Um brinde à sidra

Coluna TERROIR - Por Irineu Guarnier Filho


16.05.18

Irineu Guarnier Filho é jornalista especializado em agronegócio, cobrindo este setor há três décadas. Metade deste período foi repórter especial, apresentador e colunista dos veículos do Grupo RBS, no Rio Grande do Sul. É Sommelier Internacional pela Fisar italiana, recebeu o Troféu Vitis, da Associação Brasileira de Enologia (ABE), atua como jurado em concursos internacionais de vinhos e edita o blog Cave Guarnier. Ocupa o cargo de Chefe de Gabinete na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul, prestando consultoria sobre agronegócio.

Todo brasileiro algum dia já bebeu sidra, não é? Errado. O xarope gaseificado que por muito tempo animou festas de Natal e Ano Novo no País, a rigor, nem poderia ser chamado de sidra. É qualquer coisa menos o delicioso fermentado feito com o sumo de maçãs frescas que os europeus bebem como água.

A verdadeira sidra é uma bebida pouco alcóolica (5% vol., em média), refrescante, mais parecida com um vinho espumante do tipo Charmat do que com os filtrados doces e vinhos frisantes com os quais ainda se confunde por aqui. Ideal para o clima tropical do Brasil, harmoniza perfeitamente com pizzas, saladas e pratos leves – mas é par perfeito para crepes, como bem sabem os franceses.

Na França, aliás, a sidra desperta forte rivalidade entre os produtores da Normandia e os da Bretanha, cada grupo afirmando que a sua é a melhor, naturalmente. A Espanha, pátria de excelentes sidras, também cultua a festiva bebida. Na Grécia, idem. No Reino Unido, o consumo chega a 850 milhões de litros por ano. E aqui ao lado, nossos hermanos argentinos bebem 120 milhões de litros.

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Curiosamente, estados grandes produtores de maçã como o Rio Grande do Sul e Santa Catarina ainda não elaboram, em grande escala, sidras dignas deste nome. A sidra “de combate”, barata, ainda é feita com maçãs de qualidade inferior. Mas já começam a aparecer marcas premium, como Epo Hibi (tem flor de hibisco e abacaxi na composição), Sina Hard Cider, Poison, Rekorderlig Strawberry Lime (com limão e morango) e Stronbow Gold Apple – elaboradas principalmente com frutas das variedades Fuji e Gala, abundantes no Sul. Degustei vários rótulos da Epo, todos muito frescos, com notas frutadas no nariz e cítricas em boca. Da Embrapa Uva e Vinho, de Bento Gonçalves, na Serra Gaúcha, também provei amostras experimentais de sidras leves e elegantes.

A produção brasileira de maçãs que não é exportada é consumida em grande parte in natura. Frutas de boa qualidade que não encontram mercado ou não atingem o padrão de excelência visual exigido pelos consumidores viram sucos, chás e geleias. Mas também poderiam virar sidra, por que não? Entre a cerveja artesanal e o espumante, a sidra pode encontrar um nicho de mercado bem interessante no país – principalmente junto ao público jovem.

Para isso, é necessário, no entanto, que os investimentos em tecnologia de produção sejam acompanhados de uma alentada campanha de marketing capaz de reverter a persistente imagem negativa do fermentado de maçã entre os brasileiros.

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