Um novo desafio para os ambientalistas

O Brasil é uma potência agroambiental e eles precisam comunicar essa boa nova à sociedade


15.03.18

Por Caio Penido*

*Ativista agroambiental e empresário, Caio Penido é pecuarista no Mato Grosso e trabalha na articulação da “Liga do Araguaia” onde lidera projetos de pecuária sustentável: Projeto Carbono Araguaia, Projeto Campos do Araguaia, Projeto Garantia Araguaia e parceria com a EMBRAPA Gado de Corte, entre outras atividades.

O movimento ambientalista teve e continua tendo um papel importante na construção da consciência socioambiental da sociedade brasileira. Contribui assim para assegurar que as gerações futuras possam sobreviver dentro de um mundo sustentável. Vários de seus integrantes lutaram bravamente, com muita coragem, contra uma sociedade que não havia percebido a importância do meio ambiente. E obtiveram muitas conquistas: hoje somos a maior potência ambiental do mundo, com mais de 60% do nosso território coberto com vegetação nativa; temos um código florestal moderno, conservacionista e que dá segurança jurídica para o produtor rural e isso coloca o Brasil como um exemplo a ser seguido!

Mas eis que esses mesmos ambientalistas se encontram em uma encruzilhada: o que fazer agora? Quais são os próximos passos?

Penso que é preciso realinhar a agenda do setor:

– Reconhecer em seus manifestos que o Brasil é a maior potência ambiental do mundo em biodiversidade, dispondo de um código florestal muito moderno e conservacionista;

– Reconhecer que grande parte dessa biodiversidade está dentro das propriedades privadas, cuidada e custeada pelos próprios produtores rurais;

– Apoiar as SEMAs (Secretarias Estaduais do Meio Ambiente) para conseguirem validar os CARs (Cadastros Ambientais Rurais), atendendo o Código Florestal e dando assim segurança jurídica ao produtor e ao país;

– Apoiar campanhas pelo desmatamento zero nas terras do Estado ou devolutas;

– Combater o desmatamento ilegal nas propriedades rurais privadas, uma vez que as SEMAs estiverem emitindo validação e direitos;

– Apoiar o Código Florestal e a regulamentação de ferramentas previstas no código que ainda não estão sendo executadas na prática;

– Mostrar à população brasileira que nossas florestas prestam serviços ambientais para o Brasil e para o mundo e que esses serviços precisam ser remunerados;

– Desenvolver mecanismos de valorização do ativo ambiental para oferecer aos produtores alternativas ao desmatamento: Sistemas Agroflorestais, PSA, crédito de carbono, RED, floresta como garantia a financiamentos, etc…;

– Ainda dentro das alternativas ao desmatamento legal, auxiliar o produtor que atende ao código florestal a acessar investidores e fundos; estimular o turismo sustentável; desenvolver mecanismos de isenção fiscal; focar inicialmente no PSA para produtores que atenderam a % de RL e APP e tem excedentes; estudo sobre IRLP (o aproveitamento da Reserva Legal com capim para pastagem estratégica no período de seca); estudo sobre os impactos da substituição da floresta nativa por uma floresta produtiva e por fim, conectividade das Reservas Legais, APPs, UCs, TIs e parques através de corredores ecológicos ou agroecológicos, valorizando a troca genética entre espécies;

–  Promover, junto ao consumidor, campanhas de combate ao desperdício de alimentos; valorização da carne sustentável, livre de desmatamento e promoção do consumo consciente;

– Articular a sociedade em torno do movimento de reconhecimento do “Brasil Potencia Agroambiental”, apenas com pautas que atendam interesses em comum dos setores produtivo e ambiental, utilizando os processos de mobilização e engajamento nas mídias sociais, combatendo à desinformação e as “fake News”.

Uma vez alinhados os interesses em comum, o setor ambientalista poderá, juntamente com o setor produtivo, reivindicar junto ao governo brasileiro políticas que tangibilizem e valorizem os nossos ativos ambientais, em adição às ferramentas de incentivo como o MDL (Mecanismo de Desenvolvimento Limpo);

Mas a missão mais importante do Terceiro Setor Ambientalista hoje, do meu ponto de vista, é ainda maior que tudo isso. É anunciar uma “Boa Nova”.

Somente este segmento da sociedade tem a credibilidade necessária para comunicar à nação brasileira que vivemos em um país, do ponto de vista produtivo e ambiental, incrível. Somente ele pode comunicar à sociedade que, diante da nova realidade, pode transformar a sua estratégia de conservar o meio ambiente através de ameaças e medo em uma nova estratégia: a do orgulho e do valor agregado ao meio ambiente.

Os ambientalistas possuem total credibilidade do povo brasileiro e podem traçar metas em comum com o setor produtivo para juntos construírem um novo ciclo de desenvolvimento sustentável.

A missão do Terceiro Setor Ambientalista é unificar essa forte nação, reconhecendo o esforço do setor agropecuário em aumentar sua produtividade em números infinitamente maiores que o aumento das áreas cultivadas. Ele precisa, novamente, ajudar a forjar a consciência do povo brasileiro mostrando que não precisamos mais de radicalismo para conservarmos nossas florestas. Não precisamos de extremistas, pois é possível produzir e conservar de forma equilibrada e valorizando o Brasil.

E poderemos enfim nos orgulharmos de sermos uma potência mundial… uma potência agroambiental!

TAGS: Caio Penido, Código Florestal, ILPF, Meio Ambiente, Sustentabilidade