Bob Dylan bate à porta do mercado de bebidas

O compositor americano engarrafa seu sucesso Heaven’s Door em três uísques históricos

“Quem mal lê, mal ouve, mal fala, mal vê”

Monteiro Lobato


Edição 9 - 01.06.18

Por Pedro Romanos

Em suas muitas viagens pelo coração dos Estados Unidos, Bob Dylan capturou a alma dos americanos e a transformou em arte, poesias e canções que o tornaram lendário no universo musical e que, no ano passado, lhe renderam o prêmio Nobel de Literatura. Homem enigmático, de múltiplas facetas, enveredou com sucesso também pelas artes plásticas, produzindo esculturas metálicas com peças recolhidas em antigas fazendas e ferros-velhos. Com engrenagens, eixos e rodas de tratores, armas de fogo, correntes e até utensílios de cozinha e brinquedos, ele construiu em um ateliê em Los Angeles grandes portões de ferro, que foram expostos em sofisticadas galerias ao redor do mundo. Aficionado do nostálgico ambiente rural, as obras remetem ao cenário do campo. São enxadas, rodas de moer milho, enormes porteiras, celas de cavalo, entre outros.

Desde abril passado, seus fãs podem cruzar esses portões para conhecer uma nova faceta criativa e empreendedora do artista. Uma versão gráfica de suas obras está estampada nas garrafas do Heaven’s Door Whiskey, a tradução etílica da poesia de Dylan. A aventura do compositor pelo mercado dos destilados começou há três anos, em silêncio, como é de seu estilo. Ele pediu o registro de seu nome como uma marca de uísque nos Estados Unidos. O movimento chamou a atenção de Marc Bushala, empreendedor do setor de bebidas que havia ficado famoso pela venda do uísque Angel’s Envy por US$ 150 milhões à Bacardi. “A partir de então, fiquei obcecado com a ideia do que um uísque de Dylan poderia ser”, contou Bushala ao The New York Times.

Da obsessão à ação foi um gole. O empreendedor foi atrás do artista. Teve de driblar os agentes de Dylan para conseguir um contato com ele por telefone e propor uma parceria. “Foi assustador”, relembra. Afinal, Bob Dylan também é reconhecido por ser avesso à exploração comercial de seu nome.

O resultado dessa conversa chegou às prateleiras das lojas de bebidas dos Estados Unidos: três uísques no estilo americano — um bourbon de sete anos, outro com duplo envelhecimento em barricas e um uísque de centeio, envelhecido em barris de carvalho da cordilheira dos Vosges, na França. O batismo da série veio da canção Heaven’s Door, obra-prima de Dylan.

Famoso por fugir do estereótipo das músicas comerciais, Bob Dylan iniciou sua empreitada da mesma forma que compunha suas canções: contando histórias e eternizando momentos. “Nós queríamos criar uma coleção do melhor uísque americano que, à sua maneira, contasse uma história”, disse Dylan em um dos poucos pronunciamentos sobre o negócio. “Viajei durante décadas e pude provar alguns dos melhores sabores que o mundo do uísque oferece. Estamos produzindo um grande uísque.”

Dylan embarca no universo dos destilados artesanais em um ótimo momento do mercado. Há cerca de 20 mil marcas à venda nos Estados Unidos, segundo a Nielsen. Apenas o número de novas marcas de uísque aumentou 27% desde 2013. De acordo com o Distilled Spirits Council (Conselho de Destilados norte-americano, em tradução livre), as vendas de bebidas especiais, produzidas em menor escala, cresceu 52% ao longo dos últimos cinco anos, atingindo em 2017 o patamar de US$ 3,4 bilhões. Comercializadas por valores que variam entre US$ 50 e US$ 80, as composições de Dylan se enquadram no topo da prateleira, com o rótulo de qualidade Super Premium. É justamente esse o segmento com maior ascensão: estima-se, para 2018, um crescimento de 148%.

Bushala afirma ter levantado US$ 35 milhões com investidores para colocar o empreendimento de pé e as garrafas no mercado. O papel de Dylan, porém, não se limitou ao licenciamento do nome. Parte importante do processo, foi o compositor que deu todo o tom “criativo” na composição de aromas e sabores que diferenciam a marca Heaven’s Door. O artista de Minnesota passou boa parte de sua vida explorando ambientes rurais e velhas cidades dos clássicos bang-bang americanos. E várias de suas letras chegavam a descrever processos de destilação caseira. Nos versos do clássico Copper Kettle, de 1970, por exemplo, ele dá a receita: “Pegue uma tina de cobre, pegue uma serpentina de cobre/encha com o destilado de milho, e você nunca mais sofrerá”.Bushala afirma ter levantado US$ 35 milhões com investidores para colocar o empreendimento de pé e as garrafas no mercado.

O papel de Dylan, porém, não se limitou ao licenciamento do nome. Parte importante do processo, foi o compositor que deu todo o tom “criativo” na composição de aromas e sabores que diferenciam a marca Heaven’s Door. O artista de Minnesota passou boa parte de sua vida explorando ambientes rurais e velhas cidades dos clássicos bang-bang americanos. E várias de suas letras chegavam a descrever processos de destilação caseira. Nos versos do clássico Copper Kettle, de 1970, por exemplo, ele dá a receita: “Pegue uma tina de cobre, pegue uma serpentina de cobre/encha com o destilado de milho, e você nunca mais sofrerá”.

Quem sofreu para traduzir os desejos e o paladar nem sempre explícitos de Dylan foram o próprio Bushala e Ryan Perry, responsável pela parte operacional da Heaven’s Door. Nos raros encontros com o sócio, Bushala contou ao Times, muitas vezes Dylan fazia comentários enigmáticos e por vezes se expressava apenas com olhares. “Não sabíamos ao certo se eram de reprovação ou de aprovação.” Em outros momentos, vinha poesia, como ocorreu em uma degustação do uísque com duplo envelhecimento. Dylan queria que a bebida tivesse mais “estrutura de madeira”. Perry e Bushala queriam uma definição mais clara do que isso significava. Meses depois, em outra prova, Dylan mostrou que estavam no caminho certo com um comentário. Disse ter percebido “aquele doce e mofado aroma de celeiro”.

A Heaven’s Door não destilará o próprio uísque. A empresa vai adquiri-los, em sua forma básica, de diversos produtores, para depois fazer sua alquimia e produzir os blends compostos por Dylan. Para manter a tradição e o valor do negócio, todos os destilados serão encomendados dos estados do Tennessee e Kentucky, terra de grandes nomes do ramo como Jack Daniel’s e George Dickel. Os primeiros lotes de Heaven’s Door foram desenvolvidos com Jordan Via, que já trabalhou na destilaria de Breckenridge.

A composição dos uísques americanos possui características únicas: eles devem ser feitos de uma mistura de grãos que possua no mínimo 51% de milho, destilado em até 80% de álcool e armazenado em barris virgens de carvalho. A partir desse processo é que os estados se separam para suas produções únicas. O bourbon de Kentucky segue a linha clássica e não passa por nenhum método extra. Já o clássico Tennessee, antes de ser engarrafado, passa por uma filtragem em uma espécie de melaço, deixando a bebida mais adocicada.

Símbolos da cultura norte-americana, como o próprio Dylan, os uísques feitos à base de milho são quase uma religião local. Não por acaso, nos planos da Heaven’s Door está a construção de uma destilaria, marcada para 2019, em uma pequena igreja antiga, com cerca de 140 anos, em Nashville, a capital da música nos Estados Unidos. A terra natal de Nashville Skyline, considerado por muitos de seus fãs como o maior álbum de Dylan, promete ser “um pedaço do céu” para os apreciadores de bons uísques.

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Drink Stars

Outros artistas famosos que estão lucrando no mercado de bebidas

George Clooney
Embalou no ramo das tequilas com a marca Casamigos, vendida por US$ 1 bilhão de dólares à empresa Diageo

Jay Z
O rapper investiu na compra do champanhe Armand de Brignac e comercializa garrafas luxuosas de R$ 1,6 a R$ 2,6 mil.

Justin Timberlake
Ator e cantor, investiu na pequena startup de bebidas saudáveis Bai Brands.

 

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