O desafio do Matopiba

Produtores da região trabalham para superar as dificuldades da primeira grande seca em 40 anos

“Quem mal lê, mal ouve, mal fala, mal vê”

Monteiro Lobato


Edição 2 - 03.05.18

Por Catarina Guedes | Fotos Rui Rezende

O Brasil tem 26 estados mais o Distrito Federal. Isso todo brasileiro aprende na infância há muito tempo. O que só há poucas décadas se conhece é o território de 73 milhões de hectares, 337 municípios e 31 microrregiões formado pelas áreas de cerrado do Maranhão, Tocantins, Piauí e da Bahia, o Matopiba, fronteira agrícola – quase um 27° estado – que começou a ser aberta em meados dos anos 1980. De colonização mais recente que a do cerrado de Goiás e Mato Grosso, tornou-se à época das primeiras ocupações uma alternativa mais acessível para muitos desbravadores por causa dos preços menores das terras, em função da grande oferta e da infraestrutura então incipiente. Logo a região se estabeleceu como um dos maiores polos produtores de grãos do País e, desde 2003/04, ocupa o ranking de segundo maior produtor nacional de algodão, provedor de mais de 30% da produção brasileira da pluma.

Vista aérea de colheita de milho no Sul do Maranhão: revés climático afetou escalada de crescimento que durava 30 anos

Nos últimos quatro anos, contudo, um revés climático, inédito em quase 40 anos, freou a escalada de crescimento do Matopiba. A situação foi agravada pelas crises econômica e política pelas quais passa o País, que contribuíram para reduzir a oferta de crédito e afastar investidores. Para enfrentar as dificuldades, os agricultores reviram a matriz produtiva, diminuindo as áreas plantadas com culturas de custo mais alto de implantação, como o algodão, e aumentando outras mais baratas e de boa rentabilidade, como a soja. A estratégia incluiu segurar investimentos em novas áreas, mas não deixar de plantar, mantendo a soma das lavouras em torno de 5,7 milhões de hectares. De olho no céu e torcendo pela influência de la niña, os agricultores já semearam, ou se preparam para plantar, a soja e o algodão para 2016/17.

De acordo com o chefe do 4º Distrito de Meteorologia do Instituto Nacional de Meteorologia (INMET), Itajacy Diniz Garrido, o verão de 2017 será marcado pela atuação fraca do fenômeno oceânico-atmosférico la niña. “De modo geral, a ocorrência deste fenômeno, com fraca intensidade, é favorável às chuvas na região Nordeste e desfavorável ao Sul”, afirma. O trimestre de janeiro a março se anuncia como de normalidade em volume de chuvas para o Matopiba, mas a irregularidade na distribuição não pode ser descartada. “A recomendação é a gestão minuciosa dos recursos hídricos”, prescreve.

CHOVER, CHOVEU

O problema em 2016 foi justamente a distribuição irregular das chuvas, com excesso e escassez em estágios cruciais do desenvolvimento das plantas. Com propriedades no Tocantins, na Bahia e no Piauí, a agricultora Isabel da Cunha conta que a fazenda do Piauí foi a que registrou os maiores volumes de chuva e as menores produtividades. “Quando precisava, faltou”, diz, referindo-se, principalmente, ao mês de janeiro. Para manter a mesma área plantada das últimas safras, Isabel da Cunha diminuiu em 42% as lavouras de algodão, incrementando com esse mesmo percentual as de soja. Em média, o custo de implantação dessas culturas é de R$ 8 mil e R$ 3 mil por hectare, respectivamente. “Ninguém, em lugar nenhum, está livre de uma catástrofe natural ou de uma condição desfavorável de clima em uma atividade a céu aberto como é a agricultura. Por isso, temos de ter estratégia. Não reduzimos em nada os custos com tecnologia e manejo, mas paramos de investir em aquisição de novas áreas até essa crise passar”, revela Isabel, que chegou ao cerrado da Bahia em 1983, aos 20 anos.

Aplicação de defensivo agrícola em plantação de algodão: região é responsável por mais de 30% da produção nacional

Marcelino Flores é produtor rural e, junto com o irmão Olmiro, também é concessionário John Deere no Matopiba. Sua revenda, a Agrosul, tem cinco lojas na Bahia, com sede em Luís Eduardo Magalhães, e uma em Bom Jesus do Piauí. Na safra 2016/17, Flores plantou 21 mil hectares de soja, 4 mil de milho e 2 mil de algodão. “Começamos com um ótimo estande nas três culturas e a expectativa é de safra cheia. Não nego que atravessamos um período muito difícil, mas os riscos fazem parte da nossa atividade. Se somarmos os 32 anos de Bahia, veremos que foram altamente positivos, com grandes colheitas e ótimos preços”, afirma. Quanto ao comércio, sua análise é semelhante. “É um negócio diretamente ligado à agricultura, por isso foi de certa forma impactado. Mas nós somos todos programados para anos bons e anos não tão bons, e estamos preparados para isso. Se fosse fácil, todo mundo estaria na agricultura”, conclui.

Muito confiável

A produtora Isabel da Cunha

Ter relevo, vegetação e algumas características socioeconômicas semelhantes, como o fato de haver sido colonizado majoritariamente por sulistas, nem de longe faz do Matopiba uma coisa só. Dentro de cada sílaba do acrônimo, a diversidade já é grande o suficiente para não permitir generalizações. No Maranhão, por exemplo, se pode delimitar pelo menos três áreas de perfis distintos, segundo o produtor Idone Luiz Grolli. No extremo Sul, onde as altitudes variam de 500 a 600 metros, o plantio começa por volta do dia 15 de outubro. Cerca de 50% das lavouras estão nessa microrregião, que tem janela de plantio suficiente para fazer duas safras por ano. Em Balsas e entorno, situada a cerca de 350 metros de altitude, o plantio começa em meados de novembro, e só se faz uma safra ao ano. A microrregião responde por, aproximadamente, 35% da área plantada do cerrado maranhense. Já em Chapadinha, a 100 metros de altitude, o plantio da única safra anual, equivalente a 15% do total produzido no estado, se dá em torno de 15 de janeiro. O Maranhão tem em média 750 mil hectares de soja e 10 mil hectares de algodão, cultivados pela SLC Agrícola.

“Cada lugar tem uma característica específica e é preciso saber lidar com isso. Não tenho dúvida alguma de que, desde 1975, a seca de 2016 foi a pior de todas. Mas uma seca em 40 anos só quer dizer que o local é muito confiável. Estou muito satisfeito aqui e progredi como agricultor nesse período. O produtor rural está preparado para enfrentar esse tipo de situação, ao contrário de especuladores”, ressalta. Grolli se define como um desbravador por natureza. “É a minha quarta fronteira agrícola”, diz o gaúcho, que, após passar pelo Oeste de Santa Catarina, Oeste da Bahia e Maranhão, está plantando também em Macapá (AP). No Maranhão, Idone Grolli, que é sementeiro, cultiva 5,2 mil hectares, parte deles irrigados. Em Macapá, 1,15 mil.

Idone Grolli

O sofrimento afetou a muitos nas últimas safras, mas produtores como João Carlos Jacobsen Rodrigues, um dos precursores da cotonicultura no Oeste da Bahia, reafirmam a fé no Matopiba. “Todo mundo aqui começou do zero. Essa terra deu a milhões de pessoas um nível patrimonial fantástico. A agricultura mudou a história do lugar, trouxe um contingente gigantesco de imigrantes e transformou o cerrado numa grande potência”, diz. “Agora o Matopiba não pode ser considerado ruim por causa de um ciclo. Mas é fato que o período difícil deixa lições importantes para o produtor, que vai enfrentar o problema reduzindo área e buscando aumentar a capitalização”, argumenta Jacobsen, que acaba de concluir o segundo mandato como presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa). Segundo o produtor, só nesta safra 2016/17, a atividade deve aportar em torno de R$ 2,2 bilhões na Bahia. “Isso não é desprezível. O problema não foi só a seca. Foi uma conjuntura econômica, política e climática”, conclui.
A Associação de Agricultores e Irrigantes da Bahia (Aiba) já concluiu a primeira estimativa para a safra 2016/17. Em uma área total de 2,36 milhões de hectares, 4% a mais que em 2015/16, o estado deverá colher, aproximadamente, 8 milhões de toneladas de grãos. A soja ocupa 1,6 milhão de hectares, contra 1,52 milhão na safra passada. O algodão, 192 mil hectares, 15% a menos que no ciclo anterior. O milho, após dois anos de recuo de área, cresceu 33% em relação a 2015/16, ficando em 180 mil hectares.

Mercado vendedor

João Jacobsen

La niña está chegando tímida, mas promissora. A expectativa pelas chuvas que o fenômeno costuma garantir às lavouras nordestinas não se restringe aos agricultores e comerciantes ligados ao agro, mas também aos prestadores de serviços. Corretores de imóveis rurais são alguns dos mais ansiosos. “Se a safra 2016/17 corresponder à expectativa, começa a retomada de crescimento. Com mais uma safra boa, em 2018 voltaremos aos patamares normais”, pondera o corretor de imóveis Marcelo Thomas, da Fragatta Consulting, na Bahia, que negocia terras em todo o Matopiba. Thomas explica que os preços do hectare subiram muito alguns anos atrás, sobretudo por volta de 2010 e 2011. “Hoje o mercado não é comprador. A primeira atitude dos produtores em situações de crise é parar de adquirir terras. Quem nunca comprava e guardou dinheiro agora está encontrando algumas boas oportunidades, mas isso é raro. As terras, de um modo geral, não baixaram de preço no Matopiba, salvo naqueles casos de um ou outro agricultor que quebrou, o que acontece todo ano em qualquer região”, afirma.

Hectares no Matopiba são indexados em sacas de soja e a valorização varia de acordo, principalmente, com os índices pluviométricos e a disponibilidade maior ou menor de infraestrutura, como acesso a estradas e energia. “Uma terra boa para plantio, com regime pluviométrico de 1,2 mil milímetros por ciclo, no cerrado do Piauí pode custar de 50 sacas a 600 sacas de soja, a depender da infraestrutura. É complicado falar em valor médio”, diz o corretor.

Reportagem publicada na edição #02 de Plant (jan/fev 2017)

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