A delicada arte da crítica de vinhos

Coluna TERROIR - Por Irineu Guarnier Filho


19.10.18

Irineu Guarnier Filho é jornalista especializado em agronegócio, cobrindo este setor há três décadas. Metade deste período foi repórter especial, apresentador e colunista dos veículos do Grupo RBS, no Rio Grande do Sul. É Sommelier Internacional pela Fisar italiana, recebeu o Troféu Vitis, da Associação Brasileira de Enologia (ABE), atua como jurado em concursos internacionais de vinhos e edita o blog Cave Guarnier. Ocupa o cargo de Chefe de Gabinete na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul, prestando consultoria sobre agronegócio

Todo mundo imagina que a vida de um “crítico de vinhos” é uma delícia. Degustações, concursos internacionais, viagens, garrafas de cortesia, festas… Quem não gostaria de ter um trabalho desses? Mas a realidade não é bem essa. Não é fácil ser um comentarista profissional de vinhos. Já fui, em tempo integral, hoje não sou mais (a não ser ocasionalmente), e posso lhes assegurar isso. O crítico, o comentarista ou o cronista do vinho, como me defino, trabalha onde os outros se divertem. Enquanto os enófilos hedônicos bebem, o profissional analisa. Quando os outros vão dormir, o crítico tem de escrever, editar fotos, postar. Com o tempo, o prazer vira…trabalho. Para quem gosta do que faz, no entanto, isso não é problema.

Problema, mesmo, é ter de responder aos chatos e invejosos que fazem sempre a mesma pergunta mal intencionada: Por que vocês, “críticos”, não falam mal dos vinhos? Vocês nunca provam vinhos ruins?

Sim, provamos. Cheguei a degustar profissionalmente mais de cem rótulos por mês, e devo dizer que nem todos, obviamente, eram bons. Alguns, aliás, eram bem ruinzinhos. Então, por que sempre preferi comentar os bons vinhos e não os “vinagres”? É simples. As resenhas, em geral, funcionam como um guia para consumidores neófitos ou indecisos. Pelo menos é isso o que muitos leitores esperam. Com frequência me pedem recomendações sobre bons vinhos – nunca sobre os ruins. Então, por que perder tempo falando de “zurrapas”? Será que é isso que o consumidor quer ler em uma resenha de vinhos?

Acho que não. Por várias razões, mas por uma em particular: cerca de 5% dos vinhos podem apresentar defeitos por causa de rolhas contaminadas, por problemas no engarrafamento, no transporte, pela armazenagem inadequada etc. Nem falemos de geadas tardias, chuva na vindima, pragas e doenças que afetam o equilíbrio dos vinhedos em algumas safras. O vinho varia muito de uma safra para outra. Num ano está ótimo; em outro, pode não estar tão bom. Nesse caso, uma garrafa medíocre, desclassificada por um crítico afobado, poderia comprometer todo um histórico de boas safras de um produtor idôneo. O que seria terrivelmente injusto para uma família que trabalhou duro por um ano inteiro.

Além disso, gostos variam de uma pessoa para outra. O que é bom para uma pode não ser tão bom para a outra. Da centena de rótulos diferentes que eu provava todo mês, comentava apenas uns 10 ou 12 – justamente os que mais me agradavam. Porque sempre quis que meus leitores compartilhassem comigo o mesmo deleite. Claro que ainda provo muitos vinhos medíocres. Mas simplesmente os ignoro. O que gosto, comento com prazer; do que não gosto, nem bebo o segundo gole. Outros comentaristas de vinhos podem ter critérios diferentes, mas nunca vi, por exemplo, o Robert Parker – tido como o mais independente dos críticos – arrasar com o vinho de alguém. Seria por falta de coragem?

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Quem comenta vinhos profissionalmente tem de dar a cara a tapa, correr riscos, justificar o seu gosto. É o que sempre procurei fazer, com humildade e honestidade. Posso até não redigir uma resenha arrasadora sobre um vinho ruim, mas jamais falaria bem de um vinho de que não gostasse. Claro que às vezes faço reparos. Digo, por exemplo, que determinado vinho ainda precisa evoluir – ou que não vai evoluir. Que é muito tânico. Que falta acidez. Ou que prefiro uma cor mais clara em um rosé. Mas são “críticas construtivas”. Pontificar que um vinho é “um lixo”, como fazem certos críticos de cinema ou de música, me parece inadequado, desrespeitoso e fora de propósito.

Ilustro minha “tese” com uma analogia. O crítico e produtor musical Nélson Motta, um dos melhores que o Brasil já teve, sempre comentou a música de que gostava. Outros críticos de sua geração preferiam “desconstruir” discos e artistas. Nelsinho, não. Com seu jeito bonachão, preferia falar dos artistas que idolatrava. Motta, que lançou grandes nomes da MPB, como a diva Marisa Monte, ainda é uma celebridade em seu meio. Quem se lembra dos críticos azedos de sua época?

Em tempos de tanto ódio nas redes sociais, esculachar qualquer coisa é muito fácil. Qualquer imbecil faz isso muito bem. Falar com entusiasmo dos vinhos de que gostamos, como Nélson Motta fala das músicas e dos artistas que o encantam, isso sim é que faz a diferença. Particularmente, prefiro seguir por esse caminho.

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