Prepare-se para o futuro da comida

Como a tecnologia e novos hábitos de consumo podem mudar a produção de alimentos


Edição 3 - 15.01.18

Por Nicholas Vital

A agricultura existe há cerca de 10 mil anos e desde então tem sido fundamental para o desenvolvimento dos povos em todo o mundo. O domínio da arte de plantar e colher fez com que o homem deixasse a vida nômade de lado e, pela primeira vez na história, se fixasse na terra. A atividade evoluiu lentamente até o início do século XX, quando a profissionalização do setor levou a uma profunda transformação na forma como os alimentos são produzidos. As principais culturas foram adaptadas a novos locais de cultivo, o plantio foi mecanizado, as sementes melhoradas, novas tecnologias para correção de solos e defesa contra pragas invasoras foram descobertas. O resultado disso foi um aumento expressivo na oferta global de alimentos, o que possibilitou o crescimento em escala jamais vista da população mundial. Se em 1900 o planeta abrigava algo em torno de 1,5 bilhão de pessoas, hoje somos mais de 7 bilhões. Até 2100, a expectativa é de que esse número ultrapasse a marca de 11 bilhões de habitantes. Os números não deixam dúvidas de que será preciso um novo salto de produtividade nas lavouras para alimentar a população crescente. O problema, no entanto, é que esse aumento não poderá se dar a qualquer custo. Diante de consumidores cada vez mais exigentes e comprometidos com questões sociais e ambientais, fica a pergunta: como resolver essa equação?

Nos últimos anos, inúmeros experimentos relacionados à produção de alimentos têm sido realizados. Coisas que antes pareciam saídas dos filmes de ficção científica hoje são realidade em várias partes do mundo. São câmaras de cultivo indoor totalmente controladas por computadores, prédios inteiros dedicados à produção agrícola, carnes desenvolvidas em laboratório e vegetais mais saborosos e com teores mais elevados de nutrientes e vitaminas. Invenções que, mesmo restritas e testadas de forma experimental, já demonstram grande potencial. Para os especialistas, as novas tecnologias vieram para ficar. Segundo eles, será preciso deixar o preconceito de lado e rever a forma como produzimos nossa comida, uma revolução silenciosa que deve impactar toda a cadeia produtiva de alimentos. Modismos e avanços que se mostrarem viáveis do ponto de vista econômico, porém, dificilmente substituirão de maneira integral os modelos tradicionais de produção, já que a demanda crescente por alimentos. Prestar atenção a eles pode, no entanto, ser um exercício educativo até para os grandes produtores de commodities. Na era dos millennials – como são conhecidos os jovens nascidos após 1980, que viveram a maior parte de sua vida adulta já no atual milênio –, discussões em torno da origem dos alimentos serão cada vez mais cruciais, até mesmo na conquista (ou perda) de mercados.

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Muito mais do que quantidade, as novas gerações desejam produtos de qualidade, cultivados com respeito ao meio ambiente e de forma socialmente correta. Mais do que saber o que estão comendo, exigem transparência para conhecer a procedência e a forma de produção de cada ingrediente. Exigente, esse jovem consumidor tem pressionado as indústrias, que por sua vez repassam a pressão aos seus fornecedores, que são obrigados a se adequar à nova realidade, muitas vezes até revendo seus processos produtivos. Quando falamos em jovens, não estamos mais falando em meia dúzia de moleques mimados. Nos Estados Unidos, por exemplo, os millennials já são maioria. De acordo com um estudo recente do Pew Research Center, esse grupo é composto atualmente por quase 70 milhões de americanos e a sua influência no mercado de alimentos só tende a aumentar daqui por diante.

MAIS PERTO DA PRODUÇÃO
Lideradas por alguns desses millennials, uma série de startups focadas em novas tecnologias de produção de alimentos, ou simplesmente “food tech”, têm sido criadas em todo o mundo. Essas empresas surgem, geralmente, das necessidades desses jovens — em muitos casos diferentes das de seus pais, que formavam a chamada Geração X. Um exemplo recente é o movimento “Eat Local”, que fomenta o consumo de alimentos produzidos localmente, colaborando para o desenvolvimento da economia na região e ainda reduzindo a pegada de carbono desses produtos. O desejo dos consumidores por esse tipo de alimento tem feito com que cada vez mais as áreas urbanas até então ociosas sejam aproveitadas para o cultivo de frutas, verduras e legumes. As cidades, assim, vão se transformando em inusitadas fronteiras agrícolas (leia reportagem As Cidades entrem no Jogo da Comida). E qualquer espaço disponível pode ser visto como um centro produtivo.

Telhado verde no Shopping Eldorado, em São Paulo: tendência da agricultura urbana também ganha espaço no Brasil (foto: Divulgação)

Nos Estados Unidos, já é comum encontrar verdadeiras lavouras no topo de grandes galpões, sob linhas de transmissão de energia ou até mesmo em telhados residenciais. São inúmeras variações, desde instalações caseiras até equipamentos desenvolvidos especificamente para o cultivo alternativo. Em comum, todos eles têm o objetivo de aumentar a oferta de alimentos para a comunidade. Pioneira nesse mercado, a Omni Ecosystems foi fundada em 2006, em Chicago, como uma empresa especializada em estruturas para agricultura urbana e logo se transformou em referência em sistemas de cultivo especiais no topo de prédios e galpões, com plantações em operação em Boston, Indianápolis e São Francisco.

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O modelo de negócio da Omni ainda prevê que uma outra startup, a coirmã The Roof Crop, opere as áreas de produção, de graça, em troca de uma parcela dos alimentos colhidos. “O interessado precisa apenas arcar com a implementação das estruturas. Nós cuidamos de todo o resto, desde o plantio até a colheita, lavamos e embalamos os produtos seguindo todos os padrões de qualidade”, afirma Tracy Boychuk, uma das fundadoras da companhia. Segundo ela, são necessários apenas 10 centímetros de terra, o suficiente para cultivar a maioria dos vegetais. Já os tamanhos variam de acordo com a disponibilidade de cada local, mas podem ter de 50 a 500 metros quadrados. “Cultivamos melões, batatas, cenouras, feijão, couve, berinjela, framboesas, entre outros. Todos eles se desenvolvem muito bem.”, diz a executiva.

Mas em pelo menos uma experiência, na cobertura de um edifício de Chicago, a empresa decidiu semear grãos que normalmente são produzidos apenas em grande escala. Em uma área de pouco mais de 450 metros quadrados cultivou trigo, planta que se adapta bem ao frio da cidade. O desenvolvimento e a colheita surpreenderam a todos. Os grãos obtidos foram processados no próprio local e resultaram em cerca de 27 quilos de farinha.

A quantidade é pequena, mas o modelo tem gerado interesse e se mostrou replicável, sobretudo no que se refere à produção de hortaliças para consumo local. Toda a produção é dividida entre o dono do imóvel e a The Roof Crop, que vende o seu quinhão à vizinhança e em feiras livres na própria região. Projeto semelhante é desenvolvido desde 2012 na cobertura do Shopping Eldorado, um dos maiores e mais tradicionais de São Paulo. Lá, a produção de verduras, legumes e plantas medicinais surgiu como um complemento a um plano para eliminação de uma tonelada em resíduos orgânicos recolhidos diariamente nos restaurantes que operam no prédio. A compostagem desse material deu origem a um solo com nutrientes que passou a ser utilizado na horta, hoje fonte de alimentos frescos para cerca de 400 funcionários do shopping. Além disso, a presença do telhado verde ajudou a diminuir a temperatura do prédio, reduzindo gastos e consumo de água com ar condicionado.

A Aerofarms, em Nova Jersey (EUA): maior fazenda vertical do mundo

EDIFÍCIOS-FAZENDA

Em outros edifícios americanos, porém, a agricultura urbana é levada a um outro nível. Em Newark, no estado de New Jersey, fica a sede da AeroFarms, uma companhia fundada em 2004 que investe na produção de alimentos em larga escala dentro dos grandes centros, e já opera nove unidades de produção. A recém-inaugurada planta de Newark foi construída em um galpão que até pouco tempo atrás abrigava um campo de paintball e, com uma área total de 6,5 mil metros quadrados, já nasceu com o título de maior fazenda urbana do mundo. Dentro da instalação, o cenário é digno dos filmes de ficção. As mudas ficam milimetricamente enfileiradas, distribuídas por dezenas de colunas repletas de bandejas suspensas. Lâmpadas de LED especiais coloridas que mudam de intensidade ao longo do dia, substituindo a luz solar, dão um tom ainda mais futurista ao local. O ambiente, evidentemente, é totalmente controlado, com temperatura e humidade monitoradas 24 horas por dia.

Tanto cuidado tem o seu preço — embora não revelado, é sabido que o desembolso para manter uma estrutura como essa não é baixo. A contrapartida vem na forma de uma produtividade até 75 vezes maior se comparada a uma lavoura convencional, tudo isso usando 95% menos água e sem gastar um centavo sequer em fertilizantes ou defensivos. Uma tecnologia com um potencial gigantesco e que começa a se viabilizar graças ao apoio de investidores de peso, como o banco Goldman Sachs e os fundos de investimento GSR Ventures, Middleland Capital e Mission Point. “Nosso objetivo é construir fazendas urbanas em todo o mundo”, afirmou o fundador da AeroFarms, David Rosenberg, em entrevista recente ao The Huffington Post. “Nós estamos preparados para construir não uma, duas ou três fazendas, mas 20, 30, 50 fazendas”, garante o empresário, que já deixou claro em outras entrevistas o seu desejo de criar um império da agricultura do século XXI.

Rosenberg não é o primeiro nem o único a apostar nesse filão. As primeiras fazendas indoor foram criadas no Japão como solução para dois problemas: a falta de espaço e a incidência de acidentes naturais, como terremotos. Por conta delas, os japoneses fizeram avançar a cultura hidropônica e o desenvolvimento de ambientes com luz e temperatura controlados. Hoje, esses princípios guiam investimentos até há pouco inimagináveis. Fundador da Pure Agrobusiness Inc., uma empresa especializada na venda de equipamentos para cultivo legal de Cannabis, Rick Byrd quer usar a sua larga experiência em agricultura indoor para revolucionar a forma como produzimos alimentos. Segundo ele, as tecnologias atualmente utilizadas para a produção de maconha — uma cultura recém-legalizada nos Estados Unidos e com margens de lucro enormes — logo estarão mais acessíveis e poderão ser adaptadas para o cultivo de qualquer vegetal. O cultivo hidropônico é eficiente. Já os elevados gastos com energia seriam compensados pela redução nos custos de logística, fertilizantes e pesticidas. Segundo ele, em muito pouco tempo essas fazendas urbanas serão economicamente viáveis. Seu sonho é construir um prédio de 100 andares dedicado exclusivamente à agricultura. De alface a maconha, sua produção seria capaz de abastecer milhares de pessoas em seu entorno.

COMPUTADOR DA COMIDA

O número cada vez maior de projetos em fase de implementação tem chamado a atenção até das universidades, que nos últimos tempos passaram a investir fortemente em pesquisas relacionadas à agricultura indoor. O prestigioso Massachusetts Institute of Technology (MIT), por exemplo, criou um programa dedicado exclusivamente ao estudo e ao compartilhamento de informações sobre novas formas de produção. Dentro do Open Agriculture Initiative, especialistas de diversas áreas desenvolveram sistemas capazes de monitorar e criar ambientes ideais para a produção de diversas espécies vegetais. O projeto possibilitou a criação do que eles chamam de “Food Computer” (computador da comida), uma plataforma tecnológica que usa sistemas robóticos para controlar e monitorar clima, energia e crescimento das plantas dentro de uma câmara. A versão individual do aparelho, na visão dos cientistas envolvidos, poderia transformar qualquer pessoa em um fazendeiro doméstico. Também foram criados protótipos para escalas maiores: “servidores”, do tamanho de contêineres e que poderiam ser utilizados por restaurantes e lojas de alimentos, ou “food data centers” para operações comerciais de maior porte.

O projeto dos Food Computers do MIT é uma plataforma aberta de conhecimento. Dezenas de caixas foram construídas e, em seguida, emprestadas para algumas escolas a fim de serem utilizadas como hortas. Os operadores têm autonomia para cuidar da plantação como bem entenderem. Todas as variáveis necessárias para a produção – temperatura, humidade, oxigênio, dióxido de carbono, energia, água e consumo de nutrientes – podem ser controladas e ajustadas por meio de sensores eletrônicos. As informações são constantemente coletadas e transferidas para um banco de dados centralizado. Em pouco tempo, será possível identificar com precisão as melhores condições de cultivo para cada uma das culturas e compartilhar essas informações com as fazendas verticais, que assim se tornariam ainda mais eficientes.

A MAÇÃ PERFEITA

A demanda de consumidores mais exigentes cria oportunidades de negócios em várias áreas e movimenta empreendedores e laboratórios científicos. Com tecnologia e pesquisas de opinião disponíveis, as principais indústrias de alimentos do mundo criaram divisões para design de alimentos, capazes de provocar transformações até em mercados onde se julgava que nada de novo poderia acontecer. Um exemplo clássico de como a vontade do cliente guiou uma revolução na agricultura é o de uma variedade de maçãs que hoje domina o mercado americano. As vendas da fruta estavam estagnadas até o início dos anos 1990 e pesquisas indicavam que os consumidores não estavam satisfeitos com o sabor e a aparência das variedades tradicionais, como Gala, Fuji e Red Delicious. Foi então que entrou em cena a Honeycrisp, desenvolvida e patenteada décadas antes pela Universidade de Minnesota.

Lançada no mercado em 1992, ela rapidamente caiu no gosto do consumidor americano e começou a ser cultivada em larga escala. Na última década, tornou-se líder no mercado norte-americano – que movimenta, nas fazendas, cerca de US$ 4 bilhões ao ano –, mesmo custando o triplo do preço. A variedade nasceu do desejo de uma indústria de criar uma maçã perfeita: menor, mais bonita, com uma casca mais crocante e o interior mais doce e suculento, resultado de 30 anos de pesquisas e cruzamentos genéticos. A Universidade de Minnesota recebe royalties sobre as vendas do produto. Somente em 2015, foram cerca de US$ 6 milhões em dividendos, dinheiro que tem sido utilizado para financiar novas pesquisas na área de tecnologia de alimentos.

O design de alimentos é uma tendência cada vez mais presente na indústria, embora não seja uma atividade exatamente nova, inclusive no Brasil. Vegetais melhorados, fortificados ou alterados geneticamente para que tenham maiores níveis de nutrientes e vitaminas, com foco na agricultura familiar e com a produção destinada aos programas de combate à desnutrição, são foco há décadas de pesquisas da Embrapa e de empresas privadas e já resultaram em uma série de produtos cultivados regularmente em nossas lavouras. O que tem mudado recentemente é o foco das pesquisas, muito mais alinhadas aos desejos e necessidades dos novos consumidores.

A Bayer, por exemplo, desenvolveu recentemente uma variedade de melancia menor, sem sementes e com mais nutrientes que as tradicionais. Enquanto uma melancia convencional pesa em média 15 quilos, a fruta da Bayer tem um peso médio de 6 a 8 quilos. “Isso facilita o transporte e armazenagem, bem como evita o desperdício do alimento”, afirma Guilherme Hungueria, especialista de marketing da Unidade de Sementes de Hortaliças da Bayer. “O produto ainda é saudável, já que contém o dobro de antioxidantes que a melancia convencional, além de possuir um sabor e uma doçura inigualáveis”. De fato, o consumidor atual passou a adicionar a praticidade em sua lista de fatores importantes para a decisão de compra de um produto. “Nesse sentido, a Bayer vem fazendo diversos investimentos para atender essa demanda latente e melhorar a experiência do consumidor”, diz. Outro lançamento da empresa tem, por exemplo, evitado o derramamento de lágrimas nas cozinhas brasileiras. Trata-se da cebola Dulciana, melhorada para não fazer chorar. Isso é possível porque o novo híbrido possui menos ardência, que é a característica que faz com que choremos no momento do corte. “Enquanto o consumidor quer praticidade e qualidade nos alimentos, os produtores rurais buscam, além disso, sementes com produtividade elevada e com resistência a doenças, características presentes na boa genética”, afirma Hungueria, lembrando que a empresa alemã trabalha com o melhoramento de sementes há mais de 100 anos.

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A PALAVRA É “ALTERNATIVA”

O cenário para a indústria de alimentos e seus vários atores é complexo e passa por discussões apaixonadas. Enquanto parte dos consumidores prega a volta para um padrão de alimentação mais natural, com menos intervenção da ciência, e valoriza variedades não transgênicas, outra corrente vislumbra um caminho em que os laboratórios desenvolverão opções desenhadas sob medida para as necessidades de grupos específicos ou até de indivíduos. Assim, a palavra de ordem para os próximos anos parece ser mesmo “alternativa”. Com o mercado em expansão, haverá mais oportunidades para produtores, independentemente do caminho que tomem na encruzilhada quase ideológica em que o setor se encontra.

O caso da Nestlé, maior empresa de alimentos do mundo, é emblemático. O chairman da companhia, Peter Brabeck-Letmathe, optou por uma linha bem clara, sem meias palavras. A multinacional suíça trabalha com design de alimentos há um século e meio, desde que lançou uma farinha fortificada – a popular Farinha Láctea – em 1867. Mais recentemente, ele reorientou os esforços de seus cientistas para acelerar ainda mais um processo de lançamento de produtos que usariam alimentos como veículos para levar micronutrientes, como zinco e magnésio, para os consumidores. A ideia é transformar as refeições cotidianas em uma forma agradável de medicar e nutrir, quase de forma individualizada, a população. Além de ordenar que os alimentos produzidos pela companhia tivessem expressivas reduções nos níveis de sódio, açúcar e gorduras, atendendo a pressões de mercado, ele passou a adquirir empresas da área de medicamentos e nutrição, para aumentar o conhecimento nessas áreas e montar equipes multidisciplinares capazes de redesenhar a linha da companhia e perseguir a sua visão de futuro, formulada quando, há mais de 20 anos, ele mesmo passou por uma cirurgia e percebeu que a alimentação dada aos pacientes nos hospitais não ajudava como poderia no tratamento. “Você acha que quando você está em tratamento para um câncer alguém pensa no que você vai comer? Ninguém! Então, nós decidimos fazer isso”, afirmou Letmathe em uma entrevista recente ao site de notícias Quartz.

Ethan Brown, CEO da Beyond Meat

VERMELHO OU VERDE

Com temperatura semelhante ao debate sobre a utilização (ou não) de modificações genéticas na formulação de alimentos, as questões que envolvem a produção de proteínas têm impactado fortemente a indústria da carne. As exigências dos millennials nessa área podem ser consideradas ainda maiores, uma vez que muitos jovens são sensíveis às causas do vegetarianismo ou do bem-estar animal, por exemplo. Mais uma vez, não parece que haverá um único vencedor nesse embate. Mas pode haver perdedores, caso as companhias não entendam que, para manter seus mercados, de um lado ou de outro, precisarão dar respostas efetivas às principais demandas dos seus clientes. Sanidade, transparência e informação estão no topo dessa lista. Entre os consumidores fieis à proteína de origem animal, é crescente a preocupação com a forma com que esses animais são tratados, sua origem e alimentação. Os líderes do setor se movimentam nesse sentido, aumentando o índice de certificação de seus produtos e reduzindo o uso de antibióticos e hormônios na dieta dos animais. Nos Estados Unidos, por exemplo, a pressão dos consumidores fez com que a gigante Cargill se unisse à McDonald’s em um programa-piloto de rastreamento do rebanho e de toda a cadeia produtiva que fornece a carne servida na rede. O projeto deve ser transformado em um programa global. Além disso, está trabalhando com granjeiros e fazendeiros para reduzir em 20% o uso de medicamentos em todas as propriedades participantes do programa. Mais de 1,2 milhão de cabeças de gado já passaram pelo processo.

Na outra ponta desse debate, uma nova indústria começa a prosperar com produtores alternativos. Com uma parcela considerável desses novos consumidores aderindo a dietas restritivas — note que o número de vegetarianos nunca foi tão grande —, já existem várias startups investindo no desenvolvimento de carnes de laboratório. O caso mais notório é o da Beyond Meat, uma companhia sediada na Califórnia que produz o que chama de “proteína do futuro”. Esqueça aquele hambúrguer estranho de soja. Quem já provou garante que a carne da Beyond Meat, feita a partir de um mix de vegetais, tem um sabor muito parecido com o da carne de verdade, mas com a vantagem de ser mais nutritiva e 100% livre de colesterol. Se animou? O produto é um sucesso de vendas entre os millennials, mas ainda encontra certa resistência entre os mais velhos. Se você, nobre leitor, faz parte desse segundo grupo, saiba que não vai conseguir fugir por muito tempo. Assim como a nossa comida evoluiu nas últimas décadas, ela continuará evoluindo, provavelmente em ritmo ainda mais acelerado, daqui por diante. Os agricultores e as indústrias de alimentos, como vimos, já estão se organizando para surfar essa nova revolução verde. E você, está preparado?

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