AÇAFRÃO, UM TEMPERO PARA A PAZ

Como o cultivo da iguaria ajuda a resgatar agricultores da mira do talibã no Afeganistão


Edição 11 - 31.10.18

Por Amauri Segalla

O poeta e teólogo persa Jalal al-Din Rumi escreveu no século 13 milhares de aforismos que sobreviveram aos anos. Um deles inspirou a criação da startup americana Rumi Spice: “É debaixo de ruínas que se encontram os verdadeiros tesouros”. A empresa não só adotou o nome do sábio persa como parece ter levado ao pé da letra alguns de seus ensinamentos. Este aqui, por exemplo: “Inicie agora um projeto enorme e insensato”. Ou este outro: “A ferida é um lugar aberto para a luz entrar”. Mais um: “Por que eu devo ficar  no fundo do poço se tenho uma corda na minha mão?” Cada uma dessas frases traduz, de alguma maneira, os incríveis acontecimentos que resultaram no surgimento da empresa, que cultiva e processa açafrão, a mais nobre das especiarias, em um país destruído pela guerra – o Afeganistão.

A história da Rumi Spice está ligada, mesmo que indiretamente, aos atentados de 11 de setembro de 2001, que provocaram a morte de 2.996  pessoas nos Estados Unidos e levaram a uma resposta dura do então presidente George W. Bush. Sob o pretexto de caçar o líder do regime talibã, Osama Bin Laden – sobre quem recaíam as acusações de ter planejado  os ataques às Torres Gêmeas do World Trade Center –, Bush ordenou a invasão do Afeganistão. Cerca de 30 mil americanos das forças de segurança foram mandados para lá. Com o agravamento dos conflitos e a eclosão da guerra civil, outros milhares de soldados desembarcaram em terras afegãs durante mais de uma década. Para além da tragédia que a invasão provocou, com um saldo de 40 mil mortos, 25 mil feridos e o aniquilamento da economia local, ela também resgatou, em meio às ruínas, alguns tesouros perdidos, para usar a imagem eternizada pelo poeta Jalal al-Din Rumi.

A Rumi Spice é um deles. Ela foi fundada em 2014 por quatro sócios que serviram no Afeganistão nos anos mais dramáticos da guerra. Kimberly Yung, uma oficial de engenharia do Exército, liderava pelotões responsáveis por procurar e desativar minas  escondidas nas estradas. Emily Miller, também ex-oficial de engenharia militar, participava das Operações Especiais que realizavam ataques noturnos. Keith Alaniz, único homem a fazer parte da sociedade, integrava, como oficial do Exército, os governos regionais provisórios do Afeganistão. A civil do grupo é a advogada Carol Wang, que trabalhou no país asiático em um programa de desenvolvimento rural apoiado pelo Banco Mundial.

A ideia de criar a startup surgiu quando Keith conheceu um fazendeiro afegão que lamentava o fato de o extraordinário açafrão que ele produzia não ter clientes dispostos a comprá-lo. “Todo mundo tinha medo da guerra e do Afeganistão”, disse Keith em entrevista ao jornal americano Chicago Tribune. “Quando o fazendeiro contou a sua história, pensei que militares com experiência e conhecimento do território e da cultura afegã tinham sido talhados para aquele  trabalho.” O oficial se lembrou então que duas colegas de Exército – Kimberly e Emily – faziam MBA na Harvard Business School, a famosa escola de negócios de uma das universidades mais prestigiadas do mundo, e as acionou. Aceito o convite, elas procuraram aquela que seria a quarta sócia, Carol Wang, que tinha alguma experiência com agricultura. O caminho estava traçado.

TUBARÃO NO DESERTO

Os contatos e bons relacionamentos  que os sócios da Rumi Spice construíram durante os anos em que serviram no Afeganistão foram fundamentais para levar o  projeto adiante. O ponto de partida era convencer mais agricultores a cultivar açafrão, o que certamente não seria uma tarefa fácil. Mais de 80% da população ativa do país trabalha na agricultura, mas a  maioria dela está envolvida de alguma forma com o negócio do ópio. Estima-se que o Afeganistão produza 90% das papoulas do mundo. Elas são a base para a produção industrial do ópio, que, por sua vez, á origem à heroína. Pior ainda: as extensas plantações afegãs de papoulas são controladas por chefes talibãs. Embora o cultivo  do açafrão seja seis vezes mais rentável do que o da papoula – diferença essa que é superada pela enorme demanda global por heroína, bem acima do interesse por açafrão –, os agricultores temiam enfurecer os talibãs, que não hesitam em usar a violência no domínio das lavouras.

Graças aos sólidos contatos que fizeram com autoridades locais e à rede de amizades que construíram no período da guerra,  os donos da Rumi Spice conseguiram convencer, no início, pelo menos 30 fazendeiros a cultivar o açafrão para o mercado internacional. Mas faltava ainda o outro lado da moeda. “Quando procuramos investidores nos Estados Unidos, a primeira reação sempre foi de choque e  recusa”, disse Kimberly Yung ao jornal americano San Francisco Chronicle. “Eles ficavam assustados com o fato de a empresa estar baseada em um país que os americanos associam apenas à guerra.” Superadas as barreiras e os velhos preconceitos, os investidores acabaram convencidos de que se tratava,  sim, de um negócio promissor. “As pessoas acham o Afeganistão desolado, mas sua terra e seu povo têm muito a oferecer”, disse Kimberly. O propósito da empresa e o fato de haver ex-militares envolvidos seduziram, por exemplo, o bilionário texano Mark Cuban. Um dos investidores participantes da versão americana do reality show Shark Tank, ele comoveu- se com a apresentação da companhia no programa e decidiu aportar US$ 250 mil em troca de 5% do capital da Rumi.

Além da bela história, Cuban visualizou um grande negócio. O açafrão é o mais nobre dos temperos e uma das especiarias mais caras do  mundo. Seu quilo pode custar US$ 30 mil, dependendo da qualidade do cultivo e das técnicas de processamento. O preço exorbitante – só um pouco abaixo da cotação atual do ouro – se deve ao fato de ser difícil para crescer e penoso para colher. É importante dizer que esse tipo de especiaria não tem nada a ver com a cúrcuma, também chamada no Brasil de açafrão-da-terra. O açafrão tratado como iguaria tem fios  que parecem linhas de costura da cor vermelha. Segundo especialistas, eles exalam um cheiro parecido com o de tabaco frutado. O tempero é feito do estigma da flor do açafrão. Cada flor contém apenas três estigmas, e na maioria das vezes são necessárias 150 mil flores para a produção de um único quilo da iguaria. Embora o melhor açafrão seja frequentemente associado ao Irã e à Espanha, o clima quente e seco do Afeganistão e o terreno montanhoso e fértil  proporcionam condições perfeitas de cultivo.

FLOR QUE VALE OURO

O produto vendido pela Rumi Spice é um dos melhores do mundo. Talvez o melhor. De acordo com critérios internacionais de aferição de qualidade, o padrão da marca Rumi é 25% superior ao nível exigido pelos certificadores que atestam o grau de  pureza da especiaria. Diversos motivos explicam isso. O primeiro deles é a terra afegã, ideal para o cultivo. O segundo se deve ao trabalho minucioso feito pelos agricultores contratados pela Rumi Spice. Eles são apaixonados pelo que fazem e tratam o produto como algo místico, conectado com forças  supremas. Essa relação íntima com a lavoura faz toda a diferença: a colheita de flores e estigmas de açafrão é um exercício delicado, que só pode ser feito manualmente e que leva muito tempo para ser concluído.

Além de atuar lado a lado com os agricultores, a Rumi Spice construiu uma unidade de processamento em Herat, terceira cidade mais populosa do Afeganistão, a 640 quilômetros da capital, Cabul. O lugar conta com 400 funcionários e mais de 300 são mulheres. Elas não ocupam apenas cargos básicos, mas também estão em postos de gerência e chefia, cuidando das tarefas de supervisão, controle de qualidade e coordenação de  equipamentos. Além disso, a startup quebrou uma tradição local. Os salários das funcionárias não são pagos para seus pais ou maridos, mas diretamente para elas, o que nenhuma outra empresa faz no país. Atualmente, a Rumi Spice é a companhia privada que mais emprega mulheres no Afeganistão, e isso obviamente tem algum peso social. De certa forma, a Rumi está ajudando a modernizar as relações trabalhistas e a incluir a mulher na sociedade. “E fazemos isso sem ser uma ONG”, disse a sócia Kimberly Yung. “Somos uma empresa com fins lucrativos que está contribuindo para transformar um país.” Por enquanto, a fábrica em Herat apenas prepara os fios das flores coletados pelos fazendeiros e cooperativas com as quais a empresa trabalha.  embalagem do produto final é feita nos Estados Unidos, mas a ideia é levar essa operação também para o Afeganistão.

Kimberley conta uma  História emocionante em suas  palestras mundo afora para falar sobre o trabalho realizado no Afeganistão. No outono passado, ela recebeu um pedido das funcionárias para comemorar a exuberante colheita. Jovens tímidas, algumas delas adolescentes, pediram para Kimberley tocar a música Irreplaceable, de Beyoncé, no telefone celular. A empresária fechou as portas da fábrica de processamento, colocou a canção para tocar em alto e bom som e durante alguns minutos as moças se sentiram livres para dançar.  Depois da festa, elas voltaram à tarefa demorada de separar os estigmas vermelhos e flamejantes das flores roxas de açafrão. Kimberley encerra a história com um ditado afegão. “Um rio é feito gota a gota.” A frase serve tanto para expressar o delicado trabalho de cultivo de açafrão quanto para traduzir o vagaroso processo de emancipação feminina no Afeganistão.

A Rumi Spice não é uma empresa voltada apenas para o progresso social. Foram necessários só dois anos de atividades para que se tornasse  um negócio lucrativo. Desde 2016, o cultivo de açafrão nas comunidades de Herat cresceu mais de 50%, enquanto as vendas do produto em restaurantes sofisticados avançaram na mesma proporção. Chefs renomados de Nova  York, Barcelona, Paris e Milão se tornaram clientes fiéis da marca Rumi Spice, mas não são os únicos parceiros da startup. As receitas de comercialização dos temperos em lojas de alimentos e no próprio site da Rumi aceleram acima de dois dígitos a cada ano, graças principalmente à diversidade de produtos desenvolvidos pela empresa.

Além dos temperos clássicos, foram criados chás, geleias e até cervejas que usam  o açafrão como ingrediente, todos com ótima aceitação no mercado. “E nós temos mais produtos em mente, como manteiga de açafrão e bebidas saudáveis”, disse Kimberley em entrevista recente. “A aplicação do produto oferece infinitas possibilidades.” A fantástica  trajetória dos ex-soldados que transformaram uma experiência dura em algo positivo pode ser definida por um dos aforismos do sábio Jalal al-Din Rumi: “Você nasceu com potencial. Você nasceu com bondade e confiança. Você nasceu com ideias e sonhos. Você nasceu com grandeza. Você nasceu com asas. Você não  está destinado a rastejar, então não rasteje. Você tem asas. Aprenda a usá-las e voe” .

 

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