Uma estratégia digital na Terra Santa

Para o CEO do grupo, Arlindo Moura, só a busca por inovação pode garantir o sucesso do agronegóc

“A agricultura digital veio para ficar. Ela vai crescer muito rapidamente e aquele que não entrar hoje vai entrar amanhã, porque é um caminho sem volta.”

Arlindo Moura, CEO do grupo Terra Santa


Edição 8 - 28.03.18

Por Clayton Melo

Arlindo de Azevedo Moura, CEO da Terra Santa Agro, não tem dúvidas: a agricultura digital veio para ficar, e quem não pegar essa trilha está fora do páreo. A razão é muito simples. Pressionado entre o fornecedor de insumos e o preço das commodities, fixado em Bolsa, o produtor não tem para onde correr na hora de administrar os custos nessas duas pontas. O caminho para melhorar os resultados da operação é ter mais eficiência, algo que se consegue com boa governança e tecnologia. “Para ser eficiente, é necessário buscar todos os meios possíveis para reduzir custos.A agricultura digital é um caminho sem volta para conseguir isso”, afirma Moura nesta entrevista à PLANT PROJECT.

Arlindo Moura, presidente: “Daqui a dez anos tudo o que fazemos hoje estará desatualizado”

O executivo fala com a experiência de quem viveu de perto todas as transformações do agronegócio nas últimas três décadas e lidera uma das maiores empresas de grãos e fibras do Brasil. Atual presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa), já foi diretor financeiro para a América do Sul da John Deere e presidente de empresas como Kepler Weber S.A. e SLC Agrícola. Há cinco anos comanda a Terra Santa, grande produtora de soja, milho e algodão, com sete unidades de produção instaladas no Mato Grosso e cerca de 160 mil hectares sob sua gestão: Fazenda Iporanga (Nova Maringá), Guapirama (Diamantino), Mãe Margarida (Santa Rita do Trivelato), Ribeiro do Céu (Nova Mutum), São José (Campo Novo dos Parecis), Terra Santa (Tabapora) e Parecis (Campo Novo dos Parecis).

Há poucos anos, a companhia iniciou uma estratégia de digitalização da operação, com um projeto-piloto em Nova Mutum. O trabalho está a cargo da Solinftec, empresa de agricultura digital com sede em Araçatuba, interior de São Paulo.Entre os pontos centrais da iniciativa está a substituição completa do uso de papel de registros de dados de plantio e colheita. Hoje, essa atividade é toda feita de forma automatizada, com computadores de bordo nas máquinas agrícolas e acesso às informações em tempo real de qualquer lugar. “Os principais benefícios foram as horas de utilização das máquinas, consumo de combustível, que reduziu bastante, e principalmente a forma de contabilização desses custos. Esse processo todo se tornou muito mais preciso agora”, afirma Moura.

Confira a entrevista.

Qual a visão da Terra Santa em relação à agricultura digital e por que a companhia decidiu implantá-la na operação?

O produtor brasileiro, e também no mundo inteiro, fica pressionado entre o fornecedor de insumos e os compradores das commodities. O preço das commodities é fixado por Bolsa. No caso da soja e do milho, é estipulado por Chicago, no caso do algodão, Nova York, e os insumos são adquiridos do exterior. Então, o que sobra para o produtor é administrar esse custo, ganhar dinheiro no meio desses dois itens, do valor dos insumos e do preço que ele consegue em Bolsa pela sua commodity. Para ganhar dinheiro nesse percurso, é necessário ser muito eficiente. E, para ser eficiente, é preciso buscar todos os meios possíveis para reduzir os custos. A agricultura digital é um caminho sem volta para alcançar isso.

Como foi exatamente o início do trabalho de adoção da agricultura digital?

Há cinco anos começamos a trabalhar com agricultura de precisão, que na minha visão foi engolida pela agricultura digital. Já estávamos fazendo algumas coisas nessa linha e, conforme o trabalho evoluiu, vimos que tinha muito campo para avançar. Então, buscamos no mercado um fornecedor que já estivesse desenvolvendo um trabalho com agricultura digital, e assim encontramos uma empresa chamada Solinftec. Fizemos um projeto-piloto, inclusive com riscos para eles, que eventualmente não ganhariam nada caso o trabalho não desse certo. Mas felizmente tudo correu nos conformes e conseguimos benefícios para ambos. Já estamos estendendo esse projeto para mais duas fazendas.

A Terra Santa hoje conta com todos os processos de coleta de dados automatizados. Como isso era feito antes da implantação da agricultura digital?

A forma de controle eram as anotações em papel feitas pelo operador, em campo. Esses dados depois eram colocados num sistema. Não havia um procedimento on-line que nos permitisse verificar onde e como as máquinas estão trabalhando. Hoje, conseguimos observar também a telemetria das máquinas, e isso não só facilita muito nossa atividade como possibilita também o controle da gestão de cada uma das fazendas.

Que tipo de resultados o uso dessa tecnologia já proporcionou?

Os principais benefícios foram as horas de utilização das máquinas, consumo de combustível, que reduziu bastante, e principalmente a forma de contabilização desses custos. Esse processo todo se tornou muito mais preciso agora.

Levando em consideração o avanço da tecnologia no campo, como o senhor enxerga o agronegócio brasileiro daqui a alguns anos? 

Minha convicção, como produtor, é de que daqui a dez anos tudo que fazemos hoje estará desatualizado. Essas inovações são muito rápidas. No momento em que uma inovação surge, paralelamente aparecem outras duas ou três, para outros controles e serviços. O produtor que não entrar nisso vai ficar fora do mercado. O produtor brasileiro tem essa vontade de inovar, de reduzir custos. Isso acontece desde sempre, vem desde o plantio direto, área em que o Brasil é um dos países com maior nível de utilização no mundo. Aconteceu também com o transgênico, algo que o produtor viu rapidamente que era vantajoso de usar. E vai acontecer também com a agricultura digital.

Essa nova agricultura exige uma nova mão de obra. Que competências e habilidades o trabalhador do agronegócio precisa adquirir daqui para a frente?

A mão de obra é sempre uma dificuldade dentro de uma fazenda. Dependendo do tamanho dela, são 200, 300 funcionários em locais muitas vezes longe da cidade, com dificuldade de acesso às propriedades. Portanto, quanto menos pessoas a gente conseguir ter nas fazendas, melhor. Acho que a agricultura digital vai possibilitar isso. Vai eliminar algumas atividades burocráticas, antes necessárias em função de uso do papel, mas que hoje fazemos pela internet no escritório, de qualquer lugar do mundo. Isso fará com que o custo administrativo de uma fazenda caia bastante. O papel do funcionário da fazenda é produzir soja, milho, algodão, não é ficar fazendo anotações para depois transformar isso em dados.

A Terra Santa começou um projeto-piloto com Inteligência Artificial, em Nova Mutum. O que o senhor pensa da adoção de robôs no campo?

Acredito que, junto com esse pacote de inovação, vai vir muita coisa ainda. Estamos engatinhando. É aconselhável que o produtor esteja aberto a assumir essas novas tendências de mercado e, com isso, melhorar a sua produtividade e reduzir custos.

Como o senhor avalia a posição do Brasil em comparação ao mercado internacional quando o assunto é inovação e tecnologia agrícola?

Da porteira para dentro, o produtor brasileiro sempre foi muito competitivo e altamente produtivo. Para dar o exemplo do algodão – e nossa empresa é uma grande produtora de algodão –, vale lembrar que o produtor nacional consegue tirar 1.700 quilos de pluma de algodão por hectare, enquanto o americano tira 930. A nossa produtividade é superior em mais de 70% em comparação à americana. Se considerarmos o fato de que a qualidade das terras nos EUA é igual ou superior à nossa – jamais inferior – e que os produtores de lá têm uma qualificação tão boa ou melhor do que a dos nossos funcionários, dá para entender por que somos mais produtivos. Dedicamos mais tempo para estudar e buscar inovações, e isso torna o produtor brasileiro mais competitivo. E por que desenvolvemos essa especialização? Por conta da dificuldade que temos com transporte e logística. A nossa logística é três, quatro vezes mais cara que a americana. Nos EUA, praticamente tudo é feito por meio de rios. Todo produtor tem uma instalação do lado de um rio, no fundo da fazenda. Ele coloca a produção dentro de um barco, enquanto nós, aqui, rodamos mil, 2 mil quilômetros de caminhão para chegar ao porto, principalmente para os produtores do Mato Grosso, a região onde estamos. Isso exige que a gente busque eficiência em outros aspectos; é o que estamos conseguindo fazer. Temos uma produção de soja maior do que a dos americanos. A do milho é incomparavelmente maior. A necessidade de produzir mais com menos é muito forte no Brasil. Os produtores que se deram bem, que estão tendo sucesso, têm essa característica.

O avanço da tecnologia no agronegócio está trazendo os jovens para o campo?

Por algumas décadas houve um processo de evasão, o filho que saía para fazer uma faculdade e não voltava mais para trabalhar com o pai. Ele virava médico, dentista e ficava na cidade onde foi estudar. Agora está ocorrendo um caminho inverso. Os filhos e os netos estão voltando para administrar fazendas. Isso é bom para os jovens, pois representa uma alternativa a mais de emprego e carreira. A Terra Santa é um exemplo. A nossa diretoria, tirando eu, está na faixa de 30 a 40 anos. Isso ocorre também na camada de gerentes, coordenadores e supervisores. Um time muito bem preparado está vindo para o campo, e essas pessoas vêm com uma disposição muito grande de aprender, algo que a faculdade não oferece da mesma forma. Quando ele vem para a fazenda e vê a tecnologia em operação, ele se apaixona. Isso é muito bom. Vamos ter cada vez mais profissionais preparados para a nova era, a da agricultura digital.

Como o senhor pessoalmente se relaciona com a tecnologia? 

Sempre tive muita vontade de entender as novas tecnologias. Meu pai foi militar, a qualificação dele era voltada para a comunicação. Eu me criei vendo isso. Assim que tive um pouco de dinheiro no bolso, fui correr de automóvel – por conta da tecnologia dos carros. Depois fui ser professor universitário, sempre na busca de novos conhecimentos. Felizmente hoje estamos vendo que os jovens estão exatamente com essa cabeça, de inovar, buscar mais, fazer mais com menos. E isso é muito bom. Sem dúvida nenhuma é isso o que vai garantir o sucesso do agronegócio brasileiro por muitas décadas.

A agricultura tem um histórico de inovação e agora está entrando na fase digital, mas a comunicação do agronegócio não parece acompanhar essa modernização. O senhor acha que o setor se comunica bem?

Não. Basta ver o esforço que o agronegócio tem de fazer para demonstrar as coisas boas que tem. Um caso recente foi o do código ambiental. Não há nenhum lugar no mundo que tenha áreas sendo cuidadas por produtores. Hoje, mais de 20% das nossas reservas são cuidadas por produtores. Eles não ganham nada por isso, têm custo, têm de cuidar para não pegar fogo, para não roubarem árvores, tirarem terra. Nos países em que existe uma reserva, o produtor recebe para cuidar dela. Aqui não, somos obrigados a cuidar por força da legislação, e o produtor sabe que se ele não cuidar da terra não conseguirá passar um legado e preservar seu patrimônio. As terras brasileiras são muito pobres. Veja o cerrado brasileiro, nem mato cresce. Depois de dez anos de trabalho para corrigir e melhorar, trazendo benefício para essa terra, ela obtém a qualidade de terra americana, argentina. Então isso é uma comprovação de que o produtor tem consciência de que deve cuidar da sua terra e de que o sucesso no futuro depende disso.

Como o senhor imagina a Terra Santa daqui a cinco ou dez anos?

Diria que só vamos ter crescimento, um crescimento geométrico. Com novas inovações aparecendo, os gestores têm o entendimento de que precisam adotar essas ferramentas para reduzir custos e produzir mais com menos. O produtor brasileiro está consciente de que esse é o caminho. Não tenho dúvida de que a agricultura digital veio para ficar. Ela vai crescer muito rapidamente, e aquele que não entrar hoje vai entrar amanhã, porque é um caminho sem volta.

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