“A gente vai ter que ousar mais na política agrícola”

Em entrevista exclusiva, futura ministra Tereza Cristina diz qual será sua marca à frente do Mapa


Edição 12 - 10.12.18

Por LUIZ FERNANDO SÁ / FOTOS: SÉRGIO DUTTI

As aparências enganam, mas apenas aqueles que não conhecem pessoalmente a deputada Tereza Cristina (DEM-MS). Mesmo com porte físico acanhado e tom de voz baixo, ela costuma se destacar no ambiente masculino e nem sempre gentil da política. A pequena produtora rural sul-mato-grossense abriu espaço e se fez ouvir em um universo em que muitos costumavam se impor por falar grosso. Adepta da negociação e firme no discurso, Tereza Cristina trocou o campo pelos gabinetes, ocupou vários postos administrativos e parlamentares em seu estado e em Brasília até chegar à liderança da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA). E, de lá, ser convocada pelo presidente eleito, Jair Bolsonaro, para comandar o Ministério da Agricultura, da Pecuária e do Abastecimento (Mapa) a partir de janeiro.

A reportagem de PLANT encontrou a deputada no casarão à margem do lago Paranoá, em Brasília, que serve como sede para a FPA, no fim de novembro passado. O local e a agenda estavam repletos. Deputados, senadores, presidentes de entidades de produtores e lobistas se revezavam nas diversas salas do local, em dezenas de reuniões em que se discutia a formação da equipe que assessorará Tereza Cristina no Mapa. Pelo menos uma definição havia saído naquela terça-feira, dia 27: o deputado mineiro Marcos Montes (PSD) ficaria com o posto de secretário executivo do Ministério, uma espécie de vice-ministro que reforça a tese de que a FPA tem o controle das principais ações da pasta. A escolha de Montes, assim como a da deputada, foi bem recebida no setor pelo perfil afeito ao diálogo. Será essa a marca da próxima gestão na Agricultura? Tereza Cristina, que naquele dia pediu para ainda não ser chamada de ministra, mas de deputada, responde na entrevista a seguir.

 Vou começar a pergunta mais simples: qual será a sua marca no Ministério? O ministro Blairo Maggi, por exemplo, se caracterizou como um caixeiro-viajante do agro brasileiro, abrindo mercados e enfrentando as barreiras que tentam impor aos nossos produtos.

A marca, que não será só minha, mas a que esse governo quer implementar, é da simplicidade e da simplificação. O que nós pudermos simplificar dentro dos processos, sem perder a qualidade e a segurança desses processos, a gente tem de fazer. Hoje a burocracia brasileira, em todos os setores, se tornou uma âncora que não deixa o Brasil deslanchar.

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Qual será o primeiro alvo nesse sentido?

A gente tem o problema hoje da defesa sanitária, que é muito complexa e também muito burocrática. Ela às vezes atrapalha. Mas não podemos perder segurança. Na verdade temos que até buscar mais segurança e voltar a ter a credibilidade que nós perdemos lá fora com todos esses processos que o Brasil viveu, como o da Carne Fraca. Mas às vezes a burocracia e as amarras que se colocam acabam fazendo com que as pessoas deem um jeitinho e, assim, a complexidade não resulta em segurança. É preciso verticalizar, o que o ministério já vem fazendo. Não vamos entrar lá e inventar a roda. Quem produz é que é o cliente do Ministério da Agricultura. Não fazemos nada se não tivermos o cliente, que é o produtor rural e a indústria do agronegócio, os diversos setores que dependem das notas normativas e dos direcionamentos que o ministério pode dar. A nossa marca deve ser fazer um ambiente de negócios que possa facilitar a vida do produtor e do agroindustrial brasileiro.

Essa simplificação será feita através do Congresso ou a partir das normas do Ministério?

Sobretudo a partir de normas. Às vezes, é a partir do entendimento, de uma mudança de cultura na cabeça das pessoas. Não é você deixar de lado o que precisa ser feito. É ter boa vontade e ajudar o produtor a produzir cada vez mais, com facilidade, com segurança, cumprindo as normas. Outra coisa que eu também gostaria muito de trabalhar é a área de crédito, a modernização dessa área. A agricultura brasileira cresceu muito e hoje o crédito oficial é insuficiente. Precisamos trazer novos mecanismos de crédito, ter crédito com juros compatíveis para com a nossa atividade e o seguro rural, que é o complemento disso.

Essa questão do seguro é uma demanda muito antiga do setor e nunca foi devidamente atendida. Por que é tão difícil implementar? E por que a senhora imagina que seja possível agora?

Eu não sei se é possível. Vou colocar todo o foco e toda a prioridade em cima disso. Acho que precisamos ter uma conversa com o setor para ver o que ele quer, porque às vezes estamos colocando dinheiro do governo no lugar errado. Outro foco que eu terei vai ser na política agrícola. Hoje o agricultor tem problema de endividamento. Apesar de a agricultura ser o motor da economia, a cada dia o produtor vem perdendo renda. Se antes sobrava dez sacos de soja, hoje sobram sete, daqui a pouco sobram cinco… Então, antes que aconteça um desastre, precisamos fazer uma radiografia do setor e ver onde é que está precisando de crédito, onde é que está precisando de recursos, como é que vamos trazer esses recursos novos, novos títulos de crédito para a agricultura…

“Nossa marca deve ser fazer um ambiente de negócios que possa facilitar a vida do produtor e do agroindustrial brasileiro.”

Como a senhora observou, nos últimos anos, com a crise econômica, vários setores – e os próprios bancos privados entre eles — passaram a se interessar um pouco mais pelo agronegócio, porque entendiam que era o único setor que ainda podia trazer algum resultado. Esse interesse é real? Eles têm interesse efetivo em financiar o agronegócio ou virarão as costas se outros segmentos da economia começarem a reagir?

Eu acho que ele é real. Antes era só o Banco do Brasil que fazia, mas hoje você tem visto outros bancos grandes emprestando e fomentando a agropecuária brasileira. Se a gente tiver um seguro eficiente, os bancos viriam com muito mais apetite, porque as nossas safras são de seis meses e o dinheiro é de muito curto prazo. Ele recebe e já empresta de novo e logo tem outra safra. Temos que nos debruçar nesse assunto e achar um caminho mais moderno. A gente vai ter que ousar mais na política agrícola brasileira.

Ouça a conversa com a ministra Tereza Cristina no PlantCast

A Frente Parlamentar da Agropecuária está sendo muito importante na identificação dos nomes para a sua equipe. Por isso, é possível imaginar uma relação muito mais próxima com o Congresso. Mas como é que fica a representatividade das entidades representantes dos produtores junto ao Ministério? Elas tinham uma influência muitas vezes até maior do que a própria área parlamentar…

Acho que vai continuar igual. Precisamos ter essa proximidade porque senão você fica ilhado aqui em Brasília. Nós precisamos ter mais Brasil e menos Brasília. O Ministério tem 28 câmaras setoriais. Elas têm de funcionar cada vez melhor, porque lá é o ambiente para se tratar dos assuntos de cada setor. Como sou parlamentar e tenho essa ligação estreita com a Frente, com certeza quero estar sempre aqui (a entrevista foi gravada na sede da FPA, em Brasília) se chamada.

A senhora já desenhou junto com a Frente quais seriam as primeiras questões do setor levadas para o Congresso?

Ainda não. A gente já tem várias coisas que vêm de tempos, matérias que todo mundo está careca de saber. Nós até entregamos para os presidenciáveis várias pautas que interessam muito à agropecuária.

Podemos imaginar que essa pauta que a FPA entregou aos presidenciáveis seja de certa forma a base do seu trabalho no Ministério?

Com certeza. Tem coisas que o próprio governo está fazendo e talvez alguns assuntos saiam da pauta por isso. Por exemplo, a agilização nas licenças ambientais. Muitas vezes você é tão pequeno que ao invés de tirar uma licença poderia fazer uma autodeclaração. Essa sinergia entre o Meio Ambiente e a Agricultura vai facilitar demais a vida do produtor rural. E diminui custos, porque tempo é dinheiro. Quando a gente tiver isso integrado, como quer o presidente Bolsonaro, é uma das coisas que vai facilitar muito a vida dos produtores e das empresas. É claro que projetos que tenham impacto ambiental maior terão um tempo maior, mas não vão ficar dois ou três anos na gaveta, sendo analisados. Terão um tempo mais razoável porque são projetos mais impactantes. Agora, essas coisas do dia a dia da agricultura, elas vão andar e vão fluir. O produtor vai ficar muito mais tranquilo para poder trabalhar. Isso é um peso na vida do produtor brasileiro, até do pequeno produtor que hoje vive um terror com as fiscalizações que o Meio Ambiente faz.

Foi muito discutida, recentemente, uma mudança no comando da Embrapa. Como vai ser a condução da estatal a partir da sua gestão?

Quero usar a Embrapa o máximo que eu puder. Acho que ela tem muito a contribuir. Nós precisamos da Embrapa para achar o caminho que temos que seguir, ela será fundamental no Ministério nesta gestão.

Haverá uma política específica do Ministério voltada para o desenvolvimento das AgTechs, as empresas que desenvolvem tecnologia para a agricultura? Diferente de outros setores, em que somos importadores de tecnologia, no setor agrícola não teríamos a vocação para ser criadores e exportadores?

Somos criadores e exportadores e somos também os maiores embarcadores de tecnologia nos nossos produtos, apesar de a sociedade não conhecer isso. A gente sabe o tanto de tecnologia que tem no grão de milho, numa semente de milho ou numa semente de soja, numa árvore, num frango, no porco, enfim. Nós teremos uma secretaria para cuidar de tecnologia e inovação e formular políticas de estado para esse segmento, porque cada vez a agricultura brasileira vai usar mais tecnologia, não tenho dúvida disso.

Também vai haver uma política para proteção dos dados colhidos em campo?

Sim. Temos várias leis no congresso a respeito desse tema. Acho que a gente pode fazer com que elas andem mais rápido para que essa proteção de dados aconteça de maneira mais célere. E também para a gente deixar de pagar royalties e usar as nossas tecnologias caseiras, que são muito boas.

Como a senhora pretende abordar a questão da diplomacia agrícola? O ministro Blairo indicou uma série de novos adidos agrícolas nos últimos meses. De que forma a senhora pretende reforçar esse trabalho?

Na área internacional, a gente já teve uma conversa com o futuro ministro das Relações Exteriores (Ernesto Araújo) sobre essa aproximação. Ele me deu uma notícia que eu fiquei muito feliz: vai criar um departamento para cuidar de agronegócio no Itamaraty. Hoje não tem. Ele quer dar atenção especial, trazer os adidos agrícolas para dentro das embaixadas realmente, compartilhar do dia a dia das negociações comerciais do Brasil. Enfim, um estreitamento de relações entre o Ministério da Agricultura e das Relações Exteriores.

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Esses adidos seriam, de certa forma, advogados do agro brasileiro, já que o setor tem enfrentado uma série de ataques, de críticas externas nem sempre bem fundamentadas, muitas vezes na questão ambiental, de uso de defensivos?

Eles, sozinhos, não conseguem fazer essa essa advocacia a nosso favor. Isso precisa realmente de uma política de Estado combinada com o Ministério das Relações Exteriores, com a Apex junto, para mostrar lá fora o que de bom a gente faz. Hoje o Brasil é combatido, fazendo muita coisa que muita gente no mundo não faz. A gente tem uma propaganda negativa que muitas vezes é feita por gente daqui mesmo que é contrária aos interesses do agronegócio. Sobre o meio ambiente brasileiro, dizem que nós estamos destruindo, quando temos aí preservadas 67% das nossas florestas.

“Temos uma posição diferente de outros países do Mercosul. Temos que brigar pelas nossas posições, pelos produtores brasileiros e pelo nosso país.”

Há um trabalho da Embrapa Territorial nesse sentido…

Apenas 7% da nossa área é para a agricultura, que alimenta mais de 1,2 bilhão de pessoas no mundo. Esse foi um dos temas que eu tratei aqui com o embaixador Ernesto Araújo sobre o posicionamento das embaixadas também para nos ajudar. Não só dos adidos…

A impressão que se tem é de que eles nem possuem os dados suficientes para fazer essa defesa.

A gente precisa ter essa interação para conhecer o nosso campo, a nossa agricultura. Recebi ontem seis embaixadores e tenho mais dez para receber. Todos querendo falar sobre agricultura. Alguns com preocupações específicas, outros querendo conhecer o nosso País. Acho que temos que mudar mesmo, temos que vender a imagem verdadeira do Brasil.

Gostaria de perguntar especificamente sobre as relações com três países: China, Estados Unidos e Argentina. Os dois últimos, na sua opinião, são concorrentes ou parceiros do agro brasileiro?

A Argentina produz as mesmas coisas que o Brasil, temos as mesmas características de produção. Então, ela é concorrente. Mas pode ser uma aliada. Depende de a gente sentar numa mesa de negociação e vender junto, combinar o Mercosul, que está patinando há muito tempo. De repente podemos fazer desse limão uma limonada. Acho que o Mercosul pode ser útil, mas ele tem que ser revisto, já foi feito há 30 anos. Nesse acordo, tem de ver o que funcionou, o que não funcionou e o que nós podemos fazer funcionar juntos e melhor. Acho que tem muita coisa para se fazer. Estive conversando com o embaixador argentino ontem. Ele foi muito gentil, entende perfeitamente a posição do Brasil. Quer sentar para conversar. O ministro da Agricultura argentino quer vir aqui assim que esse governo tomar posse para conversar sobre as convergências e como é que podemos aparar as divergências. Um diálogo com boa vontade. Tem coisas que não vamos acertar, há outras que temos que resolver agora, como o acordo Mercosul-União Europeia. Temos uma posição diferente de outros países do Mercosul, mas estamos negociando para fazer o melhor acordo. Nem sempre o melhor acordo é aquele que a gente queria, mas é o possível. Temos que brigar pelas nossas posições, pelos produtores brasileiros e pelo nosso País. Cada um briga pelo seu e depois vamos ver o que sai disso.

E os Estados Unidos?

É um país com o qual o governo Bolsonaro vem fazendo uma aproximação grande. Precisamos sentar e ver o que é convergente. Com a China, que é um grande importador dos produtos brasileiros, nós também temos que sentar. Temos que olhar primeiro o que nós queremos para depois negociar.

Com a China há vários interesses além da questão da importação, como a produção no Brasil, o controle de áreas de logística, entre outras. Nessa questão a senhora já tem uma posição clara?

Não. A gente está montando o governo, as equipes ainda não sentaram para discutir e achar o caminho. O tom que o presidente quer dar a gente sabe. Mas essa equipe vai ter que sentar e cada um está cuidando da sua caixinha agora. Minha missão hoje é pegar o Ministério da Agricultura, enxugar o que for possível, fazer essa montagem para começar a funcionar de uma nova maneira a partir de janeiro. Assim estão fazendo o ministro (Paulo) Guedes, o ministro Ernesto… Cada um está fazendo a sua tarefa de casa. Vai ter uma hora que nós vamos sentar com temas que são relevantes ao governo, que são políticas de governo, para poder discutir e cada um montar as suas estratégias.

Como reduzir os gargalos logísticos que o agronegócio enfrenta? Já existe uma proposta alinhada com a área econômica?

A gente sabe de alguns gargalos na nossa área de agricultura. Por exemplo, o Arco Norte. Lá, nós precisamos ter aquela ferrovia saindo pelo rio Madeira. A Ferrogrão é muito importante. A gente sabe da importância da Ferronorte, do meu estado (Mato Grosso do Sul), que vai para Santos. A gente precisava ter a malha Oeste recuperada, para poder fazer (a produção) sair por Santos e também pelo Pacífico. Não é de hoje. A Bolívia já tem, está fazendo a sua malha ferroviária funcionar. A gente sabe das estradas que precisam ser duplicadas. A BR-163 é uma artéria que corta o País de Norte a Sul. Foi feita uma parceria público-privada que não está funcionando, tem problemas no contrato. Enfim, a gente sabe de todas as suas dificuldades. O Brasil é um país que tem tudo por fazer, principalmente na área de logística. Cada vez que a gente melhorar a logística, terá mais produção. Hoje tem alguns lugares em que se produz menos porque não tem como tirar a produção.

A agricultura brasileira será mais competitiva?

Vai ser mais competitiva. Esse custo é muito alto na nossa matriz de custo, custo da logística, do frete. Tem muitos desafios aí. Temos que ir por partes, porque ninguém vai conseguir fazer isso em quatro anos. A gente sabe das dificuldades que nós temos. Agora, se o Brasil tiver credibilidade, se cumprir contratos, se der segurança jurídica para que investidores venham trazer investimentos, principalmente nessas áreas, acho que a gente pode começar a fazer a grande mudança que estamos esperando há anos.

Um dos programas mais destacados do atual governo é o RenovaBio, que faz uma conexão entre a agricultura e a política energética. Que nível de prioridade esse programa vai ter na sua gestão?

Ele não está na Agricultura. Está nas Minas e Energia. Mas eu acho ele fundamental e o que eu puder apoiar para ele ser regulamentado, farei. Já passou na Câmara e no Senado, já é uma lei, mas a gente precisa regulamentá-lo. Então, no que a Agricultura puder contribuir para que isso caminhe, terá todo o meu apoio.

O RenovaBio tem potencial para gerar uma renda adicional importante pro produtor.

Com certeza. Precisa de gente com cabeça aberta lá para entender esse programa, que é fantástico. Ele pode ser uma grife para o Brasil na área ambiental.

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