O abate kosher e o passivo de bem-estar animal

Coluna UNIVERSO KOSHER - Por Felipe Kleiman


10.05.18

Felipe Kleiman é consultor especializado em projetos de abate Kosher e posicionamento de mercado. www.abatekosher.com.br

As mudanças na cultura de consumo que a sociedade global vivencia alcançam os mais variados segmentos de mercado da produção animal.

No último ano temos falado bastante sobre abate Kosher e bem-estar animal.  Por diversas razões, seja pela perseguição sistemática que este método milenar vem sofrendo na Europa, seja pelos novos regulamentos criados pelo Estado de Israel. A sociedade israelense vem se mobilizando e exigindo que os sistemas de contenção de bovinos para a realização do abate Kosher utilizados fora de Israel sigam os mesmos princípios daqueles praticados em solo israelense: privilegiando o bem-estar animal ao mesmo tempo que mantém a conformidade com os preceitos religiosos do abate Kosher.

Em 2015 as autoridades israelenses começaram a anunciar aos países do Mercosul que passaria a ser obrigatório o uso de equipamentos especiais de contenção de bovinos para o abate Kosher. No final de abril de 2017 foi publicada a normativa de bem-estar animal que exige a utilização de boxes rotativos de contenção de bovinos. A data limite para que os frigoríficos tenham esses equipamentos funcionando é 1º de junho de 2018. A continuidade das exportações de carne bovina para aquele país está condicionada ao cumprimento da norma.

O box rotativo imobiliza o bovino e – ao girar 180 graus – o coloca em posição de ser abatido, minimizando o estresse para o animal e garantindo uma operação segura às equipes de abate.

Existem marcadores objetivos quanto ao sucesso da utilização desse equipamento, que visa mitigar o passivo de bem-estar animal – antes presente no método de imobilização praticado pelas indústrias frigoríficas. Esses marcadores são validados por protocolos internacionais de bem-estar animal e pela autoridade-mor no assunto, a Professora Temple Grandin. Os escores principais verificados são índice de vocalização durante a operação, o tempo que o animal leva até atingir a insensibilização e a ausência de contusões de carcaça originadas nessa fase do processo.

Os 4 países do Mercosul são responsáveis por 85% das importações de carne bovina de Israel. Inicialmente houve manifestações contrárias à norma por parte de vários frigoríficos do bloco. Entre os mais de 40 frigoríficos do Mercosul, muitos apostaram na chance de se obter prorrogação ou até mesmo uma rediscussão da obrigatoriedade do novo sistema.

A postura das autoridades israelenses tem sido enfática: a planta que não tiver o equipamento funcionando na data limite deixará de exportar para Israel até que cumpra com a norma.

Esse regulamento não foi mero ato discricionário do Ministério da Agricultura de Israel. Foi, sim, o desdobramento de um fenômeno de amadurecimento da sociedade local catalisado por uma sequência de fatos na mídia que causaram bastante comoção. Culminou com a Suprema Corte de Justiça determinando que o Ministério da Agricultura apresentasse um plano de ação concreto, com prazo de adaptação para as plantas que fornecem para Israel.

O plano foi concebido pelo Ministério da Agricultura israelense levando em conta o tempo necessário para que as indústrias pudessem definir projetos, adquirir equipamentos e redesenhar os fluxos e processos de abate Kosher. A data limite foi ponderada de modo a permitir uma adaptação não traumática, e foi afiançada junto à Suprema Corte de Justiça do Estado de Israel.

Como precaução, o Ministério da Agricultura israelense auditou dezenas de frigoríficos na Europa e renovou licenças de exportação no intuito de cobrir uma eventual ausência de provedores regulares do Mercosul. As plantas europeias possuem – por força de regulamentos locais – boxes rotativos de contenção. São menos habituais enquanto provedoras de carne bovina a Israel por questões mercadológicas.

Com base nisso e considerando o número de frigoríficos no Mercosul que se encontra em estágio avançado de adesão à norma, estima-se que não haja risco grave de desabastecimento de carne bovina a Israel que pudesse forçar uma modificação na vigência da norma.

Independente do prazo efetivo de vigência da norma, esse movimento nos faz finalmente cumprir nossa obrigação de remediar esse passivo de bem-estar animal. O saldo positivo é que isso deve abrir, em breve, novos horizontes para a carne bovina Kosher produzida por aqui.

 

 

 

 

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