Arqueologia dos alimentos reconta a nossa história

Como os pesquisadores e arqueólogos usam a agricultura para rever a evolução das civilizações

“Se nossa floresta tem mesmo valor para o mundo, por que o Brasil não é reconhecido e recompensado como grande guardião desses recursos?”

Caio Penido, ativista agroambiental e empresário, Top Farmer Sustentabilidade 2018


Edição 7 - 08.01.18

Por Débora Crivellaro

Um prato de comida pode contar muita história. Até mesmo a História com H maiúsculo, o mesmo de Humanidade. Estudar a origem de determinados alimentos e como eles foram cultivados pelos homens há milênios é uma ótima maneira encontrada pelos arqueólogos para recompor os passos das civilizações. Eles têm se debruçado sobre o tema, inclusive nos centros de pesquisa científica do Brasil. Recentemente, em 9 de outubro, foi divulgado o estudo Nature Ecology and Evolution, uma parceria entre pesquisadores brasileiros e ingleses, que encontraram evidências de domesticação do arroz por populações indígenas do sudoeste da Amazônia, há cerca de 4 mil anos. Seria o primeiro registro da planta nas Américas. Mas esse é apenas um dos trabalhos que ocorrem na região sobre o tema. Sabe-se que havia cerca de 8 a 10 milhões de índios na Amazônia antes de os europeus chegarem. E que muitos deles eram também agricultores com razoável nível de sofisticação. Eles selecionavam e cultivavam suas plantas, a ponto de alterar suas propriedades, faziam valas circulares visíveis a quilômetros de altitude e construíam reservatórios de água.

Para seguir adiante nas descobertas, os arqueólogos se uniram aos biólogos. “Perto de sítios arqueológicos, há uma maior diversidade de árvores usadas pelos índios”, diz a bióloga Carolina Levis, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) e da Universidade de Wageningen, na Holanda. Seu estudo foi publicado pela revista Science e registrado como o primeiro a estabelecer a relação entre arqueologia e botânica. Ela conseguiu detectar 85 espécies usadas e domesticadas pelos índios, como açaí-do–mato, castanha-do-pará e seringueira.Na mais recente descoberta, que diz respeito ao arroz, constatou-se que os agricultores da Pré-História sabiam manipular o tipo selvagem da planta para que ela produzisse grãos maiores e proporcionasse safras mais abundantes. Mas esse conhecimento, no entanto, foi perdido depois da chegada do colonizador europeu, no final do século XV, que quase levou os índios ao extermínio. A equipe, chefiada por José Iriarte, da Universidade de Exeter, no Reino Unido, e Eduardo Góes Neves, do Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo (USP), analisou 16 amostras de restos microscópicos de arroz encontrados no sambaqui de Monte Castelo, em Rondônia. As escavações no sítio arqueológico abrangeram dez períodos de ocupação da região.

Escavações em sítios arqueológicos em Rondônia: descobertas mudaram visão da ciência sobre o início do plantio do arroz

O biólogo americano Charles Clement, do Inpa, focou seus estudos na Amazônia para procurar pistas no material genético das plantas encontradas. Ao se debruçar sobre a pupunha, ele verificou que a domesticação dessa palmeira começou na Amazônia boliviana e se espalhou por duas rotas. Na Amazônia Ocidental, era cultivado um tipo bom para fermentação, que produzia uma cerveja muito apreciada pelos índios. Nas regiões de Manaus e Belém, os frutos, ricos em óleo, não fermentavam bem, então serviam como alimento. Uma doutoranda orientada por Clement, Priscila Moreira, obteve bons resultados com a cuia. Ela rejeita a tese de que a fruta foi domesticada na Amazônia. Diz que ela chegou à floresta já domesticada e cruzou com a cuia silvestre, gerando híbridos que produziam cuias menores.

Em busca das origens dos povos da Amazônia, os arqueólogos Eduardo Góes Neves, do MAE, e Fernando Almeida, da Universidade Federal de Sergipe, começaram a escavar há dez anos em Rondônia, perto de Porto Velho. Lá encontraram terra preta em abundância, resultado de sucessivas queimadas que destroem a matéria orgânica, inclusive excrementos – o que sugere uma população numerosa por um período prolongado. O pH quase neutro desse solo preserva vestígios de plantas, cerâmicas e outros indícios de vida humana, de até 6,5 mil anos atrás. “Nessa época já havia plantas domesticadas”, diz o professor Neves. Há indícios de que o cultivo de mandioca começou ali, principalmente para fazer cerveja. Também encontraram amostras antigas de abóbora, feijão e milho, no interior de fragmentos de cerâmica, o que sugere o uso para alimentação.

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O CASO DO MILHO
Mas nem só de Amazônia vivem os arqueólogos. Há relatos de identificação de vestígios de consumo de mandioca, feijão e talvez inhame, além dos tradicionais milho e abóbora, num sítio no planalto de Santa Catarina. Lá estavam os Proto-Jê, povos indígenas que viviam entre o sul de São Paulo e o norte do Rio Grande do Sul na primeira metade do milênio passado. Os pesquisadores descobriram resíduos de amido associados a esses vegetais em 14 fragmentos de cerâmica encontrados em duas estruturas subterrâneas que parecem ter sido usadas para cozinhar.

O milho é um dos alimentos mais antigos de que se tem notícia. No Brasil, a possível origem dessa planta cultivada pelos índios nos últimos milhares de anos revelou um intercâmbio entre as populações primitivas das Américas. Pesquisadores da Embrapa analisaram amostras de milho encontradas no Vale do Peruaçu, norte de Minas Gerais e outras fornecidas por agricultores brasileiros e do Paraguai. Complementaram os dados com informações de estudos que investigaram grãos arqueológicos de países andinos e amostras atuais coletadas do sul dos Estados Unidos até o Chile. Ao analisarem as amostras, constataram que existiam três variantes. Todas ocorrem no milho do México, onde se estima que a planta foi domesticada há 7 mil anos. Na América do Sul, porém, houve uma nítida separação.

Nos Andes, do Peru ao Chile, havia um milho com uma variante mais simples, chamada primitiva, provavelmente levado para a região por uma migração ocorrida há 5 mil anos. No Brasil, o milho tinha outro tipo de variante, a complexa, e pode ter sido trazido por migrantes que entraram na América do Sul pelo Panamá há 2 mil anos e se adaptaram às regiões de terras baixas. No estudo, os cientistas sugerem que houve pouco intercâmbio, ao menos em termos alimentares, entre os grupos que habitavam essas duas regiões distintas, uma vez que somente na porção sul do continente detectou um padrão diferente: características do milho dos Andes em amostras recentes do Paraguai e de milho das terras baixas em material arqueológico do Chile.

A mandioca já era consumida nas florestas tropicais entre 7 mil e 5 mil anos atrás, indicando que os antigos índios já praticavam a agricultura em um ambiente que até agora era considerado hostil demais a essa forma de ocupação humana. Os restos de grãos de amido da mandioca mais antiga já encontrada estavam associados a pedras utilizadas para moer raízes por antigos índios no sítio arqueológico de Aguadulce, no Panamá. Trabalhos científicos mostram o papel que os índios da floresta tiveram na disseminação da agricultura. Alguns estudiosos sugeriram que o consumo de mandioca foi o combustível de movimentos populacionais de larga escala que levaram a cultura e as pessoas para outros locais da América do Sul. Também indicam que os antigos índios dessa região contribuíram para a passagem de uma economia de caça e coleta para uma agrícola e que o fizeram de modo independente de outras regiões das Américas onde também surgiu a agricultura.

BATATAS HISTÓRICAS
As batatas são mais recentes, mas são alimentos fundamentais para se contar parte da história da sociedade. Restos de batatas com 3,8 mil anos foram descobertos na costa canadense do Pacífico. Elas se tornaram “a primeira prova” de que as populações autóctones da América do Norte já cultivavam o tubérculo há quase quatro milênios. O batatal foi descoberto nas terras ancestrais da tribo Katzie, hoje pertencentes à província de Colúmbia Britânica. Os pesquisadores da Universidade Simon Fraser, responsáveis pela descoberta, concluíram que as populações indígenas da região aproveitaram áreas pantanosas para aumentar a produção daquelas plantas alimentares selvagens. A tribo local teria colocado pedras para delimitar o terreno cultivado e impulsionar o crescimento dos “wapatos”, o equivalente às atuais batatas. Os arqueólogos encontraram também 150 fragmentos de utensílios moldados pelo fogo no local da escavação, que consideram ser as pontas de ferramentas que serviam para lavrar a terra. O equivalente antigo da batata, que crescia entre outubro e fevereiro, era para as tribos indígenas uma importante fonte de amido durante os meses de inverno.

As descobertas referentes à origem e ao início do cultivo das batatas, hoje um alimento presente na dieta diária de países de todos os continentes, apontam, porém, para uma data ainda mais antiga. Evidências encontradas por arqueólogos da Universidade da Califórnia (Merced) indicam que a batata foi domesticada pelos povos andinos há mais de 8 mil anos, nas terras altas que vão do Peru ao norte da Argentina. Atribui-se aos incas a aculturação do tubérculo, levado à Europa no século XVI pelos espanhóis, que invadiram a região.

Havia muitas variedades de batatas, tanto que o Centro Internacional de Batatas do Peru preservou 5 mil variedades delas. As batatas das montanhas tinham em sua composição solanina e tomatina, compostos tóxicos que se acreditava serem capazes de defender os tubérculos dos ataques de organismos perigosos, como fungos e bactérias. Como o calor do cozimento não afetava essas substâncias, os povos das montanhas lambiam guanaco e vicunha, mamíferos que são espécies de lama, antes de comer as raízes, como forma de antídoto. Eles também aprenderam a mergulhar batatas selvagens em uma espécie de molho de argila para se proteger do veneno. Comiam de várias formas: cozidas como purê, picadas e secas, como papas secas, e o mais usual, o chuño, que consistia em congelar batatas nas noites frias para descongelá-las nas manhãs de sol do dia seguinte. Elas podiam ser manuseadas até virar uma espécie de nhoque.Ainda hoje, alguns aldeões andinos celebram a colheita de batatas, como os ancestrais fizeram nos séculos passados. Imediatamente depois de arrancar batatas do chão, as famílias nos campos empilham o solo em fornos em forma de iglu, com cerca de 50 centímetros de altura. Nos fornos vão os talos, bem como palha, escova, restos de madeira e esterco de vaca. Quando os fornos ficam brancos com o calor, colocam as batatas frescas nas cinzas para assar. O vapor exala dos alimentos quentes para o ar claro e frio. As pessoas mergulham suas batatas em sal grosso e argila comestível. Os ventos noturnos carregam o cheiro de batatas assadas por muitos quilômetros. Assim, a história de uma civilização se espalha e mantém-se viva.

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