intactos do que convertidos. Isso significa um nível de investimento em florestas em pé ou biomas intactos muito maiores do que jamais vimos antes.

A demanda por proteína animal está crescendo o tempo todo, mais rápido nos países em desenvolvimento. As carnes cultivadas em laboratório não mudarão isso e o veganismo é luxo para um consumidor que pode arcar com o tempo e dinheiro ao criar uma dieta inteira a partir de plantas – veja, por exemplo, o nível de desnutrição e desperdício entre a população indiana, ao lado da epidemia de obesidade entre a classe média e pergunte-se como o veganismo funciona para os pobres do mundo.

Essas tendências são relevantes para os países ricos, mas esses países não estão mais liderando a maior parte da produção ou do consumo. Se quisermos gerar impacto na sustentabilidade da produção de alimentos global, precisamos ajudar os países subdesenvolvidos e em desenvolvimento a produzirem com o mesmo nível de eficiência dos países desenvolvidos – reduzir a diferença de eficiência dos sistemas é a maior oportunidade que temos.

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TAGS: Carne Sustentável, GTPS, Pecuária