Precificando os dados agrícolas

Os dados do campo têm claro valor, mesmo que não seja fácil atribuir um valor em dólar


Edição 7 - 02.01.18

Joseph Byrum é cientista de dados no Principal Financial Group, gestora de investimentos com sede em Des Moines (Iowa – EUA)

Por Joseph Byrum

Como podemos atribuir valor aos dados que vêm da lavoura? Não existe uma resposta simples para esta pergunta.

A velha conhecida campanha publicitária “não tem preço” da Mastercard retratou em uma série de comerciais a dificuldade de atribuir valor a algumas coisas, destacando a facilidade de especificar o valor de certos produtos físicos. Um pai que leva o filho a um jogo de baseball paga US$ 91 por ingressos, comida e uma bola de baseball autografada – e, claro, tudo pago no cartão. Cada item tem um valor claro e determinado. Mas o valor intangível da conversa entre pai e filho nesse passeio não tem preço. A mesma analogia pode ser usada no campo, onde terras, sementes, água, fertilizantes, produtos de proteção da lavoura, máquinas agrícolas, combustível, sensores, mão de obra e software têm preço que pode ser facilmente definido. Em contrapartida, os dados gerados ao trabalhar a terra com cada um desses itens não têm um preço definido, mas, ao mesmo tempo, há alta demanda de acesso a essas informações. Os dados do campo têm claro valor, mesmo que não seja fácil atribuir um valor em dólar.

O VALOR DOS DADOS NA PRODUÇÃO DA SOJA
Para entender o valor potencial desses dados, vejamos um exemplo do que os dados gerados no campo podem fazer pelos produtores de soja. Indiscutivelmente, os Estados Unidos dominam a produção de soja. De acordo com o USDA, Departamento de Agricultura dos EUA, das 351 milhões de toneladas estimadas que serão produzidas neste ano no mundo, cerca de um terço – 117 milhões – virá dos campos dos EUA. Contudo, surpreendentemente, faltam ape­nas 3 milhões de toneladas para que o Brasil tome dos Estados Unidos o título de maior produtor mundial de soja, algo que seria impensável há apenas uma década. O que mudou nos últimos dez anos? O Brasil sempre esteve 28 milhões de toneladas atrás dos produtores norte-americanos, mas o País avançou rapidamente, praticamente dobrando a produção de soja, e ainda conseguindo manter uma vantagem de 12% no custo de cultivo por hectare. (US$ 364,09 nos Estados Unidos comparados a US$ 324,33 no Brasil.) O USDA diz que o segredo por trás do salto do Brasil na produção de soja é o “desenvolvimento de novas tecnologias de sementes pela Embrapa”. A Embrapa é a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, uma organização que coordena os esforços de pesquisa agrícola pública e privada do País, com o objetivo de replicar, em menor escala, a Revolução Verde da década de 1960. A combinação da adoção em larga escala de técnicas de plantio direto no Brasil com o desenvolvimento de genética avançada de soja especificamente adaptada ao clima sul-americano e às condições do solo produziu o resultado desejado. Nunca teria sido possível desenvolver cultivares avançados em tão pouco tempo sem o poder daquilo que a organização chama de computação científica. “Com a crescente disponibilidade de recursos de infor­mática”, explica um white paper da EMBRAPA, “novas técnicas de análise foram desenvolvidas para analisar dados em geral dos quais a pesquisa agrícola tem muito a se beneficiar. Dados de pesquisas acumulados há anos agora podem ser avaliados via prospecção de dados (data mining) e experimentação, otimizadas com a ajuda da simulação”.

Resumidamente, o sucesso do Brasil está ba­seado em dados.

AS LIÇÕES PARA OS PRODUTORES DOS EUA
Isso deve servir como um alerta para os produtores de soja norte-americanos, pois sua posição dominante no mercado global já não é algo que possa ser presumido. O futuro sucesso dos produtores norte-americanos depende de aproveitar ao máximo os dados agrícolas.

Esse sucesso do Brasil teve um custo para os produtores norte-americanos, que hoje se deparam com preços exatamente iguais aos de 2010. Isso colocou uma enorme pressão sobre os produtores de soja dos EUA para reforçar seus lucros aumentando a produtividade. A boa notícia é que os preços das ferramentas de coleta de dados agrícolas – sensores remotos, VANTs (drones) e imagens de satélite – continuam a cair à medida que os recursos melhoram rapidamente. As ferramentas de software para gestão agrícola estão se tornando mais poderosas e as empresas startups oferecem soluções para ajudar os produtores a aproveitar ao máximo a oportunidade oferecida pelos dados. Quanto vale essa oportunidade?

Nossas análises mostram que os agricultores americanos poderiam juntos ganhar US$ 45 milhões a mais todos os anos, simplesmente usando técnicas de análise de dados para escolher a melhor semente para a próxima safra, em vez de confiar no que funcionou melhor no ano anterior. Os produtores individuais que aproveitarem o plantio de sementes com base em dados poderão aumentar significativamente o retorno, e este é apenas um exemplo do que é possível. Agora, imagine o poder coletivo dos agricultores norte-americanos combinando o conhecimento disponibilizado pelos dados de suas propriedades para melhorar as técnicas de gestão e a genética da soja. O valor total da safra de soja dos EUA é US$ 38 bilhões, o que significa que cada ponto percentual ganho em produtividade vale US$ 380 milhões a mais por ano.

Aproveitar ao máximo os dados agrícolas exige um investimento inicial em sistemas de coleta e análise de dados, itens que têm custos estabelecidos e fáceis de definir. Os benefícios do aumento da produção que a agricultura de precisão viabilizará são mais difíceis de determinar, uma vez que os benefícios são especulativos. No entanto, o que aprendemos com a experiência do Brasil é que esses ganhos excedem de longe os custos.

Portanto, existe uma série de valores possíveis que a maximização do uso de dados pode trazer aos produtores individuais, porém talvez seja suficiente saber que os dados agrícolas são essenciais para o sucesso. Na amigável rivalidade entre os produtores de soja da América do Sul e da América do Norte, manter a posição de liderança global na próxima década pode “não ter preço”.

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