Quem está enganando nossas crianças?

Coluna AGROAMBIENTAL - Por Caio Penido

“Se nossa floresta tem mesmo valor para o mundo, por que o Brasil não é reconhecido e recompensado como grande guardião desses recursos?”

Caio Penido, ativista agroambiental e empresário, Top Farmer Sustentabilidade 2018


14.05.18

Ativista agroambiental e empresário, Caio Penido é pecuarista no Mato Grosso e trabalha na articulação da “Liga do Araguaia” onde lidera projetos de pecuária sustentável: Projeto Carbono Araguaia, Projeto Campos do Araguaia, Projeto Garantia Araguaia e parceria com a EMBRAPA Gado de Corte, entre outras atividades.

Outro dia andando a cavalo com meus filhos e amigos deles, fiz a pergunta que faço às mais diversas pessoas todos os dias: quanto por cento do território do Brasil ainda está conservado com vegetação nativa? Sugiro que façam esta pergunta aos seus filhos também. A resposta seguiu a média da minha eterna enquete com pessoas bem informadas e inteligentes: uns 10% a 15%. Pesquisem no site do Ministério do Meio Ambiente para entenderem do que estamos falando antes de continuarmos!

Agora, que vocês já sabem, eu faço outra pergunta: quem estaria manipulando a opinião pública brasileira e mundial? Quem teria interesse nisso?  Quem está enganando nossas crianças?

Uma possível explicação está na estratégia explicitada em relatório publicado por pesquisadores norte-americanos em 2010 denominado Farms Here, Forests There (Fazendas aqui, Florestas lá, em tradução livre). O documento, de 48 páginas, faz uma análise sobre o impacto do crescimento do agronegócio no Brasil, via abertura de novas áreas, no agronegócio americano. É a materialização de uma estratégia protecionista que trabalha pelos interesses colonialistas: controle dos nossos ativos ambientais como ferramenta para a limitação do crescimento da produção das commodities brasileiras.

Para garantir que continuarão produzindo alimentos e gerando recursos eternamente para seus países, limitam nosso crescimento, a expansão de nossa produção, e impedem a consolidação de uma economia mundial de baixas emissões — na qual o Brasil é muito mais competitivo. Através da imposição do mantra “Desmatamento Zero”, sem a contrapartida de mecanismos de valorização do ativo ambiental, eles privam o Brasil de criar valor a um dos seus maiores diferenciais competitivos, o meio ambiente! Talvez para eles as florestas não tenham valor, até por que já não as tem. Assim, encontraram na luta pelo “desmatamento zero” apenas um mecanismo para controlarem o desenvolvimento do Brasil.

Mas eles estão certos! Como disse o presidente Donald Trump ao chegar na China para discutir as políticas chinesas que estavam roubando empregos dos americanos: “O governo chinês está certo em lutar pelos interesses do povo chinês. Quem errou foram os governos Bush e Obama, que não lutaram pelos interesses do povo americano”. Da mesma forma, acho que os mercados financeiros desenvolvidos estão corretos em proteger suas economias e são extremamente eficientes em sua missão de perpetuarem suas riquezas. Pena que o fazem prejudicando o mundo em desenvolvimento.

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O governo brasileiro é que deveria estar inconformado! Deveria estar alertando sua população sobre esse complô, sobre essa “mentira conveniente”, sobre essa injustiça de transformarem o país que é referência em equilíbrio agroambiental em um vilão internacional! E por que transformar a única potência agroalimentar do planeta que ainda tem mais de 60% de seu território com vegetação nativa em vilã do meio ambiente?

Florestas e biodiversidade, raros no primeiro mundo, não podem se tornar mais uma vantagem competitiva para um país subdesenvolvido como o Brasil. Parece que nós não podemos ter qualquer qualidade que eles não tenham! Não podemos despontar como referência! Devemos permanecer na posição de explorados, sem disputar mercado com eles, para que continuem felizes e ricos. Nem que seja necessário continuar enganando nossas crianças…

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