Plant Talks Entrevista Michel Temer

Na estreia da nova série exclusiva, presidente da República fala do impacto do agro no seu governo


Edição 10 - 06.08.18

Série PLANT TALKS – Episódio 1

Por Luiz Fernando Sá

Com a biblioteca do Palácio da Alvorada como cenário, PLANT PROJECT iniciou um novo projeto com uma oportunidade inédita: pela primeira vez um presidente da República recebeu um veículo especializado em agronegócio para uma entrevista exclusiva. Durante cerca de 30 minutos, Michel Temer, a principal autoridade executiva do País, discorreu sobre seu entusiasmo com o setor que mais lhe trouxe boas notícias em pouco mais de dois anos no poder. Nesse período, o presidente fez questão de participar dos principais eventos agropecuários e obter mais informações sobre o segmento responsável, em grande parte, pela recuperação econômica, ainda que tímida, apresentada no ano passado. Temer não esconde uma certa falta de familiaridade com temas mais técnicos do agronegócio, mas tem compensado esse fato ao ampliar o prestígio político do Ministério da Agricultura. Segundo ele, o perfil “técnico-político” do ministro Blairo Maggi contribuiu para aumentar a representatividade do setor no Planalto e deveria ser mantido na escolha do titular da pasta nos próximos governos (confira abaixo a íntegra da entrevista).

O presidente Michel Temer inaugura a série PLANT TALKS, que trará nos próximos meses a visão dos principais executivos de empresas do agronegócio no Brasil. Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista:

Patrocínio: SAP

Há dois anos, o senhor esteve no Global Agribusiness Fórum (GAF), um dos primeiros eventos depois da sua posse. A previsão era de que ficasse 20 minutos, mas acabou permanecendo lá muito mais do que isso. O sr. diria que, depois que assumiu o governo, mudou sua percepção do agronegócio?

Interessante que você recordou esse fato de dois anos e pouco atrás. Realmente eu fui sinalizado para ficar 20 minutos, mas me interessei tanto pelo tema que, naquela oportunidade, acabei ficando duas horas. E o setor mudou nesse período. Nesses dois anos houve um desenvolvimento extraordinário do agronegócio. Não há momento em que eu viaje pelo mundo e não se fale da agricultura brasileira, do agronegócio e do desenvolvimento da agricultura no nosso País. Então, digamos assim, ele já tinha dois anos atrás uma posição de grande relevo. Aquele fórum revelou muito bem esse fato.

Mas a sua percepção pessoal mudou em relação a isso? O senhor tinha uma percepção menos real do que esse setor significa?

Eu sempre achei que o agronegócio, que a agricultura em geral, exerce um papel fundamental para o Brasil. Quando cheguei aqui ao poder já era assim. Mas eu reconheço que a minha percepção aumentou muito positivamente. Tem o PIB que nós recuperamos.

Você sabe que quando nós chegamos ao poder o PIB era -3,6% e logo no ano seguinte era 1,1% positivo. E para isso colaborou muito o agronegócio. Então a minha visão do agronegócio é, digamos, de brasileiros que trabalham pelo País.

De fato, em 2017, para o 1,1% do crescimento do PIB geral, a contribuição do agronegócio foi de 13%. O sr. acha que os brasileiros percebem essa contribuição, têm essa dimensão real dessa contribuição?

Olha, o governo percebe. Eu acabei de dizer. Não foram poucas as vezes que eu tive oportunidade de, em entrevistas, em conferências e congressos, mencionar a grandeza da agricultura, do agronegócio do nosso País. Portanto, eu acho, por uma certa razão, até interessante aqui a imprensa. Ela retrata a absoluta verdade. Toda vez que eu vejo noticiário a respeito do agronegócio brasileiro é sempre positivo. Então eu tenho a impressão de que isso gera no povo essa percepção da importância do agronegócio. Aliás, uma outra percepção que eu posso dizer é a dos alimentos. Quando o pessoal vai ao supermercado e verifica que o alimento não subiu de preço, isso dá ao povo a sensação de que alguém está fazendo muito pelo País, como é o caso do agronegócio. Realmente eu acho que isso tem acontecido com muita frequência. Eu não tenho dúvida disso.

No seu balanço de dois anos de governo, recentemente, o senhor elencou uma série de contribuições do governo para o setor. Quais seriam os pontos mais importantes?

Acho que um é o avanço tecnológico. O agronegócio em geral utilizou-se muito fortemente dos avanços tecnológicos. Até dou

um exemplo pra você: pouco tempo atrás fui levado pelo Blairo Maggi, nosso ministro da Agricultura, ao Mato Grosso para iniciar a colheita de algodão. Milhares de hectares de algodão, não é? E alguém me mostrou a máquina.

São cenas impressionantes, não é presidente?

Mas aí eu vou dizer a você que eu perguntei ao homem: “Como é que eu vou operar essa máquina? Eu não tenho a menor ideia”. Ele disse: “Aperta esse botãozinho aqui que ela faz tudo, né?” E, de fato, aquela máquina não só colhia o algodão como ensacava o algodão e ia deixando as toneladas pelo terreno. Quando vi aquilo, achei interessante. Nós temos uma tecnologia avançadíssima que é utilizada aqui na agricultura brasileira. E porque essa tecnologia é cada vez mais utilizada? Pelo sucesso dos agricultores que se dedicam ao agronegócio no nosso País. Eu não tenho dúvida disso, não fariam um investimento, não é? Depois eu perguntei ao dono da fazenda: “O senhor tem quantas máquinas?” Ele disse: “Ah, eu tenho 50 máquinas dessas”. E quanto custa isso daí? Custa 700 mil dólares, uma coisa assim. Ele está investindo, confia na agricultura, no agronegócio e no seu investimento.

É um setor que de fato investe muito, independentemente de ações de governo. Sempre foi um setor bastante autônomo nesse sentido…

Embora, se me permite, nós temos financiado bastante a agricultura brasileira, com o Plano Safra…

Exato, mas, de qualquer forma, existe um sentimento dos produtores de que eles não são devidamente reconhecidos, não só pelo governo, mas também pela população. São muito visados por questões ambientais, questões em torno do uso de defensivos químicos. O sr. acha que os políticos, os governantes, poderiam incluir de forma mais enfática o agronegócio em seus planos de governo, nas estratégias de desenvolvimento?

Até incluem, mas acho que não incluem o suficiente. Lá no Congresso Nacional há a chamada bancada ruralista, que cuida desse tema e tem mais de 90 ou 100 parlamentares. Portanto, são parlamentares que estão cuidando desse assunto. Entretanto, há débitos na agropecuária, na agricultura, que nós parcelamos recentemente, que é o caso do Funrural. Acabamos fazendo uma fórmula para parcelar aqueles débitos. Ou seja, o governo está reconhecendo o que a agricultura, o agronegócio e a agropecuária estão fazendo pelo nosso País. A bancada rural, mais do que numericamente expressiva, é muito batalhadora. Eles fazem reuniões semanais e almoços, já fui a muitos, e fazem discursos e mais discursos a favor do agronegócio. Isso chegou lá na ponta. Eu posso dizer a você o seguinte: quando você tem uma inflação baixa como nós temos no País, quando você tem juros diminutos como ocorre no nosso País, as pessoas percebem que alguém está colaborando pra isso. Como nós dissemos logo no início da nossa conversa aqui, isso tudo derivou muito do agronegócio. O PIB mesmo deve muito ao agronegócio. Eu acho que isso chega ao povo.

O IBGE aponta que o agronegócio representa 23% do PIB total brasileiro. Mas na verdade representa muito mais do que isso. O PIB do agronegócio, segundo o IBGE, não inclui a agroindústria. A indústria de máquinas, que o sr. acabou de citar, não está incluída no PIB agrícola, está incluída no industrial. Há quem estime que o agronegócio pode representar até 50% do total.

É verdade, estamos crescendo cada vez mais.

A questão é: o senhor acha que poderia haver uma mudança no sentido de redimensionar as políticas de desenvolvimento e, assim, assumir o Brasil como um país agro e vender essa imagem internacionalmente?

Nós somos hoje um dos maiores exportadores de alimentos do mundo, não é verdade? E reconhecidamente nós operamos com mais de 150 países. O Blairo Maggi tem visitado inúmeras vezes esses países. Eu mesmo quando vou para o exterior, um dos temas colocados ou por mim ou por quem me questiona, tem encontro comigo, é precisamente a agricultura brasileira. Lembro que em uma ocasião eu fui a Londres e o primeiro-ministro tinha promovido um encontro com países que ainda têm muita fome no mundo. O patrocínio era Inglaterra e Brasil. E as pessoas desses outros países, desses países mais carentes, quando pediam um encontro bilateral comigo, mencionavam muito a Embrapa. A Embrapa ganhou uma dimensão internacional não é verdade? Então eu acho que a agricultura hoje é reconhecida. E devo acrescentar um dado curioso, porque muitas vezes nos criticam. Nós temos 60% de terras nativas. A regra dos outros países é de 3%, 4%.

O sr. foi questionado e criticado, em uma viagem a Noruega, sobre esse dado…

É verdade! Sabe que me faltou esse dado? Deveria ter estampado logo: “Lá no Brasil, 60% das terras estão desocupadas”. Nós temos uma capacidade física de ampliar muito mais o nosso parque agrícola. Isto sem violar as regras ambientais, porque em tudo, desde o chamado Código Florestal, o que há é uma sustentabilidade de natureza ambiental que é levada a sério pelos agricultores. Eu vejo isso com muita frequência.

É nesse sentido que me permito insistir na pergunta: não haveria espaço para que se vendesse melhor internacionalmente os atributos positivos da agricultura brasileira? Porque os negativos são, muitas vezes, usados para impor barreiras aos produtos brasileiros.

Sempre há, sempre há. A posição do Brasil é uma posição não protecionista. Você sabe que há certos países que exercem uma atividade, nesse particular na agricultura, mais protecionista na defesa dos interesses dos seu país. Nós, nas várias manifestações que temos tido, nos discursos que fiz na ONU, somos pela abertura absoluta nessa matéria. Inclusive já estou trabalhando para formalizar o acordo entre Mercosul e União Europeia. Esses pontos, inicialmente, foram questionados em outros países. Como nós somos exportadores de muita proteína animal, soja etc., temos condições de dizer: o Brasil está preparado para alimentar o mundo. E nós temos 60% de terras nativas não exploradas. Então você veja as potencialidades do Brasil para fornecer alimento ao mundo.

Esse dado foi levantado pela Embrapa Territorial, que recentemente também fez um estudo das alternativas logísticas de escoamento de safra, apontando quais os caminhos mais eficientes para que o Brasil consiga ser mais competitivo na exportação dos seus bens. Como é que o governo pode usar esses dados para definir investimentos?

Esse ponto nós realmente precisamos melhorar, essa questão logística, né? Especialmente para o escoamento da produção. Nós até criamos um ministério especializado para as parcerias. E estamos investindo muito em toda essa infraestrutura, concessões, privatizações, com vista a melhorar a infraestrutura brasileira. Uma falha aqui no Brasil hoje, eu sei, é a dificuldade do escoamento da produção. Muitas e muitas vezes perde-se um percentual dessa produção, mas é um assunto que nós estamos levando a sério. Desde o começo do governo nós montamos essa estrutura governamental que trabalha nessa matéria. Leva alguns anos? É possível, mas é uma coisa que nós estamos agilizando enormemente. Para escoar a produção é necessário você melhorar ferrovias, rodovias, hidrovias. Isso vai melhorar a visão da agricultura, do agronegócio, no exterior.

“Quando você tem uma inflação baixa como nós temos no país, as pessoas percebem que alguém está colaborando.(…) Isso tudo derivou muito do agronegócio”

O sr. citou as viagens do ministro Blairo Maggi. Os americanos costumam usar o termo “Food Diplomacy”. Eles enxergam que nos próximos 30 anos deve dobrar a produção de alimentos no mundo. E que essa questão vai ter um peso ainda maior nas relações comerciais e na diplomacia no globo como um todo. O governo brasileiro tem reforçado as suas posições nessa área da diplomacia da comida?

Tem reforçado, mas sem usar a diplomacia da alimentação para constranger outros países. O que nós fazemos é mostrar que o País é um celeiro extraordinário de produtos agrícolas e também de proteína animal. Fazemos uma diplomacia para facilitar o trânsito dos nossos produtos em relação a outros países. Essa tem sido a tônica do nosso governo. Aliás, quero dar um dado extraordinário. Outro dia eu fui à Embrapa para comemorar e até depois o Blairo Maggi foi a Paris para receber o selo de país livre de febre aftosa. Durante anos e anos o Brasil enfrentou esse problema da febre, mas esse selo é uma demonstração de como vêm trabalhando o governo e a área da agropecuária no nosso País.

Era uma reivindicação de muitos anos. E fundamental para a indústria da carne, já que hoje o Brasil é o principal exportador de proteína animal.

Essa coisa da carne, né? Você vê que coisa curiosa. Aqui há um exemplo de como o governo age e de como as pessoas recebem bem essa ação governamental. Você se lembra daquele episódio da Carne Fraca? Foi uma coisa, digamos assim, um pouco irresponsável. Mas nós tomamos, imediatamente, no mesmo dia, providências — não só internamente, como estávamos em contato com o exterior –, que fizeram com que a operação fosse fraca. Quando se pretendeu responsabilizar a produção da proteína animal negativamente, a reação foi tão forte, não só do governo como do setor, que imediatamente caiu essa história da operação Carne Fraca. Eu me recordo até de um episódio mais pitoresco. Fiz uma reunião no domingo com todos os embaixadores dos países que importam proteína animal do Brasil. Ao final, convidei todos para comermos carne numa churrascaria. E foram todos. Foi um consumo extraordinário de carne aquele dia.

Até aquele momento a gente costumava dizer que o ministro Blairo era o ministro das boas notícias. Depois disso ele enfrentou algumas crises em função desse tipo de questão.

Mas tem trabalhado muito bem para evitar qualquer tipo de questionamento mais sério, né?

Dos ministros mais recentes da Agricultura, ele parece ter sido o que teve maior peso político dentro do governo como um todo. Outro ressentimento do setor é que muitas vezes o governo tinha ministérios mais fortes em outras áreas e deixava o segmento mais importante da economia brasileira com menos relevância nas discussões, com menos peso político. A manutenção do ministro Blairo no cargo e a decisão dele de não sair para se candidatar teve influência sua? O senhor insistiu para que ele ficasse?

Eu torci e um dia lá ele realmente me telefonou, até muito delicadamente, gentilmente, dizendo: “Acho que não vou me candidatar. Se eu não me candidatar qual é a sua posição? Eu continuo?” Eu disse: “Blairo, eu recebo com muita satisfação a sua decisão”. Nesse particular eu quero dizer que eu realmente acho que inaugurei essa visão mais forte mais sólida da agricultura no ministério. Acho que esse perfil político, não digo exatamente político, digo técnico-político. Porque o Blairo é político, mas é um técnico da área. É um produtor e conhece como poucos o setor. Ou seja, a existência de um ministério conduzido por técnico-político deve pautar a atitude dos próximos governos. O governante aqui no Brasil precisa descentralizar bastante, não pode centralizar todas as ações no seu gabinete. E eu descentralizei isso em todos os ministérios, principalmente na Agricultura. A confiança que nós temos na sua conduta, na condução que ele faz naquele ministério, nos tem dado bons resultados. Você vê que em 2016 tivemos uma produção recorde, em 2017 também e com certeza vamos repetir em 2018…

Duas safras recordes de produção…

Aumentamos duas vezes a produção de grãos sem aumentar a produção de áreas ocupadas. Na questão da proteína animal, nós aumentamos em 50% a produção sem também ampliar áreas ocupadas. Nós alimentamos quase 1 bilhão e meio de pessoas, são mais de 400 produtos de origem vegetal e animal que nós fornecemos ao mundo. Veja a diversidade que nós oferecemos ao mundo por meio da agricultura. Por isso nós temos que incentivá-la cada vez mais, ela é a garantidora do próprio PIB brasileiro, isso nós temos que levar em conta.

Um dos fatos relevantes do seu governo foi a assinatura do RenovaBio. O Brasil também tem uma oportunidade única de liderar o uso global de energias renováveis. Como garantir que, nos próximos governos, o RenovaBio de fato seja implementado?

O Brasil foi o segundo país, depois da China, a assinar o acordo de Paris, que visa melhorar o clima no planeta. O RenovaBio entra justamente nessa concepção. Foi estudado fartamente. Temos diminuído cada vez mais a utilização de combustíveis fósseis, usando energia renovável. Estive recentemente no Nordeste e lá já utilizam muita energia eólica. A tendência é o desenvolvimento na área de energia, mas protegendo o meio ambiente. Acho que em breve tempo o Brasil será exemplo para os demais países, porque você produz energia renovável para o País e não viola o meio ambiente.

Nós viemos de governos que focaram muito a política energética no desenvolvimento nos royalties no petróleo, no pré-sal, que de fato são importantes. O sr. recebeu pressões para que não levasse o RenovaBio adiante?

Você sabe que não, viu? Uma ou outra observação é natural, mas nada que alterasse a conduta normal, porque desde que veio a proposta do RenovaBio eu disse: “Nós vamos levar isso adiante”. Até houve muita pressão para apressar os estudos. Os adeptos foram muito adequados, eles trabalharam muito para que eu pudesse realizar esse dado normativo. Houve pressão até do outro lado, mas não houve pela parte do petróleo. Uma coisa não elimina a outra. Você continuará a explorar a energia do petróleo e seus derivados, mas também vai melhorando essa área da energia renovável. O RenovaBio é um exemplo disso.

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