A luta para salvar as bananas

Fungo letal ameaça lavouras, gera bilhões em prejuízos e acelera uma corrida global da ciência


Edição 10 - 26.08.18

Uma doença ao mesmo tempo traiçoeira e mortífera ameaça as frutas mais consumidas do mundo: as bananas. Chamada de mal-do-panamá, ela é causada pelo fungo Fusarim, também conhecido como TR4, detectado pela primeira vez na África pouco mais de dez anos depois de dizimar milhões de hectares de plantações. Desde então, cientistas do mundo inteiro se debruçaram sobre o problema, mas até agora suas tentativas de conter o avanço do fungo não foram bem-sucedidas – pelo menos no combate em grande escala. Ele resiste a diversos agentes químicos e ludibria os pesquisadores, adaptando-se a variações genéticas das bananas desenvolvidas em laboratório.

Apesar de existirem milhares de tipos de banana, a maior parte da produção mundial é da variedade Cavendish, disseminada em todos os continentes. No Brasil, consome-se o subtipo Dwarf Cavendish, ou simplesmente banana-nanica. Por enquanto, o faminto TR4 não chegou à América Latina, a maior região bananeira do planeta, mas os cientistas garantem que isso é apenas uma questão de tempo.

A Cavendish responde por 99% de todas as bananas comercializadas do mundo, e sua presença global, por uma dessas estranhas ironias, é resultado da ação letal dos antepassados do TR4. Os avós do fungo atual mataram uma variedade diferente e supostamente mais saborosa de bananas, a Gros Michel, que desapareceu do mapa-múndi após um surto da doença nos anos 1960 e 1970. Eles também dizimaram a banana-maçã da paisagem brasileira, varrendo tudo o que encontraram pela frente. Agora teme-se que processo semelhante aniquile a Cavendish.

Cálculos recentes feitos pela FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura) estimam em US$ 5 bilhões os prejuízos anuais causados pelo mal-do-panamá. Pior: o valor é crescente, já comprometendo as exportações de países da África e da Ásia. Na Índia, maior produtor mundial de banana (responde por quase um terço do total), a matança provocada pelo TR4 pode causar sérios danos sobretudo à balança comercial, e afetar até o PIB.

O Brasil é um dos quatro maiores produtores globais da fruta, com cerca de 7 milhões de toneladas anuais. Em 2014, a Cutrale se juntou ao Grupo Safra para comprar a americana Chiquita Brands, a maior produtora de bananas do mundo, em um negócio avaliado à época em US$ 1,3 bilhão. O possível desaparecimento da Cavendish, portanto, tem potencial para causar prejuízos severos à empresa brasileira.

Desde 2014 a Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) alerta sobre a chegada do fungo ao País. Em 2017, o órgão incluiu o TR4 na lista de pragas quarentenárias. Para efeitos práticos, significa que portos e aeroportos devem ser monitorados para impedir a entrada de mudas contaminadas, mas a iniciativa não é garantia de que a doença será barrada.

A boa notícia é que há inúmeras frentes globais de combate ao fungo. Várias empresas de biotecnologia aproveitaram a oportunidade para estudar o problema. A agritech britânica Tropic Biosciences já desenvolveu variedades genéticas mais resistentes e, por essa razão, acabou de receber US$ 10 milhões de investidores.

Na Universidade de Tecnologia de Queensland, em Brisbane, na Austrália, um pesquisador conseguiu transferir os genes de uma banana silvestre resistente a doenças para a Cavendish, mas ainda não se sabe qual será o efeito do processo no longo prazo. Outros cientistas estão realizando trabalhos semelhantes em Israel e no Equador. Em Porto Rico, o Centro de Pesquisa Agrícola Tropical decidiu criar em laboratório variedades selvagens de bananas para descobrir quais resistiriam ao ataque dos fungos. Por enquanto, os resultados são inconclusivos.

O avanço planetário do mal-da-panamá é resultado da ação do próprio homem. Para reduzir custos e aumentar a produtividade, as empresas e os agricultores apostam na monocultura, e é ela que permite que pragas se espalhem para todos os lugares do mundo. A diversidade de lavouras evitaria que um único fungo fosse capaz de dizimar uma espécie inteira, especialmente se ela for suscetível a doenças, como é o caso da Cavendish. Enquanto a ciência não encontrar um antídoto eficaz contra o mortal TR4, as bananas estarão seriamente ameaçadas.

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