O Uruguai além da Tannat

Coluna TERROIR - Por Irineu Guarnier Filho


30.05.18

Irineu Guarnier Filho é jornalista especializado em agronegócio, cobrindo este setor há três décadas. Metade deste período foi repórter especial, apresentador e colunista dos veículos do Grupo RBS, no Rio Grande do Sul. É Sommelier Internacional pela Fisar italiana, recebeu o Troféu Vitis, da Associação Brasileira de Enologia (ABE), atua como jurado em concursos internacionais de vinhos e edita o blog Cave Guarnier. Ocupa o cargo de Chefe de Gabinete na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul, prestando consultoria sobre agronegócio.

Nosso vizinho Uruguai é um simpático país agropastoril, habitado por um povo culto e gentil, que recebe com fidalguia os turistas brasileiros. De seus campos férteis brotam os ingredientes de uma gastronomia meio rústica, porém muito saborosa – como a macia carne bovina de raças de origem europeia, queijos cremosos, os dulcíssimos doces de leite, frescos azeites e, de algumas décadas para cá, vinhos que ganham reconhecimento internacional a cada safra.

Quando se fala em vinhos uruguaios, a casta que primeiro vem à mente é a Tannat – não por acaso a uva emblemática do país. O que os nossos hermanos fazem com essa cepa áspera e pouco expressiva na sua França de origem – de onde foi trazida por Don Pascual Harriague, no século 19 – é realmente admirável. Em geral, são vinhos densos, carnudos, com notas aromáticas que aludem à terra, couro e tabaco, sustentados por um robusto “esqueleto” de álcool, acidez e taninos marcantes. O vinho Tannat é um símbolo do Uruguai – como a camisa Celeste, da seleção de futebol.

Mas a vitivinicultura uruguaia vai muito além dos vinhos Tannat, tão apreciados pelos brasileiros. Num giro por Montevidéu, Canelones e Maldonado, algum tempo atrás, provei vinhos – principalmente brancos – elaborados com outras variedades, que me surpreenderam pela elegância, mineralidade e acabamento.

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Destacaria, por exemplo, os Sauvignon Blanc, Alvarinho, Torrontés, Chardonnay, Viognier, Pinot Noir, Merlot e, principalmente, os Cabernet Franc de bodegas como Bouza, Pisano, Pizzorno, H. Stagnari, Marichal, Filgueira, Toscanini, Família Deicas, Carrau ou Alto de La Ballena. Vale a pena conhecê-los. Como também as bodegas onde são elaborados.

O vinho tem longa tradição no Uruguai. Há vinícolas muito antigas, como a da família Carrau, oriunda da Catalunha, que faz vinhos há mais de 260 anos, e outras mais jovens – mas nem por isso menos interessantes. Na Bodega Juanicó, por exemplo, que possui um surpreendente observatório de pássaros no meio de um açude, o visitante ainda pode degustar um exclusivo licor de Tannat em uma escura cave de pedra. Na pequenina Alto de La Ballena, uma parrilla assada à moda campeira acompanha os suculentos vinhos da casa. O cordeiro bate ponto em quase todas as mesas do país. Como moldura dessas experiências, a majestosa paisagem do Pampa.

Mas, conforme me explicou um vinhateiro uruguaio, se os brasileiros só querem saber de Tannat, é só isso o que beberemos por aqui. Por isso acho que está na hora de descobrirmos as “joias” ocultas da vitivinicultura uruguaia. Um tesouro espera pelos enófilos de mente aberta.

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