A mulher do lixo

Coluna PODER FEMININO - Por Viviane Taguchi


31.05.18

Viviane Taguchi é jornalista especializada em agronegócio, caipira com orgulho, especialista em instalações de chuveiros, viaja pelo mundo sozinha, e se sente desafiada a cada “você não pode fazer isso”.

Se tem uma coisa que chateia aqui em Malta é o lixo e como lidamos com ele no dia-a-dia. Primeiro, que tem dia certo para tudo: segunda, quinta e sábado é o dia do saco preto; terça, quarta e sexta, do saco verde; e, pelo menos uma vez por mês, tem o dia do saco branco, com vidro. Das duas, uma: ou você separa o lixo direitinho (se colocar saco de cor errada no dia errado, toma multa), ou coloca tudo no saco preto e deixa a responsabilidade para o governo. É o que, infelizmente, a maioria das pessoas faz. E mais, muita gente coloca o lixo na rua na noite anterior à coleta e aí, os gatos que habitam a ilha (eles são milhares e quase sagrados) querem comer tudo o que tem dentro. Você acorda, sai de casa, e precisa driblar a caca toda.

A população maltesa, de 436 mil pessoas, colabora bem mais que os 1 milhão e poucos de turistas que passam por aqui. Não à toa, as cidades mais “descoladas” também são bem mais sujinhas que as outras. Conversando sobre o lixo com uma moça húngara que adotou Malta como sua casa, eu soube que a coisa melhorou muito, mas muito mesmo, nos últimos anos. E tudo porque uma outra moça, chamada Camilla Applegren, começou um movimento ‘cata-lixo’, o Malta Clean Up, que influenciou até as maneiras dos produtores rurais da ilha. Lá fui eu, atrás da Camilla.

A Camilla é uma sueca que mudou para Malta em 2013. Ela ama natureza e, por isso, escolheu como profissão ser instrutora de mergulho na ilha. E quando não está embaixo da água, está catando lixo. Sempre acompanhada pelos quatro filhos, começou a mostrar para as pessoas a quantidade de sujeira, animais mortos ou intoxicados que retirava do fundo do mar e das pedras, inclusive gatos. Viu gente bem intencionada chegar, e juntos, realizaram 30 mutirões de limpeza em um ano. Mais de 100 voluntários, a maioria crianças e adolescentes. Hoje já são quase 200.

Só que também não demorou muito para que os governantes ficassem sabendo o que eles estavam fazendo. “Eu achei que eles poderiam não gostar de ter uma estrangeira querendo mudar os hábitos da ilha, mas pelo contrário, recebi incentivo e o governo agora nos ajuda fornecendo materiais como luvas, sacos e divulgação do trabalho”, contou. “É inacreditável, mas hoje eu tenho no meu telefone contato de prefeitos e ministros e troco mensagens com eles o tempo todo sobre o lixo e como aumentar a iniciativa”.

No mês passado, Camilla reuniu 43 mergulhadores e mais de 2000 voluntários – incluindo um parlamentar, Godfrey Farrugia, e a primeira-ministra de Gozo (ilha-irmã de Malta), Justyne Caruana, para mais um mutirão, em 77 diferentes locais. “Os animais estão morrendo com a ingestão de plástico”, lamenta a ativista, que calcula que coleta, todos os meses, cerca de 1500 tampas de plástico das praias. Os itens mais comuns são sacolas de plástico, latas de alumínio, tampinhas e bonés.

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As crianças, em especial, são a maior parte do grupo. Camilla diz que foram os filhos que começaram a chamar os amigos e estes, mais e mais amigos. “São eles os voluntários mais animados”, comemora. Em contrapartida, ela aproveitou a aproximação com os políticos e sugeriu que a alimentação nas escolas fosse mais rica em legumes e frutas locais. Então, leite e frutas produzidos em Malta – para a alegria dos produtores rurais, que normalmente vendem sua produção em caminhões estacionados nas ruas ou em pequenos mercadinhos – começaram a ser distribuídos. “Mas eles ligaram e disseram que as crianças rejeitaram a comida por um motivo especial…o leite tinha canudinho de plástico e as frutas vinham em embalagens plástica. As crianças disseram que não iam consumir os produtos daquela forma e os agricultores foram obrigados a mudar todas as embalagens para serem fornecedores das escolas públicas”.

O próximo mutirão de limpeza que o Malta Clean Up vai realizar é no final do mês, embora todos os dias, as crianças que participam do projeto saiam por aí catando lixo, enquanto voltam da escola. De bicicleta, claro. Da nossa parte – a casa que divido com outros extensionistas – recolhemos caixas de papelão de um lixo alheio, que agora serão usadas como lata de lixo (e compramos um saco de ração de gato, sabor salmão!!!). Na maioria das vezes, ter poder é apenas fazer uma coisa simples assim…

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