Somos educados para a sustentabilidade?

Coluna AGROAMBIENTAL - Em parceria com o GTPS


20.08.18

Beatriz Domeniconi é corrdenadora executiva do o Grupo de Trabalho da Pecuária Sustentável (GTPS), primeira associação mundial sobre práticas sustentáveis na cadeia da carne bovina. Formado por representantes de diferentes segmentos que integram a cadeia de valor da pecuária bovina no Brasil, tem como missão promover o desenvolvimento da pecuária sustentável por meio da articulação da cadeia, melhoria contínua e disseminação de informação.

Por Beatriz Domeniconi

É até clichê dizer que o desenvolvimento das sociedades deve estar fundamentando em uma boa educação, não é? Esta é a base de todo e qualquer desenvolvimento, seja ele social, econômico, tecnológico, de saúde pública ou de conservação ambiental. Não seria diferente para o desenvolvimento sustentável. Mas, mesmo onde há sistemas educacionais estruturados, estamos sendo educados para a sustentabilidade?

Ouvimos falar de sustentabilidade associada a uma série de atributos ambientais, ecológicos, recicláveis, e em acordos internacionais. Acompanhamos o tema também, em mídias diversas, no entanto, raramente encontramos o termo em cartilhas, livros e aulas dentro das escolas e universidades. Não aprendemos o que de fato a sustentabilidade significa.

Imagine uma situação hipotética na qual uma campanha esteticamente atrativa passa a ser compartilhada massivamente em redes sociais com os dizeres de que ‘quem descobriu o Brasil não foram os portugueses, nem mesmo europeus, mas sim os chineses’. Fontes aparentemente idôneas são mencionadas como evidências e algumas celebridades falam em vídeos curtos e com linguagem bastante simplificada que, por anos, a população brasileira foi convenientemente enganada pelos interesses imperialistas europeus.

É possível que essa campanha faça sucesso? Sim. Mas, ela passaria ilesa pelo crivo de qualquer pessoa com nível básico de educação? Provavelmente, não. O ponto não é se a campanha vai existir ou não, mas sim a atenção e a credibilidade que as pessoas dão para aquilo. O exemplo dado pode parecer extremo, mas ele só nos parece absurdo pois temos uma “bagagem” de informações que nos permitem ter senso crítico sobre o que lemos e que, no mínimo, nos faz desconfiar das fontes ou das informações.

Com assuntos relacionados à sustentabilidade esse senso crítico não está desenvolvido. Infelizmente as pessoas não tem um conceito claro e objetivo sobre o que é ou não sustentável. Definem o conceito de sustentabilidade com suposições e associações que fazem no dia-a-dia, por meio de informações que recebem de forma passiva através de diferentes veículos.

Porém, sustentabilidade tem uma definição e não a opinião de alguém. Mesmo sendo complexa não deve ser tratada como subjetiva. Pelo contrário. É um conceito que deveríamos aprender nas cadeiras das escolas, ao longo da nossa formação básica e profissional, entendendo todas as formas de aplicá-lo em diferentes áreas de atuação.

É preciso entender que sustentável é um adjetivo que pode, sim, ser aplicado a qualquer coisa. A qualquer sistema. Contanto que o conceito seja utilizado de forma integral e não considerando apenas critérios específicos. ALGO é sustentável se for possível ser feito, produzido, conduzido ao longo do tempo. Para isso é preciso que todos os recursos necessários sejam reconhecidos e bem geridos. Além disso, é importante considerar que para ser sustentável sua produção deve conter pelo menos três tipos de recursos: financeiros, humanos e naturais, em pelo menos três áreas: economia, sociedade e meio ambiente.

Trazendo essa definição para o setor agropecuário notamos que, não diferente dos demais setores, os profissionais não estão sendo preparados para aplicar o conceito de sustentabilidade. Não que eles não conheçam as técnicas necessárias para isso, pelo contrário, passam os cinco anos da graduação aprendendo todas as técnicas de produção em diferentes ambientes.

No entanto, o termo “sustentabilidade” somente é falado quando relacionado a florestas e à conservação de recursos naturais. Os profissionais que querem trabalhar com ‘produção’ ou ‘economia’ não se definem como profissionais de ‘sustentabilidade’, quando na verdade, o conceito deveria ser entendido como a aplicação correta e responsável de todas as boas práticas aprendidas ao longo do curso.

Sustentabilidade não se define por um ou outro critério. Empresas e setores ainda estão falhando na aplicação desse conceito por lidarem com ele de forma equivocada. Não é um tema a ser tratado por um departamento específico dentro das empresas, mas sim de uma cultura a ser adotada.

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