Marfrig faz aquisição e mostra que a carne ainda é forte

Empresa brasileira anuncia compra de americana e se torna a segunda maior do mundo em carnes

“A agricultura digital veio para ficar. Ela vai crescer muito rapidamente e aquele que não entrar hoje vai entrar amanhã, porque é um caminho sem volta.”

Arlindo Moura, CEO do grupo Terra Santa


09.04.18

Treze meses se passaram desde os dias mais negros da indústria da carne no Brasil. De 17 de março de 2017 a 9 de abril de 2018, o setor passou pelo purgatório da execração pública de suas deficiências, com a deflagração da Operação Carne Fraca, a uma nova demonstração de força no mercado global. A responsável pela retomada da ofensiva internacional foi a Marfrig, segundo maior frigorífico do País — e agora também a segunda maior processadora de carnes do mundo, após a aquisição do controle da americana National Beef Packing Co. LLC, anunciada nesta segunda, dia 9. A companhia nacional pagou US$ 969 milhões na transação, que envolveu 48% das ações da quarta maior empresa do setor nos Estados Unidos. Com ela, a Marfrig Global Foods somará um total de R$ 43 bilhões (o equivalente a US$ 13 bilhões) em vendas, ficando atrás apenas da também brasileira JBS entre as gigantes da carne no mundo.

O negócio é repleto de dados positivos e, por conta disso, teve impacto bastante positivo nas ações do grupo e de outras empresas do setor nas primeiras horas após seu anúncio. Os papeis da Marfrig subiram mais de 20%. Fundada em 1992, a National Beef faturou US$ 7,3 bilhões em 2017. Desde 2011 é controlada pela Leucadia National Corp., que até então detinha 79% do seu capital. A empresa, com sede em Kansas City, no estado de Missouri, tem capacidade para abater 12 mil cabeças por dia em seus dois frigoríficos, sendo responsável por 13% do total dos abates nos Estados Unidos. Também é apontada como uma das mais lucrativas empresas do setor no país.

Os valores anunciados avaliam a National Beef em US$ 2,3 bilhões, o que significa a aplicação de um múltiplo de 4,4 vezes em relação ao EBITDA (resultado antes dos juros, taxas, depreciação e amortização). A Leucadia permanecerá como acionista, mantendo 31% de participação. Também figuram como stakeholders a US Premium Beef, uma associação de produtores americanos, com 15%, e outros minoritários, que somam 3%.

“A aquisição da National Beef representa a realização de uma oportunidade única”, afirma Martín Secco, CEO da Marfrig Global Foods. “Com a transação, teremos operações nos dois maiores mercados de carne e ganharemos acesso a países com mercados extremamente sofisticados, possibilitando nosso crescimento ao mesmo tempo em que mantemos uma rigorosa disciplina financeira”.

De fato, a compra da companhia americana permitirá á Marfrig atuar em 40 países atendidos por ela, incluindo o Japão, atualmente fechado para a carne brasileira. No ponto de vista financeiro, ao incorporar os resultados da National Beef, a Marfrig conseguirá melhorar sua exposição ao endividamento.Em 2017, as dívidas da companhia correspondiam a 4,55 vezes o seu EBITDA. Com a aquisição, deve cair para 3,35 vezes.

“Essa aquisição reflete a nossa estratégia de crescimento sustentável” afirmou Marcos Molina, presidente do Conselho de Administração da Marfrig. “A partir de agora, nos tornamos a companhia brasileira com melhor saúde financeira no setor, o que se comprova pelo baixo nível de alavancagem”. Nos últimos meses, a empresa passou por um rigoroso processo de reestruturação financeira.

O atual CEO da National Beef, Tim Klein, permanecerá no comando da empresa. A Marfrig deve indicar cinco dos nove membros do conselho da empresa. Dois serão indicados pela Leucadia e outros dois pelos minoritários.

JBS EM ALTA

Principal alvo da Operação Carne Fraca, a outra brasileira que domina o mercado internacional também mostrou poder de reação nos últimos meses. Apesar da prisão dos principais acionistas e de importantes mudanças na gestão da companhia, a empresa conseguiu avançar no desempenho operacional. A crise deflagrada pelas ações policiais levou a companhia a uma série de ações para reduzir o endividamento e buscar maior eficiência, com maior foco nas principais áreas de atuação. Com isso, o EBITDA da empresa subiu deR$ 11,3 bilhões em 2016 para R$ 13,4 bilhões em 2017, com elevação da margem de 6,6% para 8,2%. A geração de caixa operacional ficou em R$ 5,2 bilhões e o lucro líquido em 2017 atingiu R$ 2,1 bilhões.

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