O BRASIL NO MUNDO DE TEMPLE

PLANT POSITIVO: A viagem, pelo País, da mulher autista que está mudando conceitos na pecuária


Edição 11 - 24.09.18

Por FLÁVIA TONIN/Fotos: ENILSON ARNEIRO E ANDRÉ VELOZO

Às nove da manhã do dia 17 de julho passado, o zootecnista Antonio Chacker, requisitado consultor pecuário que faz a gestão de dados de cerca de 300 fazendas brasileiras, deixava sua agenda lotada em Maringá (PR) com destino a São Paulo. O cansaço era evidente, mas ele havia confirmado a presença e resolveu pagar para ver. Assim como ele, produtores do Norte e Centro-Oeste também tinham o mesmo destino. No mesmo horário, em Campo Grande (MS), Aneilza e Antonio Marcos Ferreira, pais de um menino autista, o deixaram com a avó, por apenas um dia. Seguiram para a capital paulista, com o intuito de entender um pouco mais sobre o que tornava seu filho tão especial. O que essas pessoas têm em comum? Elas estavam prestes a conhecer Mary Temple Grandin.

Uma típica americana, com a pele de um branco pálido que ajuda a destacar ainda mais seus olhos azuis muito vivos, Temple, com 71 anos, é professora da Universidade do Colorado, nos Estados Unidos, e atualmente a mais respeitada pesquisadora do comportamento animal no mundo. É também autista. Ela nasceu com a síndrome e milita por ambas as causas: o bem-estar animal e o autismo. Sua história inspirou, em 2010, um premiado longa-metragem “que é autêntico”, ela confirma. No mesmo ano, Temple foi eleita uma das cem pessoas mais influentes do mundo pela revista Time.

Essa mulher fantástica, que dedicou sua vida à pecuária, desembarcou no Brasil na manhã de 15 de julho para uma visita que também a fascinaria: iria conhecer uma típica fazenda do Centro-Oeste. Vestida com sua típica camisa texana, lenço e um broche inseparável, Temple seguiu de São Paulo a Goiânia e depois à fazenda Orvalho das Flores, em Araguaiana, MT, de propriedade de Carmen Perez, líder feminina do agronegócio brasileiro.

Uma seguidora de Temple, Carmen assumiu a bandeira do bem-estar nas fazendas de corte brasileiras. Com rebanho de quase 3 mil animais, a produtora aboliu a marca a fogo para a identificação animal. Agora, avança para mudar o manejo de nascimentos e desmama. Na Orvalho das Flores, os bezerros recebem massagem durante os procedimentos de cura de umbigo, por exemplo. A separação entre mãe e filho também é feita de uma forma  gradual, de maneira que fiquem lado a lado. Consequência: seu gado é fácil de lidar – e isso foi o que Temple Grandin foi comprovar após acordar na fazenda.

Carmen e Temple ficaram o tempo todo juntas observando em detalhes o que poderia ser melhorado. Ao ver as práticas nos recém-nascidos, Temple notou que havia capacitação e cuidado. Nesse momento, não se  conteve e resolveu acariciar um dos animais, surpreendendo a todos. Em seguida, já no curral, pegou uma bandeira e apartou os bezerros, ajudando na lida da desmama enquanto explicava os métodos que ela mesma criou e hoje são usados no mundo inteiro. Até perguntaram se ela queria descansar um pouco. Negativo. Ela concluiu toda a apartação de quase uma centena de vacas e seus filhos.

DEVAGAR É MAIS RÁPIDO

A ideia de levá-la à fazenda partiu de Mateus Paranhos, coordenador do Grupo de Estudos e Pesquisa em Etologia e Ecologia Animal (Grupo Etco) da Unesp, de Jaboticabal (SP), por quem Temple tem muito apreço – e por isso atendeu ao convite de vir ao Brasil. Ela foi escolhida por ser uma sumidade no assunto, pois mudou o manejo  de bovinos no mundo. A base de seu legado está na prática de conceitos que hoje parecem simples e geram renda para as propriedades, mas que nos anos 1970, quando ela começou, pareciam bem estranhos.

Exemplo de suas ideias é o curral em curvas. Nele, os animais se locomovem sem parada. O projeto, que nasceu de suas observações, respeita o comportamento animal, já que os bois imaginam que estão voltando ao ponto inicial. As estruturas também são monitoradas para que sejam livres de obstáculos que causem distração ou medo. Por fim, as equipes de campo, ponto fundamental, também fazem parte de suas teorias. Os peões são treinados para que movimentem os animais com inteligência, sem gritaria e com uma bandeira. “Devagar é mais rápido”, ela diz.

Temple Grandin explica que conseguiu chegar a essas conclusões por entender o mundo por imagens e não por palavras, o que lhe presenteia com uma percepção diferente.  “Como eu, os animais também não entendem as palavras, mas os sons, o cheiro e o que veem”, explica. Qualquer pessoa que conviva poucos dias com ela nota sua percepção visual apuradíssima. Rapidamente ela se atenta a detalhes que passam batido para a gente comum. Isso se deve ao autismo no qual foi diagnosticada quando criança.  A característica foi encarada de forma corajosa por sua mãe, o que fez com que Temple se tornasse mais do que especial.Incentivada, ela desenvolveu uma genialidade ímpar que a permitiu avançar também nas barreiras da comunicação e levar sua ideia para o mundo. Somado a isso, há uma determinação incansável. E como ela é incansável!

PERGUNTAS E RESPOSTAS

De volta a São Paulo, Temple foi a personagem principal de cinco eventos que reuniram cerca de 1.200 pessoas, além da presença de 30 veículos de comunicação. Mesmo com a agenda lotada e regrada aos minutos, ela dizia “Eu estou bem”,e atendia a todos com cordialidade.

Temple é muito perspicaz ao lidar com seu público e aproveitou para distribuir uma centena de diretrizes ao setor. Respondeu tudo com uma convicção e um pragmatismo que deixou os brasileiros boquiabertos. Sobre os embarques de bovinos em navios para exportação – que têm causado acaloradas discussões no País –, disse que é preciso analisar as condições dos animais ao fim da viagem. “Como os animais chegam?” Para ela é preciso que tenham área suficiente para que possam se deitar e levantar, sem que fiquem uns sobre os outros. Sugeriu que o Brasil se mire no exemplo de adequação da Austrália e que os executivos saiam de suas cadeiras para investigar a situação.

Quando questionada se a pecuária vai acabar em função da possibilidade de produção de carne de laboratório, ela resumiu: “Preocupem-se em vender o seu produto” e valorizou muito a rusticidade do Nelore e a produção a pasto. Para ela, a  carne de laboratório terá de enfrentar outros desafios como a comprovação de segurança por ser um organismo geneticamente modificado (OGM). Se a questionam sobre veganismo, por exemplo, ela diz que isso é uma opção pessoal e acredita que seja um traço genético. E coloca que sua missão é uma só, um mantra repetido sem cansar, “que os animais tenham a melhor vida que possam viver”. O fato é que não há saia justa para Temple. Até quando questionada se pensou em filhos, ela afirmou que, ao se dedicar ao trabalho e viver  na estrada, escolheu outra vida. Por causa disso, nem um cachorrinho ela tem.

Independentemente do horário, Temple vai ao púlpito com a mesma energia. No caso da conferência destinada aos autistas, tinha acabado de enfrentar dois debates e um congestionamento paulistano das 18 horas, mas falou como se fosse a primeira atividade do dia. Motivou os pais a serem proativos e a não super protegerem seus filhos. Mostrou, com depoimentos e informações científicas, que essas crianças são extremamente inteligentes. “Com certeza Einstein era autista”, disse. Aliás, a palestra sobre o autismo é a única exigência de Temple quando aceita um convite para ir a outro país. No mais, viaja sozinha e confia completamente na organização local.

Avessa ao camarim, foram raros os momentos de reclusão. A estrela fura os bloqueios da organização e vai para o meio das pessoas como um cantor que se joga no final de um show. Segundo ela, “precisa responder a perguntas”. Temple recebeu jornalistas, se reuniu com líderes do agronegócio a portas fechadas, conversou com pesquisadores e produtores rurais e interagiu com grupos de autistas. Além disso, fez refeições com o público, autografou livros, crachás, pôsteres de pesquisa e posou para centenas de fotos. As redes sociais ficaram polvilhadas  de selfies com Temple.

Mas se é autista, como suporta todo esse assédio? No fundo, ela aprendeu a se controlar. Sabe a importância daquele momento para cada pessoa. Sabe que aquela foto será, mais do que uma recordação, um amuleto que os encherá de coragem. Prova é que os brasileiros foram às redes sociais e deram depoimentos emocionantes que, em suma, classificam como único o que viveram naqueles dias de julho. Assumem que foi algo que dividiu sua vida, colocando novo ânimo para mudar o mundo para o bem. É como se  tivessem resgatado a sua origem, o porquê de estarem ligados ao campo,à pecuária e ao boi.

Chacker, o consultor de Maringá citado no começo do texto, voltou para o Paraná convicto de que é um propósito que faz a vida valer a pena. Em sua concepção, Temple leva isso ao extremo. Os pais do menino autista sul-mato-grossense têm hoje a certeza de que seu filho pode mais, muito mais. Temple deixou o Brasil na tarde do dia 19 de julho. Quando estava a caminho do táxi para o aeroporto, ela voltou e deu um abraço nos que a acompanharam pelo Brasil. Quem conhece a dificuldade de contato dos autistas sabe o quanto aquilo foi valioso. Depois, ela seguiu para o Uruguai e para o Canadá para continuar inspirando pessoas.

TAGS: Bem-Estar Animal, Pecuária, Temple Grandin