Quando o enólogo faz a diferença

Coluna TERROIR - Por Irineu Guarnier Filho


08.08.18

Irineu Guarnier Filho é jornalista especializado em agronegócio, cobrindo este setor há três décadas. Metade deste período foi repórter especial, apresentador e colunista dos veículos do Grupo RBS, no Rio Grande do Sul. É Sommelier Internacional pela Fisar italiana, recebeu o Troféu Vitis, da Associação Brasileira de Enologia (ABE), atua como jurado em concursos internacionais de vinhos e edita o blog Cave Guarnier. Ocupa o cargo de Chefe de Gabinete na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul, prestando consultoria sobre agronegócio

Um grande enólogo, sozinho, não faz um grande vinho, assim como um grande centroavante, solitariamente, não ganha uma Copa do Mundo. Mas que um “craque” desequilibra uma partida, disso ninguém duvida. Vimos isso, há pouco, no mundial de futebol da Rússia. No mundo do vinho, não é diferente. Vemos isso, com frequência, em algumas das melhores vinícolas do mundo. Grandes vinhos geralmente estão associados ao nome de um grande enólogo, ou vinhateiro.

O enólogo francês Pascal Marty, o nome por trás de ícones modernos do Novo Mundo como os vinhos Opus One e Almaviva, é um desses craques que fazem toda a diferença quando o assunto são vinhos ultra-premium. Consultor da vinícola brasileira Peterlongo em sua nova fase, mudou o perfil dos rótulos de alta gama da centenária casa de Garibaldi, na Serra Gaúcha, que voltou à linha de frente dos melhores vinhos brasileiros, acumulando medalhas em quase todos os concursos de que participa.

Engenheiro agrônomo e enólogo, formado pelo Instituto de Enologia de Bordeaux em 1982, Pascal Marty foi winemaker da empresa Baron Philippe de Rothschild S.A. por mais de 14 anos. Na célebre casa francesa, foi eleito para coordenar dois projetos de elaboração de vinhos em parceria com gigantes como Robert Mondavi, dos Estados (Opus One) e Concha y Toro, do Chile (Almaviva), que tornariam seu nome tão festejado no mundo de Baco quanto os de Neymar ou de Cristiano Ronaldo no futebol.  Em 2003, Marty desenvolveu outro projeto que levou à criação do primeiro ícone da vinícola chilena Cousiño Macul, batizado de Lota. Desde seu lançamento, o vinho recebeu notas acima de 93 pontos e elogios da crítica especializada. Não satisfeito com tanto trabalho, o francês ainda é proprietário da Viña Marty, no Chile, onde elabora seus próprios vinhos.

Conheci Marty pessoalmente, há pouco, em Porto Alegre, num evento da Peterlongo, apresentado pelo empresário paulista Luis Carlos Sella, que comanda a vinícola nos últimos quinze anos. À minha saudação, em que mencionei a “revolução” que ele vinha capitaneando na Peterlongo, respondeu com um seco: “Não gosto de revolução. Sou francês”. Mas em seguida mostrou-se atencioso e simpático. Em uma conversa que tivemos recentemente, por e-mail, o enólogo me disse, entre outras afirmações enfáticas, que “Todos os produtores do planeta deveriam fazer um vinho no Chile”. A seguir, um resumo de suas idéias.

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O NASCIMENTO DO ÍCONE ALMAVIVA

“Em 1996, Barón Philippe de Rothschild me pediu para ir ao Chile, com minha família, para dar início ao projeto da Viña Almaviva. Pensava que iria ficar no Chile por uns três ou quatro anos, no máximo. Entretanto, ao chegar lá descobri a natureza, a gente e a cultura sul-americana e entendi rapidamente que este país era o lugar onde eu deveria estar. Mesmo no Chile, continuei trabalhando com a Barón Philippe de Rothschild. Não foi uma ruptura, mas uma importante experiência em um novo país, com o objetivo de fazer um dos melhores vinhos do planeta. Naquela época, com a idade que tinha, não havia melhor cargo com que eu poderia sonhar.”

A PONTE ENTRE O VELHO E O NOVO MUNDOS

“Para as grandes possibilidades de inovação que o Novo Mundo permite, o Velho Mundo trouxe experiência. Experiência não só no nível vinícola ou vitícola, mas também ao nível comercial. Por muitos anos o Novo Mundo se caracterizou por produzir vinhos varietais (de uma única variedade). Enquanto a oferta de vinhos varietais tem sido uma tendência de aumento do consumo internacional, simplificando o vinho para novos consumidores, a mistura de vinhos (assemblage) permite elevar o nível e a oferta. Não há nada que se pareça mais com um Cabernet Sauvignon do que um outro Cabernet Sauvignon. Mas em uma mistura, o vinho tem um nível mais alto de complexidade. A mistura de vinho tem seu próprio perfil. Sua própria alma. É realmente a capacidade que um enólogo tem para fazer uma seleção que fornece substância e diferenciação em uma empresa de vinhos. Antes do Opus One, não havia vinho de mistura (nos EUA). Nem no Chile, antes de Almaviva.”

O PARAÍSO VINÍCOLA CHILENO

“Eu me apaixonei pelo Chile pessoalmente. Não são apenas as belas vistas, mas, adicionalmente, as condições de terroir e produção que estão entre as melhores do planeta. O Chile tem muita variável que permite escolher um vinhedo de acordo com o que você quer fazer. Do oceano à cordilheira, as condições climáticas variam graças à influência da corrente de Humboldt que esfria as costas do Chile e do frio que desce da cordilheira todas as noites para resfriar os vales. O impacto do sol também varia de Sul para Norte. Também as alturas variam entre a borda do mar e a cordilheira. Aliado a tudo isso, você pode adicionar orientações de inclinação e natureza do solo. A multiplicação de todos esses fatores define terroirs muito diferentes uns dos outros e o enólogo pode realmente escolher precisamente o tipo de vinho que ele quer criar. Criação é a palavra chave. Em Bordeaux, por exemplo, você não pode fazer outra coisa senão um Bordeaux, usando as variedades ‘autorizadas’ de acordo com as técnicas culturais também definidas e autorizadas por lei. No Chile, você pode plantar, misturar e experimentar qualquer tipo de vinho ou técnicas. A criação está no máximo. Todos os produtores do planeta deveriam ter um vinhedo no Chile e fazer um vinho aqui. Eles perceberiam o paraíso vinícola que ele representa. E ainda há muito a descobrir.”

O DESAFIO DE VINIFICAR NO BRASIL

“O melhor desafio de produzir vinhos no Brasil é o próprio Brasil. O salto de qualidade que alcançamos com a vinícola Peterlongo em apenas dois anos é bastante considerável. Os resultados técnicos são visíveis, mas, apesar disso, a equipe comercial continua enfrentando os preconceitos dos consumidores brasileiros. Se não vêm de fora, o consumidor local despreza os vinhos produzidos no Brasil. É bastante incomum que um país produtor tenha mais apetite por vinhos importados do que por sua produção doméstica. Os consumidores brasileiros não se orgulham de seus produtores, que trazem a qualidade do vinho brasileiro para um nível mais alto todos os dias. Isso vai mudar. Tem que mudar. Por isso, vamos continuar a elevar as qualidades e a Peterlongo continuará a ser um dos líderes, não só na produção de vinhos espumantes, mas também de vinhos tranquilos.”

O ESTILO DO VINHO BRASILEIRO

“O Brasil tem que encontrar seu estilo (de vinho). Acredito que a criação do vinho, através das misturas (assemblages, blends, cortes), é o que pode caracterizar o Brasil. Se um dia o vinho brasileiro estiver associado ao conceito de vinhos mistos ficarei muito feliz e orgulhoso por ter participado como um grão de areia em seu grande futuro.”