África do Sul – A Polêmica Fazenda de Rinocerontes

Criadores defendem o comércio legal de chifres para proteger os animais. E ainda ganhar milhões

“Quem mal lê, mal ouve, mal fala, mal vê”

Monteiro Lobato


Edição 7 - 17.01.18

Por Fabrícia Peixoto

O rinoceronte sente o baque. O tiro foi certeiro e, em poucos minutos, o animal já não consegue mais se segurar em pé. Deitado no chão, ele ainda tem tempo de observar o grupo que se forma à sua volta, até fechar os olhos. O atirador e sua equipe sacam alguns instrumentos, incluindo uma motosserra, e em 15 minutos a tarefa está cumprida: o chifre do rinoceronte foi finalmente retirado.

O que muitos veem como crueldade, John Hume (foto abaixo) entende como um ato louvável. Aos 74 anos de idade, esse sul-africano é dono da maior fazenda de rinocerontes do mundo, uma área de 8 mil hectares com cerca de 1.400 desses animais ao norte de Johanesburgo. O empresário é um dos maiores defensores da legalização do comércio de chifres de rinocerontes no país – não pelo lucro, segundo ele, mas como forma de proteger os animais da morte. “Eles acabam sendo caçados ilegalmente e mortos por causa dos chifres. Antes, quando o comércio era liberado, não havia essa matança”, diz o empresário. Para proteger os animais da mira dos caçadores, Hume passou a retirar os chifres de sua manada, prática que ele vem adotando desde 2002.

Os animais recebem um tiro de sedação e a extração é realizada em 15 minutos. “Quando realizado de forma correta, o procedimento não causa dor e os chifres voltam a crescer. É melhor que estejam com o chifre pela metade do que mortos”, argumenta o empresário, dono de uma coleção de chifres avaliada em US$ 35 milhões.

A principal demanda pelos chifres de rinoceronte está na Ásia. Em países como China e Vietnã, essa parte do animal é usada na medicina natural, em fórmulas que prometem curar desde uma simples ressaca até o câncer, sem nenhuma comprovação científica. Os chifres também têm um forte valor social nesses países, expostos como troféus por representantes da elite. O que já era valioso tornou-se um verdadeiro tesouro na medida em que diversos países passaram a proibir o comércio de chifres de rinoceronte. Os valores costumam não ser divulgados para não estimular ainda mais o interesse, mas segundo um documentário realizado pela revista National Geographic em 2012, o preço chegava a US$ 65 mil o quilo. Em março deste ano, um rinoceronte de apenas 4 anos foi encontrado morto e sem chifre em um zoológico nos arredores de Paris, na França. Na África do Sul, país que concentra o maior rebanho do mundo, estima-se que 1.215 desses animais tenham sido mortos por caçadores.
“Esse é o problema de proibir o comércio. As pessoas acabam recorrendo ao mercado negro e os rinocerontes são mortos por caçadores de olho no dinheiro”, diz Hume. O argumento do empresário parece ter convencido a Justiça sul-africana. Em abril deste ano, um juiz decidiu suspender a moratória sobre o comércio de chifres no país, em vigor desde 2009. O governo prometeu recorrer da decisão, mas em poucos meses os empresários já haviam organizado um leilão com mais de 500 quilos de chifres.

A mudança na lei também vem sendo atacada por entidades protetoras dos animais. Por meio de um comunicado, a ONG Save the Rhino disse que a medida “não está voltada à conservação, mas sim a ganhos financeiros”.A preocupação é de que as autoridades não consigam fiscalizar o que de fato é legal e ilegal no comércio de chifres. De acordo com a nova lei, tanto compradores como vendedores precisam de uma autorização especial, o que, para alguns especialistas, pode gerar um mercado paralelo para esses documentos, por meio de corrupção. Em meio à polêmica, a demanda por chifres continua. Recentemente, a WWF lançou uma campanha em países asiáticos, em que personalidades como o bilionário Richard Branson (acima, na imagem) afirmam que o chifre de rinoceronte não tem nada além de queratina, com o seguinte recado: “Em vez de consumir um remédio à base de chifre, roa suas próprias unhas”. “Só existe mercado porque existe a procura. A solução para o problema também passa por aí”, diz a entidade.

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