A FLORESTA ENTRA EM CENA NO TEATRO AMAZONAS

Símbolo máximo da era de ouro do Ciclo da Borracha, ele resiste bravamente ao declínio do Norte d


Edição 11 - 30.10.18

Por Liege Albuquerque, de Manaus

As monumentais e abundantes seringueiras da Amazônia, algumas delas com mais de 30 metros de altura, fincaram  profundas raízes na vida brasileira. Cultivadas no País desde a segunda metade do século 19, as variedades Hevea brasiliensis forneceram o látex mais cobiçado do mundo entre 1870 e 1910, período que ficou conhecido como “Ciclo da Borracha”. A crescente exportação para a Europa e os Estados Unidos desencadeou uma explosão econômica jamais repetida no Norte do Brasil. Produtores e empresários brasileiros encheram os cofres, assim como os governos locais, abastecidos pelos impostos  gerados pelas transações comerciais. Não à toa, Manaus, no Amazonas, e Belém, no Pará, experimentaram uma espécie de “belle époque” dos trópicos. Manaus foi o caso mais impressionante. Havia tanto dinheiro em circulação que os governantes decidiram importar modernidades do Velho Continente. Grandes avenidas e bulevares foram construídos, bondes circulavam nas ruas de paralelepípedo, praças e fontes d ́água embelezavam a cidade, e a energia elétrica, um pequeno milagre recém-chegado ao País, iluminava a capital amazonense. Mas isso não bastava. Era preciso exibir para o mundo um monumento que simbolizasse a pujança conquistada há pouco. Foi assim que surgiu o lendário Teatro Amazonas.

É surpreendente pensar que o Teatro  Amazonas, a pouca distância do coração da densa selva amazônica, foi inaugurado antes dos teatros municipais do Rio de Janeiro (que abriu as portas em 1909) e São Paulo (1911), cidades que em pouco tempo se tornariam as mais desenvolvidas do País. Ele nasceu oficialmente no dia 31 de dezembro de 1896, quando a elite brasileira ainda debatia os perigos da Guerra de Canudos, liderada naquele ano  por Antônio Conselheiro, e se encantava com os feitos espetaculares dos participantes da primeira edição dos Jogos Olímpicos da era moderna, em Atenas. Graças ao Teatro Amazonas, Manaus, até então um povoado bucólico, ficaria conhecida como uma capital exótica e cosmopolita, palco de uma efervescência cultural só encontrada nas grandes cidades europeias.

Não foram poucos os desafios enfrentados para colocar o teatro de pé.  O plano de tirar o projeto do papel surgiu em 1881, quando o deputado Fernandes Júnior apresentou a ideia para ser apreciada pela Assembleia Legislativa. Só três anos depois, os fundos para a construção do prédio foram aprovados. Segundo o historiador Mário Ypiranga Monteiro, a planta original apresentava o nome dos construtores Jorge dos  Santos e Felipe Monteiro e do arquiteto francês Charles Peyroton, que mais tarde deixaria sua marca também no Teatro Municipal do Rio. Entre 1886 e 1892, as atividades praticamente ficaram paralisadas pelo desinteresse das autoridades, mais preocupadas com a dissolução do Império do Brasil e a transição para a República. As obras só aceleraram de fato em 1893, pelas mãos do governador Eduardo Ribeiro, um ambicioso filho de escravos que utilizou o teatro como ponto de partida para seu plano de expansão  urbana, inspirado na iconografia europeia e que faria com que Manaus ficasse conhecida como a “Paris da Selva”.

Ribeiro não economizou recursos na construção do Teatro  Amazonas. Com arquitetos, pintores e escultores da Europa, a mão de obra era praticamente toda importada, assim como os materiais (a honrosa exceção ficou com a madeira  brasileira). O aço veio da Inglaterra. O mármore, da Itália. As telhas, da França. O design exterior ficou a cargo do arquiteto italiano Celestial Sacardim, que planejou a rotunda central decorada com o desenho da nova bandeira da República brasileira, marco que distingue o prédio até hoje. A decoração interna do teatro, com exceção do salão nobre (que foi entregue ao italiano Domenico de  Angelis), se deve ao pintor pernambucano Crispim do Amaral, que chegou a viajar para Paris para buscar inspiração na capital mais pulsante do mundo. Crispim é o autor de uma das peças mais marcantes do local: a pintura no teto da sala de espetáculos com alegorias que remetem aos elementos essenciais do teatro (tragédia, ópera, dança e música). Até hoje os números superlativos do Amazonas chamam a atenção. Ele possui  98 lustres de cristais venezianos, 36 mil peças de cerâmica esmaltada importadas da região francesa da Alsácia e 12 mil pedaços de madeira nobre que foram apenas encaixados, sem a necessidade do uso de cola ou pregos.

No dia 31 de dezembro de 1896, a alta sociedade brasileira compareceu em peso à inauguração do Teatro Amazonas. A primeira apresentação coube à Companhia Lyrica Italiana, famosa nos circuitos intelectuais europeus. Uma semana depois, na noite de 7 de janeiro de 1897, foi a vez de uma luxuosa produção da ópera La Gioconda, do  compositor italiano Amilcare Ponchielli, subir ao palco. Detalhe: La Gioconda havia estreado apenas 20 anos antes na Itália para se consagrar como uma das peças mais reverenciadas entre as grandes óperas europeias. Não é difícil imaginar o impacto que as apresentações causaram na cidade encravada na confluência dos rios Negro e Solimões e no coração da maior floresta tropical do mundo. Poucos teatros no mundo, e certamente o único do Hemisfério Sul, poderiam rivalizar com a opulência do Teatro Amazonas.

No início do século 20, o Amazonas se manteria como principal referência cultural do Brasil, atraindo grandes companhias de ópera da Europa. O fim da era de ouro da borracha, porém,  acabaria afetando a cidade e seu maior patrimônio. Àquela altura, plantações de borracha foram estabelecidas em territórios britânicos no Sri Lanka e na África, onde as árvores se mostraram mais produtivas. Resultado: em poucos anos, Manaus deixou de controlar 98% do mercado mundial de extração de látex e passou a responder por menos de 5% do setor. O dinheiro, antes farto, acabou, levando a cidade a mergulhar em um período de decadência tão veloz quanto a sua própria ascensão. Em 1930, uma última ópera, La Traviata, foi exibida no palco do Teatro Amazonas. Sem recursos para contratar grandes companhias,  o lugar acabou sendo usado para casamentos e formaturas. Nos anos seguintes, era raramente aberto a visitantes, mantendo-se disponível apenas para festas ocasionais. Parecia um triste fim para um projeto nascido com imensa ambição.

A decadência foi interrompida graças a um acontecimento inesperado. Em 1982,  estreou nos cinemas Fitzcarraldo, filme do cineasta alemão Werner Herzog, que em pouco tempo seria cultuado no mundo inteiro. Uma das cenas do longa-metragem foi filmada no salão nobre do Teatro Amazonas, e uma onda de curiosidade internacional, despertada pela beleza e grandiosidade do lugar, levou à sua reabertura para peças e shows  regulares. Ao mesmo tempo, o turismo na Amazônia passou a atrair cada vez mais visitantes do exterior, e assim o teatro descobriu novas fontes de receita. Nos anos 1990, apresentaram-se no Amazonas a banda americana de rock The White Stripes, as britânicas do grupo Spice Girls e o também inglês Roger Waters, ex- integrante do Pink Floyd.

Em 1997, um projeto do governo do estado deu novo vigor ao local. Trata-se do Festival Amazonas de Ópera, realizado anualmente e que passou a atrair as grandes companhias e os principais cantores líricos do mundo. Desde sua primeira edição, o evento exibiu óperas como Fausto, de Charles Gounoud; Madame Butterfly, de Giacomo Puccini; Médée, de Luigi Cherubini; e Tannhäuser, de Richard Wagner. Além disso, o Amazonas voltou a abrir espaço para a cultura nacional. No início de agosto,Milton Nascimento lotou o teatro, e a proposta agora é receber em um futuro próximo os grandes nomes da música brasileira. Com a intensa programação, o Teatro Amazonas parece ter  recuperado a sua vocação original: ser uma grande ode à arte universal.

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