Uma aventura para salvar o cashmere

Como uma viagem despretensiosa virou um negócio que desafia cartéis da mais valiosa lã do mundo


Edição 8 - 28.03.18

Por Pedro Romanos

No princípio, era uma aventura despretensiosa. Um executivo cansado da vida corporativa joga tudo para o ar e embarca rumo a um país desconhecido para encontrar um velho amigo. Chegando lá, os dois decidem mergulhar em um deserto, beirando os limites da sobrevivência. Quando tudo parece que vai dar errado, eles se deparam com um tesouro imenso. Decidem então fazer dele o seu novo negócio e, de quebra, encontram ali um propósito para a vida deles.

Scalan e Rijsémus: US$ 2,5 milhões investidos em seis toneladas de cashmere para fundar a Naadam

Eis o roteiro dos últimos sete anos da vida do americano Matt Scanlan, de 29 anos, que trocou a agitação de Wall Street por uma temporada sem compromissos e data de encerramento na Mongólia. Lá, o acaso o levou ao meio do Deserto de Gobi e ao encontro dos criadores das cabras de cuja lá se faz o valioso cashmere. Descobriu uma atividade milenar em crise. Enxergou ali uma oportunidade e uma missão: fazer dinheiro em um mercado de margens enormes e ainda ajudar a gerar renda e melhores condições de vida para os povos nômades daquela região. É o que tem feito desde então.

Onde fica o Deserto de Gobi

O cashmere (ou caxemira, no termo aportuguesado) é um tecido valioso por sua leveza e maciez, comercializado por algumas das principais grifes de luxo. Scanlan e seu sócio, Diederik Rijsemus – um velho amigo de faculdade que vivia na Mongólia –, decidiram quebrar alguns dogmas desse mercado. Criaram uma grife própria, a Naadam, dispostos a vender artigos de cashmere de boa qualidade e bem mais baratos. Mas, para isso, tiveram de enfrentar um poderoso cartel, que atuava como intermediário entre criadores e a indústria de confecção.

UM SALTO NO ESCURO

Logo que se reuniram na Mongólia, Scanlan e Rijsemus ingressaram em uma viagem nada ortodoxa. Alugaram um quarto em uma região mais distante da capital Ulaanbaatar, com o intuito de fugir um pouco do caos da região metropolitana. No primeiro fim de semana, conheceram dois moradores locais que falavam sobre a produção do cashmere no país. Seduzidos pela história, resolveram conhecê-la de perto, embarcar rumo ao deserto gélido de Gobi e descobrir qual era o segredo daquele tecido tão cobiçado.

“Na nossa cabeça era para ser uma viagem tranquila, como um fim de semana para uma cidade próxima. Não levamos comida nem roupas. Jurava que estaríamos em casa no dia seguinte”, contou Scanlan à revista americana Entrepreneur. A realidade se mostrou bem diferente. Foram mais de 20 horas dentro de um caminhão, sem alimentos e sem saber exatamente o destino. Para intensificar os ares de aventura, o veículo que transportava os viajantes quebrou no meio de uma estrada escura. Foram mais algumas horas até que um grupo de motoqueiros encontrou o grupo e o levou por mais três horas até seu destino final: um pequeno vilarejo nos arredores das montanhas de Gobi.

Perdidos e sem entender o que realmente faziam ali, Scanlan e Rijsemus foram recepcionados por um criador de cabras chamado Dash. Ele e sua família ofereceram um quarto, comida e roupas quentes aos viajantes. No dia seguinte, dispostos a voltar à cidade, os dois futuros sócios foram conversar com os motoqueiros. Mais uma vez, a resposta que receberam foi totalmente fora do planejado. “Nos disseram que pretendiam passar um mês naquele local”, disse Scanlan à Bloomberg. “No primeiro momento foi difícil aceitar a ideia, mas com o passar dos dias fomos aprendendo a amar aquele lugar”. Depois de algumas semanas e uma série infinita de perguntas sobre a criação de cabras, Scanlan e Rijsemus começaram a entender o que ocorria naquele local. “Enchemos Dash de perguntas para saber mais sobre o que acontecia ali e encontramos os seguintes problemas: clima extremamente adverso, inexperiên­cia em técnicas agrícolas e um cartel exploratório”, relatou Matt ao podcast da 321 Business.

FRIO DE MATAR

Em poucos lugares do mundo a expressão “frio de matar” pode ser usada de maneira tão literal quanto no Deserto de Gobi. Lá, as temperaturas negativas extremas exigem dos seres vivos habilidades únicas de adaptação ao ambiente hostil. A questão é que, com as mudanças climáticas e o uso inescrupuloso dos recursos naturais, as adversidades têm sido cada vez maiores. De acordo com a WCS (Wildlife Conservation Society Mon­­­­­golia), 70% do solo da região se encontra com sinais de degradação e 2% já não pode mais ser recuperado. Ano após ano, os nômades que ali criam seus pastos não encontram lugares adequados para seus animais. Por conta disso, muitos criadores de cabras acabaram migrando para os centros urbanos e o cashmere sofreu uma queda drástica em sua produção.

Afetadas pela situação, as gran­­des marcas que comercializam o tecido passaram a estudar medidas para mudar a realidade daquele lugar. Uma das mais ativas é a francesa Kering. Em 2010, Marie Claire Daveu, chefe de projetos sustentáveis da grife, observou que as mudanças climáticas estavam afetando drasticamente a qualidade do cashmere na Mongólia e decidiu entender o problema mais a fundo. Sua abordagem girou em torno do processo de criação, já que, de acordo com uma pesquisa realizada pela própria Kering, 90% do solo na Mongólia já passava por processo de desertificação. “O maior desafio para todas as empresas que trabalham com o tecido é educar o povo nômade e adaptá-lo a um novo conceito de produção”, afirmou Daveu ao site Business of Fashion. “O primeiro passo é buscar estratégias viáveis para a reestruturação do solo. Novas tecnologias agrícolas são uma possível solução? Talvez, mas pensando a longo prazo, é necessária a conscientização das grandes grifes para entender que existe humanidade nessa indústria, são pessoas vivendo em condições tão precárias quanto os animais ali criados, e ajudar esse povo a se autossustentar é a maior prioridade que devemos ter se desejamos que o mercado do cashmere continue forte.”

Scanlan (esq.) observa a qualidade do cashmere: processo meticuloso e importante para precificar o tecido

DZUD, O CALOR DE MATAR

O frio sempre foi cruel em Gobi, mas também o aquecimento global está ajudando a piorar o cenário. Matt Scanlan presenciou isso de perto. De acordo com pesquisadores da Kering, o pelo dos animais só cresce em temperaturas gélidas, tendo como parâmetro ideal os 12 graus negativos. Como o clima está se tornando mais quente gradativamente, o pelo das cabras cresce cada vez menos. Além disso, eventos climáticos catastróficos estão ocorrendo com mais frequência. O dzud é o pior deles.

“Imagine o dzud como uma experiência de colégio. Primeiro você coloca a mão na água quente e depois na gelada. Nosso corpo leva um tempo para se adaptar àquilo não é? Agora imagine um verão extremamente intenso e, em questão de alguns dias, um inverno fervoroso e congelante. Bom, isso é o que o povo da região de Gobi enfrenta periodicamente”, explicou Scanlan ao 321 Business. O impacto nos animais é avassalador. Em 2010, por exemplo, foi registrado o pior dzud da história na Mongólia. Nove milhões de cabras morreram. Segundo Scanlan, o mais duro para os pastores não é perder sua fonte de renda. O que realmente importa para aquele povo é a relação de afeto que eles têm por suas criações. “A relação comercial é praticamente nula”, completou.

TECIDO DE CONTRADIÇÕES

A Mongólia é o segundo maior exportador de cashmere do mundo, atrás do Irã. Com a demanda pelo tecido em alta e a complexidade dos problemas enfrentados por lá, ninguém sabe ao certo se apostar na região é uma escolha sensata. À medida que mergulhou no universo do cashmere, Scanlan foi se enredando em uma infindável teia de contradições. Ele percebeu que, apesar das questões climáticas que assolam o Deserto de Gobi, existe hoje na região um excesso de animais – e, mesmo assim, a produção de tecidos é menor. Como se chegou a esse quadro?

Para Pier Luigi Loro Piana, do­­no da grife italiana Loro Piana – uma das líderes do mercado de cashmere –, a demanda pelo tecido nas últimas décadas estimulou os criadores a aumentar imensamente seus rebanhos. Mesmo com os dzuds, a população de cabras na Mongólia praticamente dobrou, de 23 para 44 milhões de cabeças. A consequência disso foi que, com o solo já danificado pelo frio intenso, as poucas áreas restantes de pasto foram totalmente devoradas pelos imensos rebanhos e as cabras estavam nascendo menores e com menos pelos.

Assim, o cenário que Scanlan e Diederik se depararam não parecia nada promissor. A Mongólia estava atrasada em relação a sua vizinha China, que desde 2013 já implantava leis de preservação de pasto e educava os fazendeiros nômades a se fixarem em áreas determinadas. Mostrava a importância de tratar o solo de uma maneira mais sustentável, com menos cabras, respeitando o tempo de crescimento da vegetação.

O NASCIMENTO DA NAADAM

Ao final de sua aventura, Matt e Rijsemus se viram encantados com aquele universo. Como forma de retribuição aos cuidados que receberam naquele mês, prometeram a Dash que retornariam para tentar ajudar de alguma forma aquelas pessoas. Sua primeira iniciativa foi a criação de um fundo coletivo para ajudar no auxílio veterinário das cabras. Dois anos depois, em 2013, lançaram a Naadam, uma startup com o intuito de vender suéteres a um preço acessível e com maiores benefícios aos produtores. “Criar a Naadam foi um tiro no escuro, uma aventura, assim como nossa primeira expedição em Goobi. Não sabíamos ao certo o que iria acontecer, mas obtivemos um lucro inicial de cem mil dólares”, disse Matt. Para Rijsemus, o diferencial da grife foi a forma com a qual eles passaram a tratar os pastores. “Trouxemos uma proposta mais humanizada e as pessoas compraram essa ideia. Colocamos na cabeça a ideia de pro­duzir suéteres e a coisa começou a acontecer”, contou à Fortune.

A marca começava a crescer e os empreendedores decidiram voltar no verão seguinte até Gobi e se depararam com um duro cenário. A realidade dos criadores não havia mudado, mesmo com o clima mais estável. A cultura de criação parecia adaptada, porém a qualidade de vida ainda continuava deplorável. O lucro nunca chegava aos pastores porque eles estavam submetidos a um cartel exploratório que fixava os preços visando o benefício próprio. “O resultado disso era a inflação do preço do cashmere, negociantes e marcas cada vez mais ricos e os verdadeiros trabalhadores afundados na miséria”, dizia Scanlan.

De acordo com a consultoria Bain&Co, o preço médio do quilo do cashmere é estimado em 50 dólares. Os intermediários compram o tecido dos pastores por 20 dólares e revendem para as grandes marcas numa faixa que varia de 70 até 100 dólares, conforme a qualidade do produto. Scanlan e Rijsemus se propuseram a desafiar essa realidade. Seu propósito seria acabar com os intermediários de uma vez por todas, assumindo todo o processo, da compra da matéria-prima à venda ao consumidor.

“Não foi uma tarefa fácil. Formamos uma parceria com uma empresa da Mongólia que desejava produzir um tecido mais sustentável, a Bodio’s. O que fizemos foi: com a renda das vendas iniciais da Naadam e com a ajuda de diversos parceiros, juntamos 2,5 milhões de dólares e colocamos tudo dentro de um pequeno carro, em plena luz do dia, no Deserto de Gobi. Com esse dinheiro, compramos seis toneladas de cashmere diretamente dos produtores, pa­ra assim estabelecer uma renda sustentável para o povo”, contou Scan­lan à Entrepreneur.

Dessa forma, Naadam se estabeleceu como a grife mais sustentável do mundo nesse mercado e a que mais colabora com os produtores. Eles pagam, direto aos criadores, valores que variam de 50 dólares, para o produto de qualidade mais baixa, a 100 dólares, no caso do ultrasoft, proporcionando um expressivo ganho de renda aos donos dos rebanhos. O negócio ainda é uma incógnita, por causa de toda sua complexidade cultural e climática. Porém, marcas como a de Scanlan e Rijsemus são exemplos de que a sustentabilidade e um espírito de mudança podem ser a chave para uma parceria de sucesso.

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