Os vinhedos do Pampa

Coluna TERROIR - Por Irineu Guarnier Filho


22.11.18

Irineu Guarnier Filho é jornalista especializado em agronegócio, cobrindo este setor há três décadas. Metade deste período foi repórter especial, apresentador e colunista dos veículos do Grupo RBS, no Rio Grande do Sul. É Sommelier Internacional pela Fisar italiana, recebeu o Troféu Vitis, da Associação Brasileira de Enologia (ABE), atua como jurado em concursos internacionais de vinhos e edita o blog Cave Guarnier. Ocupa o cargo de Chefe de Gabinete na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul, prestando consultoria sobre agronegócio

Segunda maior região produtora de vinhos finos do Brasil, atrás da Serra Gaúcha, a Campanha, na metade meridional do Rio Grande do Sul, redescobre sua vocação ancestral para a vitivinicultura com a expansão de seus vinhedos e prêmios internacionais para seus melhores vinhos. Foi neste lindo pedaço do Pampa que a vitivinicultura se estabeleceu, por obra de imigrantes espanhóis, bem antes de os italianos desembarcarem na Serra, na segunda metade do século 19. Em 1888 já havia até uma vinícola na Campanha – a Quinta do Seival, erguida por um empreendedor espanhol.

 

Mas foi a partir do início da década de 1970, com a instalação de projetos norte-americano (Almadén) e japonês (Santa Colina) em Sant’Ana do Livramento, na fronteira com o Uruguai, que a vitivinicultura ganhou impulso na região. A atração de capital estrangeiro resultou de estudos elaborados no início da década de 1970 por pesquisadores da Universidade da Califórnia em Davis, trazidos ao estado pela Secretaria de Agricultura, que confirmaram a vocação local para a produção de vinhos. A atividade se consolidou a partir de 2000 com a migração de tradicionais vinícolas da Serra, como Salton, Nova Aliança e Miolo, para municípios da região, em busca de clima mais favorável à vinha e terras planas propícias à mecanização.

Hoje, a Campanha Gaúcha já possui mais de 2 mil hectares de vinhedos. Deles, saem 35% das uvas viníferas brasileiras e 25% do vinho fino nacional. Em pleno Paralelo 31 (o mesmo onde se localizam tradicionais regiões vinícolas da Austrália, África do Sul ou Chile), a Campanha abriga atualmente cerca de 20 projetos vitivinícolas, distribuídos entre os municípios de Candiota e Itaqui. Os números impressionam – mas o terroir do bioma Pampa, por onde se esparramam esses vinhedos, mais ainda. Com topografia suavemente ondulada, elevações de no máximo 300 metros, solos pedregosos, invernos rigorosos e verões muito secos, além de excelente insolação, a Campanha se credencia como uma das mais promissoras regiões vitivinícolas da América do Sul. Também chamada de “Califórnia Brasileira”, guarda alguma semelhança com terroirs de Mendoza, na Argentina, reduto da uva Malbec, ou de Canelones, no Uruguai, onde reina a Tannat.

Ideal para a produção de vinhos tintos mais encorpados, elaborados com uvas Cabernet Sauvignon, Tannat ou Touriga Nacional, a Campanha também tem revelado pendor para brancos menos ácidos e mais estruturados que os da Serra à base de Chardonnay e Sauvignon Blanc, e de bons espumantes. Se os vinhos da Serra lembram um pouco o estilo Velho Mundo, a produção da Campanha tem mais a cara do Novo Mundo. Uva emblemática? Ao contrário da Serra, que elegeu a Merlot, a Campanha ainda não se decidiu entre Cabernet Sauvignon e Tannat. Mas, pela proximidade com o Uruguai, tudo indica que a Tannat acabará vencendo a disputa.

A Campanha está prestes a ser contemplada com uma Indicação de Procedência (IP) do Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI) – que reconhecerá a identidade de seus vinhos e agregará valor aos rótulos de vinícolas como Guatambu, Dunamis, Peruzzo, Seival Estate e outras. Além disso, surgem projetos turísticos e gastronômicos voltados para a valorização de produtos locais, como o azeite, a carne de cordeiro e o mel, além, é claro, dos vinhos.

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O destaque é o roteiro enoturístico batizado de Ferradura dos Vinhedos, em Sant’Ana do Livramento. O percurso, em forma de uma ferradura, contempla visitas a vinhedos das empresas Salton, Nova Aliança, Almadén e Cordilheira de Santana. De quebra, ainda brinda o turista com a bela vista de lugares como o Cerro Palomas, o Cerro da Cruz, olivais, e com passagens por locais históricos da Revolução Farroupilha. O Café Campeiro, à base de produtos regionais, servido no Passo do Guedes, completa o cardápio de atrações. Há previsão de uma ferrovia turística em meio aos vinhedos e campos onde pasta o maior rebanho ovino do Estado. Quem vai aos free shops de Rivera, no Uruguai, deveria reservar pelo menos um dia para conhecer melhor a enogastronomia local.

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