Cacau, o fruto amado da Bahia

Literatura de Jorge Amado explica por que a cultura nunca deixou o sul do Estado


Edição 9 - 15.06.18

Por Ana Weiss/Fotos: Tarciso Albuquerque

O  cacau foi dado como morto para a Bahia no fim dos anos 1980. Uma combinação trágica entre concorrência africana, secas inesperadas e uma praga apelidada de vassoura-de-bruxa – fungo que ainda hoje fazendeiros da região juram ter sido espalhado criminosamente por representantes dos rivais comerciais do outro lado do Atlântico — encerrou um dos ciclos agrários mais importantes e influentes da história baiana. Hoje, o fruto local renasce para o mundo, as exportações voltam a crescer com produto de qualidade superior, causando incômodo aos atuais grandes fornecedores da indústria chocolateira do planeta. Ressurge com brilho na mesma região onde floresceu na virada do século passado, dando início ao chamado ciclo cacaueiro. Uma história que, apesar da interrupção dramática na economia, se manteve viva e no imaginário das nações leitoras, graças aos livros de Jorge Amado.

E não apenas aos livros, os mais vendidos no mundo de autoria brasileira depois do fenômeno Paulo Coelho. As histórias nascidas entre pés de cacau foram (e continuam sendo) recontadas pelo cinema, pelo teatro, pela televisão e por gravações de grandes nomes da música mundo afora. Foram traduzidas em 49 idiomas e lidas em pelo menos 55 nações. As fazendas cacaueiras, por causa do testemunho do autor, são cenário da ficção brasileira mais adaptada do planeta — talvez uma razão a mais para o olho gordo atual da concorrência contemporânea, que havia dado a Bahia como carta fora do baralho na disputa comercial pela exportação.

Não se trata apenas de uma estatística impressionante a quantidade de público que conheceu a vida de trabalhadores e fazendeiros do cacau pelos olhos do autor de Gabriela, Cravo e Canela. É também a elevação da corrida selvagem pelo fruto dourado em arte de primeira grandeza. Quase todos os intelectuais da esquerda mundial do século passado liam o escritor baiano. “O etnógrafo francês Pierre Verger teve vontade de conhecer a Bahia quando leu Jorge Amado em Paris, pouco antes da Segunda Guerra Mundial”, conta a jornalista Joselia Aguiar, atual curadora da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), que escreve a biografia de Amado, a ser lançada este ano, pela editora Três Estrelas. São leitores da sua obra escritores contemporâneos longínquos, como o premiado britânico Salman Rushdie e o ex-presidente José Sarney. Antonio Candido, o maior crítico literário que o Brasil já teve, era seu fã.

Jorge Amado

Filho de sergipanos atraídos pela corrida do cacau, Jorge Amado nasceu em 1912 na região de Itabuna, sul da Bahia, momento de acelerado crescimento da exploração cacaueira. “Alguns verbetes em dicionários e enciclopédias, certas notícias bibliográficas, fazem-me nascido em Pirangi. Em verdade sucedeu o contrário: vi Pirangi nascer e crescer. Quando passei por lá pela primeira vez, encarapitado no cavalete da sela na montaria de meu pai, existiam apenas três casas isoladas. Pouco tempo depois já era uma rua comprida, onde casas de residência se misturavam aos armazéns para a estocagem de cacau”, lembra o novelista em suas memórias. Pirangi chegou a vender a tonelada do cacau por US$ 4 mil, que depois da praga passou a custar US$ 800.

O jovem descendente de imigrantes que escapavam da seca viu e fez parte do alvorecer de um movimento econômico sem pares. Historiadores explicam que, diferentemente de outras economias agrárias do período, o cacau não conheceu a mão de obra escrava. Tratava-se, nas palavras de Angelina Garcez, historiadora da Universidade Federal da Bahia (UFBA), de “uma cultura pobre, de agricultura familiar em pequenas glebas”.

Capa do livro São Jorge dos Ilhéus

Os personagens dessas glebas estão eternizados em romances como Cacau, Terras do Sem-Fim, São Jorge dos Ilhéus, Gabriela, Cravo e Canela, Tocaia Grande e A Descoberta da América pelos Turcos. Também estão lá, com cores críticas, os coronéis que enriqueceram muito e muito rapidamente cercando-se de uma vida que tentava imitar o que eles, retirantes sem escolarização alguma, imaginavam o que era a vida de um magnata da belle époque, com a parca informação que lhe chegava dos filhos enviados à Europa para estudar. “Os romances podem contribuir para nos fazer compreender esse quadro histórico, o da formação da ‘civilização do cacau’, como ele dizia”, observa Joselia Aguiar, também historiadora.

É nos livros de memórias que se pode entender como a formação do escritor socialista torna-se inseparável dessa planta que encontrou na Bahia seu apogeu. São eles Navegação de Cabotagem e O Menino Grapiúna. “Grapiúna é a palavra usada para definir quem nasce naquela região do sul da Bahia, a região cacaueira”, explica a jornalista. “Quando criança, Jorge assistiu à luta pela posse da terra, o tempo dos ‘grandes barulhos’, como se referia às disputas entre coronéis e seus jagunços. Ao mesmo tempo, acompanhou a vida de trabalhadores das fazendas, prostitutas, mascates, moradores de cidades como Ilhéus e Itabuna. Também havia uma enxurrada de forasteiros que passavam, e marinheiros estrangeiros vindos nos navios atracados nos portos.

A região progredia, mas os costumes continuavam os mesmos. Estava, por exemplo, ainda criança, no tribunal de júri, quando um coronel foi julgado por matar a mulher, episódio narrado em Gabriela, Cravo e Canela. Inspirou-se em cenas e episódios reais, que reimaginou e modificou na sua ficção”, complementa.

Em todos os testemunhos, tanto os reinventados na ficção quanto os relatados nas memórias, destacam as desigualdades extremas da civilização cacaueira, a loucura e matança gerada pela competição pelo plantio, mas também a formação de uma cultura rural única, formada por migrações internas, que manteve os costumes caboclos em meio a fortunas familiares, em uma organização nunca vista antes: ganhava mais quem produzia mais. “Ali conheci os mais valentes entre os valentes”, escreveu Jorge Amado.

Ilhéus, vista do mar: cenário dos romances de Amado, a cidade renasce com a cacauicultura

O antropólogo Pierre Clastres escreveu: “Para cometer um etnocídio basta matar a alma de uma comunidade, não necessariamente todos os seus membros”. Para que a vassoura-de-bruxa tivesse acabado de vez com a cultura cacaueira no Brasil, precisaria ter destruído não só todas as árvores como também a memória do sul baiano e a literatura de Jorge Amado, para a qual ainda não há concorrência.

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