Agronegócio: Plano de País

Por João Hilário da Silva Jr.*


Edição 7 - 19.12.17

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Não é de hoje que o Brasil precisa assumir uma vocação. As economias nacionais, interconectadas pelas tecnologias de informação e pelo fluxo internacional de capitais, interferem umas nas outras. E o equilíbrio das forças econômicas e das vantagens competitivas é fundamental para a estabilidade dos países.

Quando um país assume uma vocação, é porque tem competência e reconhecida vantagem competitiva para exercê-la. E, como consequência, ele atrai investimentos e talentos expertos, é percebido e valorizado, tem sua população engajada e uma plataforma de desenvolvimento, uma estratégia e critérios para tomada de decisão e de priorização dos investimentos. Investe no aprimoramento dos processos e tira proveito dos recursos naturais disponíveis. Forma mão de obra, aperfeiçoa mecanismos, otimiza as cadeias e as legislações. A França é reconhecidamente o país dos perfumes, do vinho, das grifes de acessórios de moda. Os EUA são o país do cinema, dentre diversos outros ramos. A Itália, do design. A China é associada à mão de obra barata, à industrialização. A Colômbia tem a percepção de café de qualidade por um trabalho de marketing de país. Claro que não é possível reduzir um país a um único produto ou setor, mas existem as vocações e as competências, naturais ou desenvolvidas, que nascem de vantagens competitivas bem trabalhadas.

E quanto ao Brasil? Qual seria a nossa vocação natural? Quais são as nossas vantagens competitivas?

Temos uma via. Uma via legítima, natural e comprovadamente de resultado: o agronegócio. Nesse setor, não nos faltam competência e vantagens competitivas. Só nos falta o assumirmos como vocação de país.

A economia brasileira é dependente (em cerca de 25%) do agronegócio para manter-se superavitária e pujante. E não é de hoje que os atores desse setor, os que compõem o business to farmer (B2F) – ambiente de negócios formado por marcas, produtos, serviços e tecnologias com foco no produtor rural –, chamam a atenção para o fato de que a nossa vocação é a produção agropecuária. E não se trata apenas da produção primária de commodities, de alimentos e de todos os outros produtos que saem de dentro de uma fazenda. Isso também, mas não só. Para além das fazendas, antes e depois delas, produtos de proteção de cultivos, fertilizantes, biotecnologia, tecnologias digitais como a Inteligência Artificial (AI) e a Internet das Coisas (IoT) aplicadas à produção agropecuária, nutrição e saúde animal, tratores, implementos, ferramentas, irrigação e todas as demais indústrias fornecedoras dessas indústrias mais as de extração de ingredientes naturais como sal marinho, minerais etc., até as originadoras, indústrias de alimentos, de distribuição e varejo e as que produzem muitas das coisas que nos cercam em nosso dia a dia e que, mesmo que não nos demos conta, advêm de algo produzido em uma fazenda, compõem o agronegócio. Olhe ao seu redor e constate.
Somos bons nisso. Somos grandes nisso. Temos vocação para isso.

Nos últimos anos, devido à crise que o Brasil passou (passou?), o setor chamou ainda mais a atenção, nacional e internacionalmente. Todos os que ainda não haviam notado puderam perceber a resistente robustez do agronegócio brasileiro, mesmo no momento adverso da economia do País.

“Somos bons nisso. Somos grandes nisso. Temos vocação para isso”

Ainda mais fortemente o agronegócio brasileiro está sendo desafiado a se organizar, a estruturar suas estratégias e ações como setor econômico do País e potencializar sua força. Mas para isso há uma grande dificuldade inerente
aos setores econômicos: Quem é o setor? Quem é que tem de se articular e se organizar? Quem é o “dono” do agronegócio brasileiro? Quem é o seu CEO?

Como todo segmento econômico, o agronegócio é formado por subsetores que atuam em sua cadeia
de valor e ajudam a compô-la, sendo parte do todo e não o todo. E cada subsetor e seus atores individuais, todos têm suas agendas próprias, seus interesses. E acaba que ninguém cuida do todo.

Agronegócio: Plano de País

Por mais que seja antiliberal, nos parece que o único agente capaz de enxergar e cuidar do todo de um setor econômico é o Estado. Pelo menos no Brasil de hoje.

E o Estado passa pelo interesse dos governos que, por sua vez, passam pelos interesses dos políticos. Sendo que estes últimos devem (ou deveriam) cuidar prioritariamente dos interesses do País e de sua população. É um ciclo ou um looping que em situações normais se retroalimenta e gera o progresso das nações e o bem-estar de suas populações.
Durante o período de 9 a 21 de outubro deste ano, por uma iniciativa conjunta da PlantProject, da consultoria JH /B2F e da empresa de pesquisas Bridge Research, realizamos uma pesquisa quantitativa de opinião, de amplitude nacional, chamada “A Percepção do Campo na Cidade”. Propositadamente fomos verificar o que pensa a cidade com relação ao campo e descobrimos que, na intenção, já somos o país do agronegócio. Quando perguntado o quão relevante a vocação do Brasil para o agronegócio seria para o seu reconhecimento internacional, 87% da população das cidades acharam relevante ou extremamente relevante.

E qual seria o sentimento da população se o País assumisse essa vocação? Noventa e seis por cento da população urbana sentiria orgulho se o País assumisse sua vocação para o agronegócio.

Por fim, perguntamos algo bastante importante para que o Brasil, como projeto de Estado, pudesse colocar o agronegócio como plano de país: “O quanto você estaria disposto a votar em um candidato à Presidência da República que tivesse como proposta estabelecer o Brasil como o país do agronegócio?”. E simplesmente 73% da população brasileira das cidades com certeza votaria ou provavelmente votaria nesse candidato!

Enfim, parafraseando o dito popular, não temos apenas a faca e o queijo, mas também a soja, o milho, o algodão, a carne, o leite, o etanol, a cana-de-açúcar, o couro, o arroz, o feijão, o café, as frutas e hortaliças etc. nas mãos. E, ainda, o importante suporte da população urbana brasileira.

Com o resultado dessa pesquisa, nos parece que, agora, não há entraves para que possamos efetivamente construir um plano de país que assuma a vocação brasileira para o agronegócio. Com esses dados, nossos políticos podem estabelecer uma plataforma de governo com uma clara estratégia de Estado, para cuidar dos interesses do País e da nossa gente. Agronegócio: Plano de Brasil.

 

*Sócio e consultor sênior na JH/B2F – Estratégia e Posicionamento em Business to Farmer (jh@business2farmer.com)