Esalq, de república a nação

Como se forma o espírito que congrega alunos e egressos da Esalq em uma influente rede de conexões

“Quem mal lê, mal ouve, mal fala, mal vê”

Monteiro Lobato


Edição 8 - 26.03.18

Por Romualdo Venâncio
Fotos Toni Pires

No concorridíssimo mundo digital, um aplicativo com 7 mil usuários normalmente seria considerado inexpressivo. Existe um, no entanto, que nos últimos anos se transformou em um dos pontos de encontro (virtual, é verdade) mais influentes do agronegócio brasileiro – e, pode-se dizer, até mesmo mundial. É um clube seleto. Você não terá acesso ao “Esalqueanos”, a não ser que seja, efetivamente, egresso ou participante dos corpos de alunos e professores da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq), da Universidade de São Paulo (USP). Desenvolvido e gerido há quatro anos pela ativa Adealq, a associação dos ex-alunos da Esalq, o app levou para dentro dos smartphones uma instituição que tem marcado os 117 anos de história da mais tradicional escola de ciências agrárias do Brasil
– e também integrante do Top 5 mundial nessa área acadêmica: a eficiente rede de conexão entre esalqueanos, uma relação que supera barreiras profissionais, de idade e de sexo.

A força dessa conexão vem, primeiramente, da história centenária que colocou Piracicaba, cidade a 160 quilômetros de São Paulo onde fica a antiga fazenda que hoje hospeda o magnífico campus da escola, em evidência no mapa do desenvolvimento do agronegócio brasileiro. Desde seu início como Esalq-USP, em 1934 – pois a história começa bem antes, lá em meados de 1901 –, a instituição já formou perto de 11,8 mil engenheiros agrônomos. Entre eles há nomes que participaram efetivamente do cenário político e econômico do agronegócio nacional, como os ex-ministros da Agricultura Fernando Souza Costa, durante o governo de Getúlio Vargas; Hugo de Almeida Leme, com Castelo Branco; e Roberto Rodrigues, no primeiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva.

Há ainda um batalhão de engenheiras e engenheiros menos expostos aos holofotes, cuja importância é também histórica. São profissionais responsáveis por criar e fomentar técnicas, procedimentos e sistemas de gestão que desde o século passado contribuem para aprimorar as atividades agrícola e pecuária no Brasil, tanto na rotina de campo quanto dentro de um laboratório ou mesmo no comando de grandes corporações, direta ou indiretamente ligadas ao agro. Trata-se de uma significativa contribuição para que possamos ter duas, três ou mais safras por ano, elevando os índices produtivos sem a necessidade de ampliar a área cultivada, algo que surpreende e intriga estrangeiros que conhecem mais de perto nossa agropecuária.

DESFILE DE CHAPÉUS

As conquistas agronômicas ajudaram a fazer crescer um orgulho que é semeado a cada início de ano letivo e que gera frutos para o resto da vida adulta de milhares de jovens. Caminhar pelas alamedas e gramados do campus da Esalq nos meses de fevereiro e março é presenciar uma espécie de nascimento. Um movimento incomum gira em torno dos “bixos”, os calouros recém-chegados que são recepcionados pelos “doutores”, veteranos que vão lhes apresentar um universo único no meio acadêmico brasileiro, repleto de rituais e códigos que farão parte de sua rotina nos próximos anos.

O primeiro deles é o chapéu de palha, adereço que os bixos incorporam ao visual. Os calouros os tratam como troféus em incontáveis desfiles pelo campus, tirando apenas para assistir às aulas. Quando tirarem o chapéu, meses depois, já estarão definitivamente integrados ao mundo acadêmico. Ao receberem diploma, cinco anos mais tarde, não serão apenas profissionais. Serão integrantes de uma nação repleta de tradições, muitas não escritas. Serão confrades eternos, membros de uma espécie de maçonaria a campo aberto, em que a menção do A Encarnado, símbolo informal da Esalq, abrirá portas e aproximará pessoas de gerações distintas pelo simples fato de ser esalqueano.
Piracicaba não é só Esalq, mas deve muito a ela. O conhecimento gerado ali transformou a cidade em um importante polo agroindustrial, epicentro do setor sucroenergético brasileiro e, mais recentemente, do movimento de startups voltadas ao agronegócio. Pode-se dizer que a cidade gravita em torno da escola e respira a juventude de seus alunos.

Leia também: Esalq, história e números

A cada dia circulam pelo campus da Esalq cerca de 2 mil estudantes de graduação. Praticamente a metade está matriculada no curso de Engenharia Agronômica. Os demais estão distribuídos entre outros seis cursos. Há ainda perto de mil alunos inscritos nos programas de pós-graduação. Ali, adquirem conhecimento técnico e currículo acadêmico de reconhecido prestígio. Boa parte das experiências transformadoras e da valiosa rede de contatos e relacionamentos que carregarão em sua bagagem quando deixarem Piracicaba será construída em outras instituições não menos fundamentais na formação dos esalqueanos: as dezenas de repúblicas onde mora boa parte dos alunos, tradição que em muitos casos vai passando de geração para geração dentro das famílias.

Em muitas cidades universitárias mundo afora, repúblicas são opções de moradia mais barata para estudantes que vêm de fora da cidade, inclusive de outros estados. Não nos arredores do campus, em Piracicaba. Há na cidade mais de 60 repúblicas, algumas com décadas de existência. A Copacabana, mais antiga delas, data de 1923. Mais que um endereço, elas representam um espírito. “A Esalq, fora das salas de aula , nos deu muito mais do que o conhecimento de excelência”, define Fernando Sampaio, agrônomo formado em 1997, em artigo que inaugura, nesta edição de PLANT, a coluna “Esalqueanos”. “Esse muito mais traduz-se nesse sentimento de irmandade que acomete os esalqueanos pela vida toda, sentimento forjado nas alegrias e tristezas, nas agruras do primeiro ano, na vida da república, nas ruas de Piracicaba, nas celebrações, nos amores esalqueanos, nas amizades esalqueanas”, escreve Sampaio, diretor executivo da Estratégia Produzir, Conservar e Incluir do estado do MatoGrosso.

Como explicar que até mesmo alunos que já eram moradores da cidade trocam o conforto da casa dos pais para coabitar um lugar onde tudo é dividido, todos têm obrigações e devem seguir uma série de regras de convívio? “A convivência nas repúblicas é um período que ajuda a criar vínculos e a respeitar o espaço, as necessidades e as limitações do outro”, responde o consultor Marco Lorenzzo Cunali Ripoli, agrônomo formado pela Esalq em 1999. Apesar de a família morar em Piracicaba, ele viveu cerca de um ano e meio na república K-Zona (preste atenção nesta grafia, pois ainda vamos falar a respeito). “Eu era um agregado. É assim que são chamados os nativos que saem de casa para viver nas repúblicas”, acrescenta Ripoli, que na Esalq também fez mestrado em Máquinas Agrícolas, segmento no qual atuou por muito tempo. O interesse em morar numa república também pode ter sido motivado pela tradição. Seu avô, Romeu Ítalo Ripoli, se formou em Engenharia Agronômica pela Esalq em 1940; o pai, Tomaz Caetano Cannavam Ripoli, em 1970.

CASA NOVA

Leia também o texto de Fernando Sampaio na estreia da coluna “Esalqueanos”

Os laços e a camaradagem começam a se formar já no processo que define quem vai morar onde e que começa pela interessante disputa entre as repúblicas por possíveis novos moradores. Depois de matriculados, os “bixos” são convidados a conhecer as moradias, onde podem passar até um mês sem desembolsar um tostão. A hospedagem durante essa fase, conhecida como estágio, fica por conta dos veteranos, ou “doutores”. Por duas semanas, durante o período de estágio, repúblicas abrem as portas e oferecem refeições aos candidatos.

Como há sempre gente saindo, a renovação é essencial, pois a conquista de novos moradores representa a continuidade da república. “Quando não há bixo as condições vão mudando e, às vezes, é preciso buscar um lugar menor, readequar os serviços da casa, como internet, por exemplo”, analisa Ripoli, ou melhor, o “Hulq” — todos os estudantes ganham, durante a graduação, um apelido. A definição do novo nome pode vir de uma analogia ao apelido de um parente que esteve ou está na escola, uma brincadeira com o sobrenome, da referência a alguma característica física ou até mesmo a um acontecimento engraçado nessa chegada. Vale ressaltar: fala-se com orgulho dessa nova identidade. Ela será sua marca pessoal, para sempre, entre os irmãos esalqueanos.

O vocabulário com grafia própria, citada parágrafos atrás, é outro fator característico da cultura esalqueana, tanto em relação ao nome das repúblicas quanto para os apelidos dos alunos. Em muitos casos, uma letra substitui uma sílaba, pois sua sonoridade já é suficiente, a exemplo da K-Zona. Há também a proposital troca de letras, como o apelido do Ripoli, que não tem o “k” do nome original do super–herói da Marvel Comics. Parece até que os esalqueanos já previam como seria a digitação na era das redes sociais e dos aplicativos de mensagens, como o WhatsApp.

Ao término do estágio, o “bixo” opta por seu endereço em Piracicaba e os moradores dão seu veredicto sobre a validação dessa escolha. Cada grupo tem lá seu jeito de fazer esse comunicado, mas de maneira geral é comum haver todo um suspense antes de o calouro receber a camisa da república com seu número, consolidando a aceitação por sua nova “família”. Entre os diversos fatores que envolvem essa decisão, um dos mais relevantes é a recíproca afinidade. Os “doutores” também fazem questão de avisar os pais do “bixo” sobre a admissão. Como não poderia deixar de ser, toda essa cerimônia é também motivo para festejar, uma prática, digamos, frequente na agenda dos esalqueanos.

LIBERTAÇÃO

Resolvida a questão da moradia, os calouros ganham o chapéu do esalqueano. O “acessório” de palha, que tem anotado o apelido e o curso do aluno, deve ser utilizado permanentemente até o dia 13 de maio, quando é celebrada a “libertação dos bixos” — então, o chapéu vira artigo de decoração na casa. Tudo isso é tratado com muito bom humor, pois, como dizem os próprios esalqueanos, o objetivo maior é agregar as pessoas, criar e fortalecer
esse vínculo que será preservado a vida toda e se divertir.

Um bom exemplo da influência transformadora que vem da formação na Esalq é a história de Rodrigo Gutierrez, agrônomo formado em 1993 e presidente da Adama Brasil, indústria de agroquímicos com forte investimento em inovação tecnológica. Nascido em uma família de agricultores, tanto de um lado quanto do outro, tem uma conexão muito forte com a escola. Seus pais, Otávio e Anita, e mais dois irmãos, Lucas e Francisco, também são egressos da Esalq. Sua mãe, inclusive, se formou primeiro em Economia Doméstica (1970) e depois em Engenharia Agronômica (1975). “Na minha família, se não for agrônomo e formado pela Esalq não dá registro”, brinca Gutierrez, ou “Speto”, como era chamado na escola.

O executivo conta que foi durante o período em que residiu na república Lesma Lerda que fez suas maiores amizades, além de ter aprendido muito sobre convivência, tolerância e respeito. “Você passa várias horas do seu dia com pessoas bem diferentes e de diversas origens, então precisa entender as preferências e restrições”, conta o executivo, que acrescenta: “Forma-se uma base pessoal única, com relacionamentos fantásticos, inclusive com repúblicas vizinhas”. É exatamente por esse aprendizado que faz questão de que seus filhos, um casal de adolescentes, também vivam essa experiência. “Quando completarem 18 anos, vão morar em república e aprender
a viver no mundo.”

Essa conexão entre os esalqueanos é tão forte que extrapola os limites da convivência, não depende de compartilhar a sala de aula ou a moradia. “Quando você entra na Esalq e entende o espírito da escola, dá liberdade a outros esalqueanos de falarem com você como se fossem amigos, tudo por conta desse processo de integração”, comenta Gutierrez. Para o agrônomo, há ainda uma grande contribuição para seu papel como líder que precisa se relacionar com diversas equipes e diferentes indivíduos.

SEGUNDA FAMÍLIA

“A formação técnica foi fundamental no início, mas acredito que as relações e competências pessoais exercitadas durante o período da graduação possam ter contribuído de forma ainda mais relevante”, afirma Rodrigo Santos, líder da Monsanto para a América do Sul. Esalqueano da turma de 1995, Santos ganhou o apelido de “Hussen” e morou na república UTI. “Foram anos incríveis e de uma relação de grande amizade, o que acrescentou muito para o meu desenvolvimento pessoal, respeitando as diferenças e negociando pontos de vista diversos.” Embora não haja outros agrônomos na família, Santos começou a se envolver com a produção agrícola desde cedo, ajudando o pai e o avô na plantação de laranja, em uma pequena propriedade que tinham em Limeira, no interior de São Paulo. Embora a opção pela agronomia parecesse algo natural, naquela época Santos não estava tão seguro quanto a esse caminho.

Veja também o infográfico: O Mapa das Repúblicas da Esalq

Hoje, não lhe restam dúvidas de que a escolha foi acertada. “A Esalq oferece ao estudante uma oportunidade única de formação técnica e crescimento pessoal”, diz ele, mas ressalta: “A responsabilidade de aproveitá-la é toda do aluno”.Eis um ponto que parece pacífico nas novas gerações que frequentam a escola atualmente. A reportagem de PLANT visitou algumas das mais tradicionais repúblicas no início de março. Cada uma tem uma história e um estilo. Elas nem sempre foram uma unanimidade em Piracicaba. Houve períodos em que algumas delas eram malvistas pela vida desregrada, pelo barulho ou pelo tratamento a que submetiam os bixos. Vizinhos reclamavam e houve até movimentos na cidade pedindo a proibição das repúblicas. A pressão surtiu efeito, a própria comunidade tratou de se organizar – foi criado até mesmo um conselho municipal de repúblicas – e elas voltaram a ser uma instituição estimada em Piracicaba.

Hoje, praticamente todas as casas seguem normas de conduta semelhantes e compartilham valores que priorizam
o envolvimento acadêmico, o respeito e, desde cedo, o orgulho de estar na Esalq. Os espaços de estudo, por exemplo, são território sagrado – em algumas delas, é proibido até levar o celular, para não dispersar a atenção. Os “doutores” zelam pelos “bixos” e muitas vezes até ex-moradores contribuem com a formação da garotada.

“Tenho 50 anos de idade e a molecada que está lá agora tem a metade disso ou menos, mas quando passo para fazer uma visita essa diferença não nos impede de conversarmos como amigos”, afirma André Malzoni dos Santos Dias, o RG, formado na turma de 1990. Ele conta que já ensinou até mesmo um dos novatos a andar de bicicleta.
“Há situações em que falamos até sobre assuntos que os mais jovens têm dificuldade de discutir com seus pais”, diz.

REDE SOCIAL

Dias, que morou na república Gato Preto, hoje tem um papel relevante na conexão, de forma mais organizada e sistematizada, dessa nação de esalqueanos. Acaba de assumir a presidência da Associação dos Ex-Alunos da Esalq (Adealq), entidade que completa 75 anos agora em 2018. Há vários anos já atuava nos bastidores pela modernização da associação, ajudando a dar continuidade nas transformações realizadas por gestões anteriores. “Nos últimos 15 anos houve grandes avanços, como a formação de uma plataforma de comunicação envolvendo site, revista e, mais recentemente, o aplicativo para smartphones”, comenta Dias.

As ferramentas têm como objetivo agregar egressos sem distinção. “Somando todos os cursos, são cerca de 14 mil ex-alunos de graduação e em torno de 4 mil de pós, e queremos reunir todo mundo”, afirma Dias. Lançado em 2015, o aplicativo foi sucesso imediato. “Ele se tornou a ferramenta mais importante para nosso principal objetivo, que é conectar as pessoas. E hoje, entre 60% e 70% do acesso ao mundo virtual é mobile, então temos de estar nesse meio.” Já conta com cerca de 7 mil cadastros atualizados e ainda traz informações como oportunidades profissionais, serviços prestados pela Esalq e dados de mais de 200 empresas de esalqueanos — o próprio Dias faz parte dessa lista, pois é sócio da Spark Smarter Decisions, companhia de serviços de informação estratégica pesquisas de mercado com foco no agronegócio.

A Adealq é mantida com o apoio de mantenedores, organiza eventos e também difunde conhecimento, através da publicação de artigos dos esalqueanos. Com o site e o aplicativo, transformou uma rede informal, que se materializava nos famosos churrascos da instituição e uma linha de produtos (bonés, camisetas etc.), numa espécie de rede social que possibilita interação, à distância, entre os esalqueanos. Através das ferramentas digitais, permite que se encontre um colega, se descubra novos e se contate qualquer pessoa dessa rede de networking, provavelmente a mais influente do agronegócio nacional. “As atividades que antes eram muito concentradas entre professores passaram a ser compartilhadas com ex-alunos e empresários”, conta.

TRADIÇÕES RENOVADAS

Da mesma forma que a tradição sustenta alguns dos diferenciais da Esalq, a capacidade – até mesmo por necessidade – de se adequar às mudanças demandadas pela sociedade também agrega valor à instituição. A diversidade entre os integrantes que compõem a diretoria executiva e o conselho consultivo da Adealq, que ganhou uma maior participação feminina, é um reflexo disso. Na Esalq, hoje, cerca de 50% dos novos alunos são mulheres. Na Adealq, uma delas ocupa agora a direção-geral. Daniela Fabiana Coco, a “Kokão”, é gerente sênior em Agribusiness na PricewaterhouseCoopers (PWC).

Logo que ingressou no curso de Engenharia Agronômica da Esalq, em 1994, Daniela percebeu que sua vida como estudante seria desafiadora. A começar pela escolha da moradia. Durante seu estágio, gostou muito da república Sempre Livre, mas não pôde ficar por lá, pois não havia espaço e as moradoras não pensavam em se mudar para uma casa maior. A caloura se juntou a mais quatro garotas e fundou O Beko. “Foi um desafio muito grande para todas. Como ainda estávamos no primeiro ano, recebemos ajuda de muita gente sobre como coordenar tudo, gerir a casa, fazer compras”, lembra Daniela.

Mas se o início foi desafiador, a convivência trouxe grandes recompensas. “A maior influência que tive naquele período foi aprender a ouvir e entender que não se ganha nada no grito, algo que é ainda mais fundamental nos dias de hoje.” Daniela se formou em 1999, um ano após sua turma. Essa diferença é exatamente o período em que trancou a matrícula para morar em Israel, onde trabalhou em fazendas de pecuária leiteira com altíssima produtividade. Depois de formada, ampliou sua experiência fora do País. Fez mestrado na Nova Zelândia e trabalhou na Fonterra, principal companhia produtora de leite daquele país e uma das mais importantes do mundo. “Contou muito o fato de ser esalqueana.”

O Beko está a caminho de completar 25 anos e Daniela continua a ter contato com as moradoras, facilitado, claro, pela tecnologia. “Temos um grupo no WhatsApp e sempre trocamos informações”, confirma. As novas moradoras querem ouvir histórias antigas da república, têm curiosidade de saber como eram as meninas donas dos chapéus que ficaram na casa, quais eram os valores e como era o convívio.

“Eu chamo a república de minha casa até hoje”, diz Ana Thereza Ferraz de Almeida Rochelle, engenheira agrônoma que deixou a Esalq, com diploma na mão, em 2010. Enquanto esteve lá, era chamada de T-ta pelas colegas da Café com Leite. “Era uma casa bem legal, a uns três quarteirões da escola. Mas o que faz você optar é o perfil das pessoas, acaba se identificando. E vai ficar ali durante toda a graduação”, relata.

O encantamento de Ana Thereza veio bem antes de decidir para qual república iria. Já no ato da matrícula ela viu que o ambiente era bem diferente. Muita gente se aproxima, quer mostrar como é tudo, os lugares dentro do campus. “Há muito orgulho dessa tradição. É até curioso que o pessoal não diz que vai para a faculdade, mas sim para a escola”, comenta. “Me surpreendeu, quando entrei na sala de aula, o fato de não ver uma carteira riscada. Há um amor, um respeito muito grande e uma preocupação em não depreciar, em cuidar da escola e das pessoas.” Segundo a agrônoma, conforme vão conhecendo mais e melhor a escola e sua história, as outras repúblicas, os outros estudantes, esse sentimento só aumenta.

Ana Thereza vive hoje uma nova fase dentro da nação Esalqueanos: a de entender como as conexões se transformam em networking e possíveis laços profissionais. Assim que se formou, ela recebeu uma proposta de seu pai, Luiz Henrique Rochelle, para formarem a ATR – Rochelle Projetos Agropecuários, empresa que faz o meio de campo entre agricultores e pecuaristas em busca de financiamento e as instituições financeiras. Em muitos casos, é da rede esalqueana de relacionamentos que vem a ajuda para acelerar algum processo de levantamento de informações. E a agrônoma lembra que essa via é de mão dupla, pois sempre que alguém dessa comunidade necessita de apoio, está pronta para socorrer.

Para a jovem Laura Monteiro Malzone chamar a república de sua casa não é saudosismo. Ela ainda é moradora da república Maga Donaire. Aluna do curso de Engenharia Agronômica, Laura, que ganhou o apelido de “Lobato”, vai se formar em julho deste ano. Neste momento, está fora do País, acompanhando um experimento na University of Tasmania, no Sul da Austrália, que avalia a viabilidade econômica de um novo sistema de irrigação para grãos. Essa experiência é um exemplo das conexões esalqueanas. O encaminhamento de Laura veio de Durval Dourado Neto, vice-diretor da Esalq, com quem já havia feito um estágio profissional.

Laura tem um perfil diferente da maioria dos alunos que buscam a Esalq. Nascida no bairro do Tatuapé, na Zona Leste da cidade de São Paulo (SP), teve uma criação totalmente urbana. Diante das dúvidas naturais de quem começa a escolher o curso superior, chegou a pensar em publicidade. Seu pai insistiu para que tentasse USP, e buscasse algum curso de engenharia. Acabou optando por agronomia porque tinha na base três disciplinas de que ela gostava bastante: química, física e biologia. “Mas não conhecia nada de solo, não sabia o que era um pivô e tinha medo de vaca”, lembra a estudante. O contato direto com esses temas e a nova percepção sobre o agronegócio logo mudaram sua visão: “Em Piracicaba o produtor rural é muito valorizado”.

Mesmo não tendo terminado o curso, Laura já está na lista de empreendedoras do agronegócio, e fazendo jus a sua juventude. Com 23 anos de idade, tornou-se uma youtuber. Em seu canal Agronãomia, apresenta-se como a primeira do gênero especializada em agronegócio e coloca em pauta diversos temas pulsantes sobre a produção agrícola, como o uso de defensivos agrícolas e os alimentos orgânicos: “Até por minha origem urbana, senti que faltava muita informação sobre o assunto. Também havia muita notícia equivocada sobre a produção de agricultura orgânica”. O fato de ser esalqueana acabou ajudando na divulgação do canal. “É muito interessante, pois primeiro o pessoal abraça você e depois abraça a causa”, diz Laura. Esse é o espírito da nação esalqueana.

Essa rede de conexões, hoje potencializada pela Adealq, é um reflexo da tradição que vem da própria escola, uma relação muito particular que não se vê em outras instituições. Ao menos não com tal abrangência e tamanha intensidade. A situação é a seguinte: quando esalqueanos se encontram, ainda que não se conheçam, que nunca tenham se visto, basta identificarem a origem acadêmica em comum para se verem como velhos amigos, cidadãos com uma mesma nacionalidade.

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